A hipersexualização das personagens femininas acontecem de diversas maneiras, uma delas é através da câmera, do olhar do diretor/ilustrador. Esse tipo de hipersexualização muitas vezes passa despercebido porque tendemos a não identificar de quem é o olhar que está montando aquela cena, quem é o responsável por decidir hipersexualizar aquela personagem.

A posição dos atores em relação à câmera, a lente escolhida para capturar a cena e a iluminação que incide nos personagens têm tanto ou mais significado do que o diálogo. As ações deles não são só ações: são ações em função do enquadramento, da lente que está sendo usada, da posição deles em relação à objetiva. Cinema, televisão e quadrinhos são imagens. E a imagem é uma ferramenta importante na hora de construir uma narrativa.

Quando um herói ou vilão estão em cena, a câmera é utilizada de maneira a torná-lo mais ameaçador ou mais heróico. São diversas as cenas em que o Superman (ou mesmo o Darth Vader) é filmado com a câmera abaixo da linha do olhar do personagem, para que ele transmita uma aura de estar acima de tudo, de importância – mas raramente dá-se o mesmo tipo de tratamento a uma heroína. Elas são filmadas e posicionadas na câmera de maneira a destacar seus atributos físicos, nunca seus poderes ou sua personalidade. E quando são filmadas/desenhadas assim, dá-se uma estranha evidência à sua virilha, aos seus seios – essas partes dos seus corpos podem não estar no centro do enquadramento, mas geralmente estão nos terços, que são áreas tradicionais de equilíbrio para a imagem e, portanto, atraem o olhar.

Não tente entender a anatomia desse desenho. Não há lógica.

Não tente entender a anatomia desse desenho. Não há lógica.

Yep.

Um bom exemplo de como a câmera trata diferente personagens masculinos e femininos é Esquadrão Suicida. Harley Quinn é constantemente filmada de maneira a exaltar seus seios, sua bunda e mesmo a sua virilha. A câmera desliza pelo corpo da personagem, não para mostrar suas ações, mas para mostrar suas curvas. Na luta corpo a corpo contra um monstro dentro do elevador, não são os movimentos rápidos de Harley que ganham destaque, mas sim a encoxada bizarra que o monstro dá nela.

Mais recentemente, em Luke Cage, nós passamos por um problema similar, que ajuda ainda mais a mostrar a falsa simetria quando se filma uma personagem feminina e um personagem masculino. Logo no piloto, nós temos uma cena de sexo entre Luke e Misty Knight. Misty se torna uma personagem incríel, mas isso não impede a câmera de deslizar pelo corpo da detetive, os detalhes do corpo de Misty são filmados à exaustão, seus seios, Luke segurando seus seios, a bunda de Misty, Luke passando a mão pela bunda de Misty, o detalhe da calcinha de Misty. De Luke, nós temos um rápido plano do seu peitoral.

Luke Cage Misty Knight

Muita gente tenta justificar a hipersexualização feminina com a palavra mágica “contexto”. “Era assim na idade média”, “é assim com os gângsters”, “é assim nessa (insira uma época/local). E a gente sempre volta para o bom e velho “na idade média não existiam dragões” ou “gângsters não têm super-poderes” e etc. É muito fácil achar justificativas para o machismo e a misoginia que suportam o tipo de representação feminina que diminui personagens femininas a objetos sexuais, difícil é construir um trabalho que seja coerente com a trama e que ao mesmo tempo não subjugue nenhuma de suas personagens.

Independente do contexto, ou da falta de, a decisão de hipersexualizar uma personagem muitas vezes vem do diretor ou do ilustrador da cena. Assim como super-heroínas não escolhem as próprias roupas, também não são elas que tomam a decisão de ter a câmera passeando pelo seu corpo, de ficar em posições ginecológicas. É importante identificar quem são os construtores das narrativas visuais de cada filme/quadrinho porque é deles parte importante da responsabilidade de hipersexualizar as personagens femininas. Se olhar desses homens (a maioria esmagadora de produtores de conteúdo ainda é masculina) está viciado em um olhar machista e objetificante então isso vai refletir no modo como ele mostra as personagens femininas na tela.

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