Muita gente por aí tem medo de problematizar obras de entretenimento de outros países, especialmente coisas do oriente. “Não é da nossa cultura”, “Ah, mas lá é diferente”, são argumentos comuns para esse tipo de postura. No entanto, existem muitos aspectos que podem sim ser discutidos e problematizados sem que isso machuque, necessariamente, a cultura alheia. Isso vale para questões feministas, como, por exemplo, a expressão da cultura do estupro nos mangás.

O Japão é, de fato, uma cultura fundamentalmente diferente da nossa, e não é difícil inferir que a cultura do estupro também se expresse de maneira diferente. A estrutura do mercado de mangás no Japão ainda é extremamente misógina e sexista (isso é um fato, e não tem nada de imutavelmente cultural nisso), e provas não faltam em qualquer gênero que seja abordado. Isso está além de questões culturais específicas: é um problema a ser analisado sob o viés dos direitos da mulher que deveriam ser vistos como universais.

Considerando que o mercado de mangás no Japão é incrivelmente setorizado, também vai expressar-se de maneiras diferentes de acordo com o gênero do mangá.

Nesse texto, analisaremos 3 abordagens:

1- O estupro como fetiche, nos hentais;

2- A normatização do assédio moral e físico nos mangás shoujo;

3-O estupro como plot device em mangás yaoi.

Vamos lá!

1- O estupro como fetiche: A relação intrínseca do estupro com a produção da pornografia de quadrinhos japoneses (hentai)

Discutir como a cultura do estupro se expressa dentro dos quadrinhos pornográficos, popularmente conhecidos como hentai, é falar, especialmente, em como essa pornografia é produzida e inserida na sociedade japonesa. Enfermeiras, colegiais, professoras, crianças (as famosas Lolitas ou Lolis), policiais… nenhum aspecto ou profissão de uma mulher escapa de uma versão hentai e sua eventual fetichização. Qualquer pessoa que já consumiu o mínimo de pornografia online já deve ter se deparado com alguma “produção japonesa” dentro das inúmeras opções de vídeos. Vídeos adultos nipônicos são protagonistas no cenário de pornografia asiática para o ocidente e geralmente são referência internacional em fetiches -mesmo que não seja tudo que eles produzem- (Quem nunca encontrou ou ouviu falar de vídeos protagonizado por mulheres e tentáculos?) e os mangás hentai não são diferentes.

A expressão da cultura do estupro, no caso do hentai, não é subliminar, nem escondida, nem considerada vexatória: mangás cujo conteúdo apresenta mulheres sendo brutalmente estupradas é vendido e consumido como fetiche. 

Obviamente essa noção também existe dentro da produção pornográfica ocidental, porém o problema do estupro dentro dos mangás hentai vão além de um simples gênero: a coisa está tão naturalizada que é possível identificar diversas situações de estupro em diferentes subgêneros do hentai, onde o estupro nem seria o foco principal: a mulher dormindo, drogada, a mulher que diz “não” -não é atendida e eventualmente cede-, a criança ou adolescente abaixo da idade de consenso,  etc. Não existe nenhuma situação de vulnerabilidade feminina que não tenha sido explorada e capitalizada pelo mercado de hentai. 

1Chijoku Chikan Midara ni Aegu Onna-tachiSão inúmeros os subgêneros que lidam especialmente com a fetichização do estupro e do assédio sexual dentro dos mangás pornográficos. Podemos exemplificar através do subgênero Chikan, que  romantiza um problema social preocupante: o assédio sexual em vagões de metrô. Nesses tipos de mangás é comum, assustadoramente comum, a mulher ser representada em situação de vulnerável, estuprada por um ou mais passageiros do trem, e, para completar o fetiche, eventualmente “cede” e permite os abusos “com prazer”, criando a ideia de que a mulher, no fundo, gosta da situação.

(De acordo com a última pesquisa realizada pela Polícia Metropolitana de Tóquio, DOIS TERÇOS das mulheres usuárias dos sistemas de metrôs entre 20 e 30 anos já sofreram algum tipo de assédio sexual dentro dos vagões, e a esmagadora maioria relata que os casos são frequentes. O Japão foi um dos primeiros países a instituir o vagão apenas para mulheres.) Este é apenas um dos inúmeros exemplos.

É leviano pensar que o fetiche dos mangás e os casos de assédio reais tem uma relação direta de influência. Porém, também é leviano pensar que eles não tem relação alguma! Os mangás hentai que fetichizam estupro vendem a ideia de que a mulher gosta de ser estuprada. Os mangás hentai representam situações de “duvidosas” de estupro como naturais e eróticas. Os mangás hentai objetificam, erotizam, fetichizam e capitalizam todas as idades, aspectos, corpos, profissões e personalidades que a mulher pode assumir. Não há nenhum aspecto dessa realidade que não seja problemática.

Vender o estupro como fetiche faz parte da cultura do estupro.

(Até então, o governo e o mercado japonês não adereça a produção de pornografia desenhada que contenha material controverso (estupro e pedofilia, especialmente) como especialmente nocivo a sociedade. Os artistas defendem seus direitos de “liberdade de expressão” e que, desde que não estejam machucando mulheres e crianças de verdade, não há problema em produzir esse tipo de material.)

2- A normatização do assédio moral e físico em mangás shoujo

Em um texto anterior publicado no Collant, foi analisado como os papéis de gênero e o sexismo são  enraizados e perpetuados dentro do mercado de mangás shoujo e como a submissão feminina e a dominação masculina ainda é considerado uma “trope” (eixo temático) na maioria dos mangás dedicados a meninas. Quando o assunto é a dominância masculina, os personagens que expressam isso (os famosos “demônios”, ou “príncipes negros”, etc) são usualmente rudes, possessivos, ciumentos ou frios e normalmente abusam emocionalmente e assediam o seu “objeto de afeição”, a protagonista. Nesse caso, é comum vender o abuso emocional e físico como sexy, romântico e desejável.

2Personagens femininas estão constantemente sendo representadas como tolerantes as ações problemáticas dos personagens masculinos. Isso reforça a ideia de que elas podem ser tratadas de qualquer jeito, e que os homens têm o direito a isso. Consequentemente, isso exime o personagem masculino da responsabilidade por suas ações, o famoso “meninos serão meninos”. Isso abre um precedente para inúmeros tipos de romantizações problemáticas: abuso doméstico, relacionamentos abusivos, estupro, assédio, etc.

(Essa análise é baseada em cima das tendências mais frequentes em mangás shoujo, depois de uma VASTA pesquisa diretamente da fonte. Nada foi analisado em cima de scans de internet. SIM, existem excelentes exceções! Infelizmente essas ainda não são a regra. Por mais que Akatsuki no Yona, por exemplo, seja bastante empoderador como mangá nesse sentido, ela é um feixe de raio de sol despontando em um dia bastante nublado.)

3- O estupro como plot device: A romantização do estupro em mangás yaoi e a “heteronormatização” do relacionamento homoafetivo.

Essa vai ser uma análise bastante impopular, mas, entendam: os mangás yaoi/BL (onde casais homoafetivos protagonizam as próprias histórias) é bastante higienizado. Poderia até ser dito que a espantosa maioria dos mangás yaoi chegam a ser, no sentido brando da palavra, heteronormativos. (Essa análise exclui os mangás Bara, onde casais homoafetivos também são protagonistas, mas sob outro prisma e com outro público-alvo, infinitamente menor que o público consumidor do Yaoi/BL).

É importante ressaltar que, apesar de serem mangás protagonizados por homossexuais, o público-alvo desse mercado  no Japão são as mulheres. Toda a estrutura do negócio é construída com o público feminino em mente, e consequentemente trouxe alguns vícios da heteronormatividade consigo: o estereótipo do seme e do uke.

Isso não é uma regra (existem exceções também!), mas é inegável que a maioria dos mangás yaoi seguem esse perfil de casal: o seme, o “ativo”, é quase sempre o personagem mais alto, com feições consideradas mais masculinas, o provedor, o mais forte. Basicamente a visão do “homem perfeito” que as pessoas atribuem ao gênero masculino. O uke, o “passivo”, é quase sempre mais baixo, fraco, com feições mais feminilizadas (e muitas vezes com complexo por isso), e atuando no papel do que recebe as “investidas”  do seme… sejam elas violentas ou não.

O cenário é assustadoramente parecido com os do mangá shoujo. Inclusive, a própria estrutura narrativa dos mangás yaoi é parecida com as do shoujo. O uke pode até ter um pênis, mas ele ocupa a mesma posição de “passividade” que a mulher, só que dentro de uma relação homoafetiva.

2Hidoku ShinaideExiste também uma outra diferença, fundamental: normalmente tem conteúdo sexual dentro dos mangás yaoi (os que não tem são conhecidos como shounen-ai, e mesmo assim esses apresentam uma carga erótica mais pesada). Essa simples característica revela uma realidade assustadora:

Tem muito estupro em mangás yaoi.

MUITO. De todas as formas. Romantizado, explícito, fetichizado, até passando como se não fosse estupro. O estupro é utilizado como plot device de um jeito tão bizarramente comum, que muitas páginas de facebook dedicadas ao Yaoi começaram a criar listas de “títulos de mangás yaoi SEM ESTUPRO”.

O por que do estupro ser utilizado de maneira tão frequente dentro deste gênero é, honestamente, uma questão de debate. Não se sabe até que ponto o fato dos envolvidos serem todos homens influencia, de alguma forma, nessa abordagem. Isso fica para futuras reflexões. Porém, essas narrativas são também problemáticas para as mulheres, consumidoras desse material. Não é porque os protagonistas são homens, e gays, que a ideia da “passabilidade” de uma situação de violência sexual não afeta a própria percepção das mulheres sobre o que configuraria um estupro.

É difícil ler/ouvir que uma coisa que você gosta muito pode ser moralmente problemática. Porém, não se deve defender cegamente aspectos que são claramente nocivos a sociedade como um todo dentro de obras de entretenimento. É fácil buscar exceções a regra e refutar um argumento com sofismas (tão parecido com o clássico “Ah, mas nem todos os homens…!”), enquanto 90% da produção continua batendo na mesma tecla: a do sexismo, do estupro, da misoginia, da submissão feminina. Isso também vale pros mangás: podemos não dividir a mesma cultura e história, mas a produção japonesa também está inserida em uma sociedade global. É fácil justificar coisas erradas como “excentricidades culturais” (lembram das touradas na Espanha?) e proceder para deixar tudo como está, colocando tudo acima do que deveria ter mais importância: o fim da naturalização do assédio, da fetichização do estupro e da pedofilia. Como ocidentais, podemos não ter o poder de mudar essa realidade dentro dos mangás, mas isso não significa que devemos deixar os ávidos leitores de mangás nas nossas terrinhas acharem que mangá é tudo lindo e maravilhoso e não há nada de errado ali. É machista sim, tem cultura de estupro sim, e a gente vai problematizar.

Até a próxima!

Joana Joana Fraga, Ilustradora profissional que passa o tempo catando coisa pra ler e estudar sobre cultura japonesa, Sherlock Holmes e feminismo.

%d blogueiros gostam disto: