Chegou a hora de nós refletirmos sobre a ideia tão antiga formada de se fazer jogos digitais, de homens cisgêneros para homens cisgêneros. Se o mundo dos games gira em torno dos homens cis, por que devemos defender a ideia de games serem mais representativos? É o que a gente vai ver agora.

Vamos pensar um pouco no mercado de games na nossa cultura brasileira. Ter um console ou jogar videogame é um privilégio. Desde os anos 70, quando o primeiro console produzido em terras gringas chegou ao brasil (TeleJogo), até nos dias atuais, onde vemos o público jovem investir seu dinheiro em jogos para smartphones, PC e outras plataformas. Os impostos sobre esses produtos que eram e são importados – ou até mesmo os produzidos em industrias brasileiras na Zona Franca de Manaus dobram de preço quando vendidos em lojas de eletroeletrônicos e de games no Brasil. E também uma pesquisa feita pelo Busca Descontos em 2015 mostra que: 48% dos usuários do site que são brasileiros gastam, aproximadamente, até R$150 por mês em jogos. Sabendo que o salário mínimo do ano de 2016 é de R$880, podemos ver que nós brasileiros gastamos MUITO com games.  É por isso que,  gastar com jogos digitais é um privilégio numa sociedade onde aluguel, contas de água, de luz, de internet e comida são muito caras conforme a inflação do país aumenta.

Nós sabemos também que, segundo a Pesquisa Game Brasil 2016, as mulheres cisgêneras são maioria no mundo gamer, já que, de 2.848 pessoas entrevistadas, 52,6% são mulheres que jogam videogames. Porém, infelizmente, não há nenhuma pesquisa para saber o alcance e interesse do público LGBTQ+ no mercado de games – já que, bom, as indústrias estão focando em homens cisgêneros o tempo todo e só agora estão olhando para as mulheres cisgêneras, que é apenas uma parcela de todas as outras pessoas que jogam jogos digitais.

Apesar dos números de consumidores brasileiros ser grande, ainda faltam pessoas representativas na produzindo games no Brasil e, talvez, no mundo. As minorias (mulheres cis, pobres, negrxs, indígenas, pessoas trans*, pessoas com identidades sexuais marginalizadas) ainda são uma minúscula parcela perto de produtores executivos, gamer designers, sound designers, músicos, artistas e modeladores 3D que existem nas AAA (indústrias e produtoras de games com maiores orçamentos e níveis de produção/promoção como Epic Games, Rockstar Games e outros) e no cenário indie.

E a importância de existirem minorias no meio gamer, além da oportunidade de emprego e crescimento de renda, é da chance dos games se tornarem mais uma ferramenta poderosa de discussão de temas da atualidade que necessitam ser debatidos. Além disso, com base no combate aos estereótipos, terá um grande avanço na criação de personagens, roteiros e cenários mais representativos, o que raramente temos nos jogos. Pessoas sendo contra a hiperssexualização e objetificação dos corpos ditos como femininos, o preconceito de etnias e raças e a apropriação cultural que sempre vemos por aí.

É claro que a indústria indie melhorou muito, mas ainda há pontos a se problematizar nos conteúdos produzidos de maneira independente, na forma com que essas produtoras de games e pessoas são impulsionadas,  e garantem um sucesso de vendas. Até porque, nós sabemos o quanto o mercado mundial silencia, boicota e exclui minorias com o potenciais à serem grandes profissionais que ganham dinheiro da mesma forma que a Elite sempre ganhou.

A falta de ambientes não tóxicos e acolhedores é também um grande problema que afasta potenciais à jogadorxs e poderia ser revertido se tivesse mais diversidade na indústria.  A todo momento, os ataques e as perseguições às minorias são relatos diariamente e considerados “naturalizados”. A comunidade gamer é extremamente machista, transfóbica, homofóbica, xenofóbica e principalmente elitista, pelo fato de ter condições para bancar esse hobby é um privilégio. Então, nós (minorias) temos de lidar com homens cisgêneros nos expondo, nos agredindo e nos desconsiderando, sendo gamers ou sendo profissionais da área.

E, entre os inúmeros problemas mundiais, aqui na nossa terrinha existe a falta de incentivo e recursos tecnológicos para que mais oportunidades de emprego e de formação de profissionais, que são minorias, se integrem no mercado mundial de jogos digitais. Os cursos são extremamente caros, inacessíveis para o pessoal que vive nas periferias ou que trabalha e ganha menos de dois salários mínimos. Apesar de, aqui em São Paulo, existirem iniciativas como o programa Recode e as FabLabs, que dão aulas de produção de games em diversas plataformas e engines, ainda falta programas educacionais profissionalizantes do Governo para a galera que quer estudar, produzir games, gerar renda e, consequentemente, tornar o mercado maior, mais representativo e mais empático.

Por ora, vamos continuar lutando para que a comunidade gamer seja menos arcaica e preconceituosa e seja mais tolerante e diversa. <3

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