Eu amo os livros do Neil Gaiman. Sério. Eu sou a pessoa que chorou com os arcos mais secundários de Sandman e que também chorou com o final de Lugar Nenhum, não porque era muito emocionante, mas porque eu tava chateada que um livro que eu gostei tanto tinha acabado.

Li Deuses Americanos ano passado e estava ansiosa. Eu sei que a gente tá numa época que temos medo de esperar muito alguma coisa porque pode ser ruim, mas a série tinha que ser muito ruim pra eu não gostar, o que definitivamente não é o caso aqui.

O primeiro episódio de Deuses Americanos tinha a função de apresentar um mundo meio louco para os fãs e para pessoas que nunca leram os livros. Já dá para ver um visual marcante, atores que se encaixam com personagens e uma história que vai precisar de mais que um episódio para fazer sentido. No geral, acho que a estreia deu um passo na direção certa. Deuses Americanos é um livro que começa difícil, mas te ganha ao longo dos capítulos. Particularmente, eu acho que a série devia tentar ganhar o público mais cedo, mas essa abordagem pode explicar algumas coisas que vimos.

Assim como as críticas que eu normalmente faço de Game of Thrones, vou falar (ou ao menos pretendo) de todos os episódios ao longo das semanas com spoilers da série. Os comentários que farei sobre os eventos do livro são só as coisas que a série já mostrou (ou cortou).

fe96ec6a-ea7f-4e80-a8b0-7263069aea35

A coisa que mais me chamou a atenção em The Bone Orchard é o quão fiel a série está. Até uma pausa na história de Shadow para mostrar Bilquis aconteceu onde eu imaginava. E, apesar disso, a série não começa do mesmo jeito que o livro. No original, há algumas pausas na história de Shadow para contar outros eventos e é assim que a série começa, mostrando os vikings chegando na terra nova. Aliás, esse é um excelente momento para dizer que a série é bem violenta, com momentos até improváveis e “engraçados” nas lutas. Já é um banho de sangue logo nos primeiros minutos e, pela cena final, a série não pretende mudar isso.

Depois nós finalmente vemos Shadow saindo da prisão mais cedo porque sua esposa morreu. É, quem começou agora já percebeu que nada é fácil na vida de Shadow. Assim que ele consegue entrar no avião, encontra Wednesday, que vai ser um personagem bem importante ao longo da série.

Ian McShane nasceu para ser Wednesday. Ele é tudo que eu queria no personagem e até mais, é óbvio que isso pode mudar, mas enquanto ele fazia um longo monólogo apressado no avião, fazendo Shadow se perguntar mentalmente “Que p* é essa?”, eu só conseguia sorrir. Wednesday é excêntrico, ao contrário de Shadow, e muito da história é a relação entre esses dois personagens. Aliás, Ricky Whittle começa com um protagonista melhor que o do livro. Quando eu li Deuses Americanos, uma das coisas que me irritava era que Shadow só aceitava toda a loucura que estava acontecendo ao seu redor. O da série também não contesta muito, mas ele parece mais confuso, dá para ver que o cara acabou de sair da cadeia e só tá de saco cheio. As atuações em geral já se mostraram um ponto alto da série.

Aí tem a cena da Bilquis, onde ela literalmente come um homem com a sua vagina. Há várias coisas que devem ser consideradas aqui: Primeiro, que é uma mulher negra no papel de deusa, o que é positivo. Porém, ela é uma das únicas mulheres que apareceram no episódio, a única negra, e é sexualizada. Sim, na cena ela está em poder o tempo todo, como já falei, ela devora o cara com quem está fazendo sexo, e visualmente a cena é muito bem feita, dando foco no poder dela. No IMDB mostra que Bilquis vai aparecer em vários episódios, então é bem possível que ela tenha um arco mais relevante que o que ela teve no livro, o que dá espaço para eles representarem ela como uma mulher dona de sua sexualidade e mais que um estereótipo. Mas ela também pode cair em um clichê de “deusa que usa de sua sensualidade para matar homens”, então vamos ter que esperar os próximos episódios para ver como Bilquis vai ser representada.

american-gods-season-1-episode-1-review-the-bone-orchard

Enquanto essas coisas vão acontecendo, Shadow tem vários sonhos bizarros. Eu espero que esses simbolismos que aparecem tenham alguma conclusão eventualmente, se não só vai servir para serem cenas bonitas sem função alguma. Porém, estou otimista quanto a isso. Nesse primeiro episódio já vi referências de coisas que vão acontecer no futuro, quem leu o livro deve ter reparado também, então pelo menos a série parece saber para onde vai e o que quer mostrar em cada episódio.

Continuando as Desventuras de Shadow, ele descobre que não só sua esposa morreu, mas também seu melhor amigo, que inclusive ia dar um emprego para ele, o que era uma baita ajuda, já que muita gente não quer contratar uma pessoa que saiu da cadeia. Nessa, Shadow acaba aceitando trabalhar para Wednesday.

É nesse momento que Shadow também conhece Mad Sweeney, que não tem problema nenhum em mostrar seus poderes. Dá para perceber que tanto ele quanto Wednesday se expressam de forma diferente de Shadow, o que é interessante pensando que os dois não são exatamente pessoas normais. Particularmente achei a cena da briga um pouco esquisita, não a ação em si, mas o fato de Mad Sweeney querer tanto brigar com Shadow sem um bom motivo.

Depois Wednesday leva Shadow para o funeral da mulher, onde ele descobre que ela estava tendo um caso com o melhor amigo de Shadow, aquele que ia dar o emprego para ele, mas morreu. Aliás, os dois morreram juntos. Eu fiquei feliz que alguns detalhes do livro dessa parte foram cortados. É óbvio que Audrey, a viúva, está arrasada, mas me incomoda um pouco como toda a mulher que apareceu nesse episódio, e não foram muitas, podem cair em algum tipo de estereótipo relacionado à sexualidade. Eu espero mesmo que isso tenha sido só nesse episódio, e que no próximo vejamos as personagens mulheres ganhando espaço. Já falei que gosto do Neil Gaiman, mas não é sempre que ele sabe lidar com suas personagens mulheres, então espero que a série melhore esse aspecto.

American Gods Season 1 2017

No final, Shadow é sequestrado por Technical Boy. Aqui é legal falar que, ao que tudo indica, a série sabe que é uma história contada em 2017, e não apenas uma adaptação de um livro com coisas já datadas. A produção da série parece saber que precisam atualizar alguns elementos do original. Technical Boy é o deus da tecnologia, jovem e rápido, tanto no jeito de falar como no fato de querer respostas na hora. Se ele sabe tanto sobre Shadow como parece saber, devia ter noção de que ele acabou de começar a trabalhar para Wednesday e dificilmente vai saber qualquer coisa útil.

Como Shadow não pode ajudar, e fala que não ajudaria se pudesse, Technical Boy fica bravo e faz com que Shadow leve uma surra. Aqui temos outra cena muito violenta, não só porque alguém mata todos os agressores de Shadow em um banho de sangue, mas também porque é um cara negro apanhando e sendo enforcado por vários caras brancos. Eu não acho que a cena precisava ser assim, por mais que Deuses Americanos esteja usando e abusando de suas cenas violentas, mas aqui, para mim, passou do ponto.

Como fã, reconhecendo a história e os personagens que gosto, fiquei feliz com o primeiro episódio e achei bom no geral, mas alguns pontos precisam melhorar. A narrativa está um pouco confusa. Imagino que quem não sabia nada da história antes pode ter assistido e pensado “O que tá acontecendo aqui?”. Neil Gaiman é o tipo de escritor de fantasia que te joga no universo e você vai aprendendo as regras do mundo aos poucos e Deuses Americanos não é exceção. Mas na série, se ficar confuso por muito tempo, as pessoas podem ir desistindo. Eu espero que no próximo episódio eles expliquem um pouco mais o que está acontecendo. Não precisa desacelerar muito, eu acho que o ritmo de “várias coisas ao mesmo tempo” é bom, mas a série mal começou, já apresentou muita coisa e ainda tem mais para apresentar. É preciso ter cuidado agora para não ficar demais e largado.

Então sim, por enquanto estou feliz, mas espero gostar mais. Deuses Americanos é uma história que começa esquisita e vai crescendo no leitor. Pelo primeiro episódio da série, eu acho que eles pretendem seguir esse caminho. Fico preocupada com a representação feminina e o excesso de elementos, mas aparentemente eles não pretendem resolver tudo em uma temporada, então isso pode ser bom.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

%d blogueiros gostam disto: