Personagens femininas são hiper-sexualizadas de diversas maneiras: roupas curtas e decotadas em ambientes nos quais isso não faz sentido, super-poderes criados apenas para agradar a sexualidade masculina… Mas existem dois métodos que são pouco falados, a transformação da mulher em objeto de cena e o Movimento/Enquadramento da Câmera. Nesse texto nós vamos focar na Mulher como Objeto de Cena.

Objetos de Cena são os objetos que compõem o set de filmagem. São sofás, abajures, mesas, flores, decorações de maneira geral. Eles ou apenas compõem o ambiente, ou são manipulados pelos personagens em cena. É através deles que os diretores de arte conseguem construir o universo idealizado pelos diretores/roteiristas, ou o próprio ilustrador consegue colocar mais informações na página. Eles podem ser apenas objetos que serão esquecidos, ou podem ser parte importante da narrativa. Esses objetos, algumas vezes, são substituídos por mulheres.

As mulheres que servem como objeto de cena estão sempre nuas ou seminuas. Ficam ou ao fundo de uma cena, ou estão transando com o personagem central – mas sem que a ela seja dada qualquer tipo de importância -, ou passam de mãos em mãos entre os personagens centrais da cena. Elas são usadas para tornar a cena mais interessante, prender a atenção do público enquanto os personagens centrais soltam longos diálogos para aprofundar o plot. Elas também são usadas só para enfeite, para que a cena inteira não fique só regada a testosterona. Mas a única mulher permitida nessas cenas está nua, imagina se eles vão de fato colocar uma mulher como parte importante do diálogo. Engana-se quem acha que essas mulheres estão reservadas às cenas em prostíbulos, Game of Thrones consegue colocar mulheres nuas em qualquer situação, inclusive numa conversa entre três generais sobre a eminente guerra.

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O problema de utilizar mulheres nuas ou seminuas como objeto de cena é que, bom, mulheres não são objetos. Nesses casos, a transformação da mulher em objeto é quase real, já que a elas é dado apenas o objetivo de “enfeitar” a cena, é o ápice da desumanização feminina. Muitas vezes, essa desumanização não se dá apenas através da nudez, mas também é associada a algum tipo de violência. Além de desumanizar a representação feminina, transformar mulheres em objetos de cena ajuda a normalizar o conceito de que a nudez feminina existe apenas para o olhar masculino e que ela pode, e deve, ser utilizada apenas como fonte atrativa aos homens. Dá aos homens o domínio sobre o nu feminino. É uma representação pobre de significado e de qualidade e rica em machismo e preguiça.

Transformar ou manter uma personagem feminina como objeto de cena é mais fácil do que criar uma personagem feminina que exista, que tenha camadas de personalidade e que esteja inserida na narrativa de maneira ativa. Game of Thrones criou uma personagem feminina, que era prostituta e não existia nos livros, apenas para matá-la fora de cena e, depois, apresentar o seu corpo nu e mutilado por Joffrey. Num caso assim, em que se a personagem fosse retirada da série como um todo, ela não faria falta, não causaria a menor diferença nos acontecimentos e para o resto dos personagens, fica muito evidente que ela estava lá apenas para ser um objeto de cena a ser descartado quando necessário (e de maneira brutal).

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Colocar mulheres como objeto de cena é uma escolha estética do diretor/ilustrador. São eles que decidem como enquadrar os personagens, são eles os responsáveis por determinar qual é o olhar que vai determinar a representação daquela personagem, quantas mulheres vão estar em quadro e como essas mulheres vão estar representadas dentro do quadro. A escolha por dar destaque ao peito, a bunda ou à virilha da personagem, assim como a posição ginecológica na qual a personagem vai ser apresentada, é de responsabilidade deles. Toda vez que eu vejo esse tipo de situação, em que uma personagem feminina é hiper-sexualizada através das lentes de um diretor/ilustrador homem, com um olhar machista e agressivamente sexualizado, eu não consigo não questionar o seu trabalho como contador de histórias. A imagem, seja de um filme, série ou de um quadrinho, deveria caminhar junto com a narrativa, deveria somar à história, não existir apenas para agradar um público que parece ser percebido apenas como masculino e punheteiro.

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