Assim como Git Gone, o sexto episódio da série também é bem diferente do livro original. Além de ter criado um novo trio improvável, A Murder of Gods também dá espaço para um deus que nunca tinha sido abordado no livro: Vulcano, o deus romano do fogo.

Nesse episódio a série também mostra, se já não tinha mostrado antes, que não tem medo de tocar em assuntos políticos e delicados para o cenário atual dos Estados Unidos (e de outros lugares do mundo também). Não só com a cena inicial, mas também toda a introdução de Vulcano na história.

A Murder of Gods, por mais importante que seja para construir as regras do universo e de como o fantástico funciona, me pareceu um pouco repetitivo em certos momentos, avançando pouco na história principal, ou pelo menos não tanto quanto eu gostaria. Porém, o fato do foco ter sido mais dividido recupera um pouco a dinâmica do episódio.

Esse texto tem spoilers!

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Geralmente a cena inicial, que mostra um deus chegando aos Estados Unidos, fala de alguma divindade chegando anos antes dos eventos atuais, porém a cena desse episódio não podia ser mais contemporânea, em vários sentidos. Um grupo de mexicanos está tentando cruzar a fronteira, mas são encontrados por guardas que atiram neles sem dó.

Junto com esse grupo, vemos Jesus, que está ajudando os mexicanos, inclusive protege alguns deles dos tiros. Dá para ver que os que estão atirando também são religiosos. Acredito que essa cena sozinha abra várias possibilidades de interpretação, mas do meu ponto de vista fica uma sensação de que os que usam a violência afirmando que estão “seguindo a palavra de Jesus”, são os que estão mais longe de seus ensinamentos. Além de ser uma cena que não tem medo nenhum de mostrar um problema real nos Estados Unidos, ainda mais relevante com o novo presidente.

De volta para o nosso protagonista, Shadow está bem irritado e confuso com tudo que aconteceu, e ainda bem, porque ele deveria estar mesmo. Eu simplesmente adoro quando Shadow fica furioso e indignado com tudo o que acontece. De qualquer forma, aqui Wednesday levanta uma questão importante: Se é a fé dos humanos que dá força para eles, o que veio primeiro, deus ou os humanos? Pela lógica da série, deuses devem ter surgido por causa dos humanos, mas Wednesday não dá essa resposta.

Shadow também fala de Laura, que voltou dos mortos. Aliás, ele aproveita esse momento para fazer várias perguntas e reclamar que Wednesday não dá nenhuma resposta, o que é muito real. Ele aparentemente ficou preocupado com a informação de Laura e parece que vai querer mantê-la longe de Shadow o máximo possível, mas considerando que ir atrás do marido é o grande foco da vida pós-morte de Laura, talvez isso não seja tão fácil.

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Mad Sweeney e Laura formam uma aliança meio improvável, porém muito divertida. Ele sabe que precisa da moeda que está com Laura, então se der um jeito de trazer ela de volta para valer, vai conseguir recuperar a moeda. Talvez sim, talvez não, mas é a melhor chance dele agora, porque Laura não vai obedecer Mad Sweeney e nem ninguém. Eles tentam roubar um táxi, mas o dono os pega no flagra: Salim, o homem que ficou com o djinn no primeiro episódio.

Eu achei bem legal que alguma dessas histórias tenham encontrado a trama principal. As primeiras cenas dos episódios normalmente fazem alguma ligação com o tema central que será tratado, mas esses “contos” normalmente são separados. Por mais legais que eles sejam, não adicionam muito para a história de Shadow, então é bom ver Salim de volta. Ele está procurando o djinn, porque de acordo com ele, não é mais o mesmo depois daquele encontro.

É interessante a dinâmica destrutiva entre Laura e Mad Sweeney. Ele é uma pessoa muito difícil de gostar, sendo grosso e ofensivo com as pessoas, mas entre os dois, Laura é a pessoa mais ameaçadora. Além disso, a dinâmica entre Laura e Salim é muito legal também. Salim tem uma visão muito mais espiritual da vida, enquanto para Laura a coisa boa é só estar viva. Nenhuma das duas visões está errada, para eles esses pensamentos funcionam e é isso que basta.

Wednesday e Shadow encontram Vulcano em uma cidade no sul dos Estados Unidos. Várias pessoas brancas estão seguindo o deus, empunhando suas armas e olhando torto para Shadow, o único homem negro do lugar. Outra coisa interessante nessa cena é que Deuses Americanos mostra o que acontece quando alguém atira para cima: A bala volta. Parece óbvio, mas a gente raramente vê isso na televisão.

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Vulcano e Wednesday se cumprimentam e aparentemente eles têm uma relação boa. Toda a casa de Vulcano parece mostrar como é a personalidade daquele deus. Vulcano é um deus antigo e aparentemente está levando a vida bem, mas mesmo assim aparentemente concorda em ir com Wednesday para a tal reunião dos deuses antigos.

Mas tudo estava muito fácil, então acredito que já era um pouco óbvio que Vulcano não estava sendo completamente sincero. Eles descobrem que na verdade o deus fez um acordo com os deuses novos. Agora ao invés dele tirar forças das pessoas que louvavam o fogo, Vulcano tira suas forças da indústria de armas, não é para menos que ele fica naquela cidade.

Poucas coisas são mais louvadas nos Estados Unidos que armas de fogo. No Brasil não temos essa cultura, não podemos portar armas da mesma forma que nos Estados Unidos. Lá, em alguns estados, a situação é tão banalizada quanto a representação dessa cidade em Deuses Americanos. Isso tudo sem contar todo um discurso relacionado com armamento e assuntos militares.

Com certeza, se um deus quisesse ser louvado com alguma coisa relacionada a isso, estar nos Estados Unidos e usar esse amor por armas das pessoas seria uma boa “fonte de poder”. Isso com certeza é uma crítica ao jeito que as pessoas dos Estados Unidos encaram essa questão. Além disso, é um fator muito importante para entender o conflito entre os deuses antigos e os novos.

Apesar de Wednesday estar agindo desde o primeiro momento, nós vimos pouco das ações dos deuses novos até o último episódio. Não dá para saber se Vulcano estava causando tantos problemas quanto Wednesday, mas de alguma forma, os deuses novos chegaram nele e ofereceram uma forma nova de “ser louvado”, e ao que parece está dando certo. Os deuses novos sabem perfeitamente que esses deuses antigos podem ser uma ameaça, portanto estão oferecendo outras alternativas.

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Vulcano quase passou por uma reinvenção. Armas de fogo tem a ver com o que ele era louvado originalmente, mas não é exatamente a mesma coisa. Isso incomoda Wednesday, um deus antigo ser levado a mudar sua origem para se adaptar ao novo mundo. Mas aí fica a pergunta: Será ruim mesmo? As coisas sempre mudam e precisam ser adaptadas. Nós sempre falamos que o mundo vai se modificando e as pessoas que não acompanham ficam para trás, talvez isso possa acontecer com Wednesday caso ele não repense sua atitude, mas ainda não sabemos exatamente o que ele pretende fazer com a tal reunião.

Shadow fica chocado quando Wednesday mata Vulcano, e aí fica outra pergunta: Deuses podem morrer dessa forma? Nós sabemos que eles param de existir se ninguém mais acreditar neles, que é algo que assusta Wednesday, mas eles também podem morrer de formas mais “humanas”, digamos assim? E se esse é o caso, por que Wednesday não tentou fazer isso antes com os deuses novos?

Apesar de vários elementos legais no episódio, é um pouco chato ver o protagonista de forma tão passiva. Ele questiona, reclama e mostra que está inconformado, coisa que Shadow não faz sempre, mas ele passa o episódio todo apenas seguindo os passos de Wednesday, coisa que ele não faz tanto nos outros episódios.

Para terminar, vemos um último momento com o trio improvável, em que dá para ver mais uma vez a diferença gritante entre Laura, Mad e Salim. Mad Sweeney fala o quão perigoso Wednesday é, tem um discurso um tanto quanto idiota sobre homens gostarem de sexo anal (a resposta de Laura me fez gargalhar), e ela volta a dizer que precisa encontrar Shadow, que é seu objetivo. Eu ainda não estou muito feliz com esse arco, mas vou esperar para ver. A série já me entregou muitos elementos que melhoraram a personagem que Laura era no livro, então tenho esperança. Mas ainda assim, ela é a única mulher com um papel importante até agora, tirando Mídia, que não aparece sempre.

Deuses Americanos deu uma desacelerada, mas continua apresentando elementos interessantes para o universo da série. Quase me lembra o passo de Game of Thrones, que arruma seus personagens para uma conclusão interessante no final. Estamos chegando ao fim da temporada e eu queria muito que a reunião dos deuses antigos acontecesse antes ou algo impactante que faça Shadow mudar. Eu gosto de ver esses elementos que enriquecem o mundo de Deuses Americanos, mas eu quero ver movimentação, coisas que me deixem tensas como uma luta entre deuses deve ser, por mais política que acabe sendo. Eu gostei desse episódio, mas agora eu quero mais da série, então vamos ver o que vai acontecer agora.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

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