Texto da Colaboradora Renata Alvetti

SPOILERS serão inevitáveis. Protejam-se!

Arrow deve ser uma série difícil de fazer. Contar – com liberdade e alterações – a origem de um herói da DC pelo meio televisivo sem tangenciar o ridículo e o cafona parecia ser impossível, vide Smallville e Lois & Clark.

Mas a qualidade da narrativa prevaleceu nos episódios semanais da série do canal CW, onde a trajetória de Oliver Queen, ou Ollie para os mais chegados, evolui a olhos vistos.

Creio que um dos trunfos da série é a sua variedade de personagens femininas, que atuam muito mais do que simples elenco de apoio.

Todas as personagens possuem traços complexos e irreverentes, atuando de forma verossímil e por vezes surpreendente. São mulheres de temperamentos distintos, algumas com personalidades mais fortes do que outras, e isso é uma coisa boa. Uma personagem interessante não precisa ser fodona, só precisa ser real.

Comecemos por quem mais me surpreendeu já nos primeiros episódios: Moira Queen. Que pose, que posse! A revelação de sua ordem direta para o sequestro do filho (bichinho mal tinha voltado pra casa) já me deixou com um sentimento de “QUE ISSO MADAME! VAMOS COM CALMA!”. Ao me deparar com uma típica mãe bilionária dos EUA, vestida de terninho Chanel e cabelo loiro perfeitamente arrumado, eu pouco esperei dela. Vai se preocupar quando o Ollie sumir, vai ser raptada fazendo compras e precisar de resgate, vai dar discurso sobre amor e perdão de camisola e roupão de seda ao flagrar Ollie voltando pra casa de madrugada.

206_arrow_640

Mas não, a tia estava era de conchave com os vilões esse tempo todo. Ao decorrer da temporada ela autoriza a abdução de seu atual marido, Walter Steele e tenta assassinar o perigoso Malcom Merlyn, tudo enquanto controla as Empresas Queen e cria uma família. Manipuladora, esquiva, falsa, amorosa, sensível, compreensiva. Suas motivações são por vezes egoístas, mas seu amor pelos filhos é inegável. Nas versões dos quadrinhos, Moira falece quando Oliver ainda é criança, de forma trágica e traumatizante. Foi satisfatório perceber que, a opção de mantê-la viva não foi meramente ilustrativa, pois Moira é uma peça chave das tramas da 1ª temporada e as consequências desse conflito prometem para a 2ª.

E ah sim, lembrando que ela foi uma das únicas personagens que realmente feriu o Capuz (The Hood) na temporada, dando-lhe um tiro na perna, logo após pedir clemência e se ajoelhar no chão. Mandou, sem saber, o filhinho pro hospital. Mais uma vez: “QUE ISSO MADAME!”.

Thea Queen já recebeu um apelido curioso no 1º episódio: Speedy, o nome dos ajudantes do Arqueiro Verde. Ricardito nas versões originais brasileiras. Um momento de silêncio.

thea

Continuando, Thea Queen foi uma personagem criada especialmente para a série de TV. Nos quadrinhos, Oliver é o único herdeiro dos Queen. Thea foi a personagem menos envolvida com as tramas de ação e conspiração da temporada. Ela é a maior ponte da série com o mundo real, mesmo com seus problemas de garota bilionária e diálogos roubados dos roteiros de Gossip Girl. Seus conflitos se baseiam na relação conturbada com a mãe e seu desenvolvimento de jovem mulher. Ao final da 1ª temporada, desenvolve um romance com Roy Harper, o obviamente futuro ajudante de Ollie. Thea não parece apresentar potencial de guerreira ou heroína e eu ficaria genuinamente surpresa se ela se juntasse ao irmão no futuro como defensora da cidade. E isso definitivamente não é um aspecto negativo dela, nem todo mundo precisa pular de prédio em prédio para alcançar alguma coisa na vida. Só quebrar com as próprias limitações e aprender com as adversidades já tá de bom tamanho.

Arrow-a-Zold-Ijasz-001

Laurel Lance. *Suspiro. Eu acho a construção dessa personagem uma imitação tão barata da Rachel Dawes e isso não é uma coisa boa. Rachel Dawes, se vocês não lembram, é a namoradinha do Bruce em Batman Begins e constitui um triângulo amoroso pra lá de chato com ele e Harvey Dent em Dark Knight. Ambas conhecem o passado do protagonista, ambas são advogadas, promotoras ou sei lá o que e ambas tem o mesmo papel: lembrar o protagonista que ele pode ser uma pessoa melhor. A personagem de Laurel Lance não existe originalmente nos quadrinhos. Lance é o sobrenome usando por Dinah, a Canário Negro, quando esteve casada com seu primeiro marido, Larry Lance. Laurel é o segundo nome de Dinah.

Laurel apresenta-se boa parte da temporada com uma personalidade água com açúcar, ilustrando a série com adivinha só, um triângulo amoroso entre ela, Ollie e o melhor amigo de ambos, Tommy. Ela é muito motivada pelo seu trabalho, apresenta diversas linhas de amor e conflito com o pai, é inteligente e ativa, mas você não me engana fia! Não me convenceu ainda de que você está na série para ser nada além de um rosto de choro e um grito de socorro. Boa sorte nas próximas temporadas, ouvi coisas boas de você. Veremos.

Mas vamos falar de coisa boa? E que tal falar de coisa maravilhosa? Felicity Smoak.

City of Heroes

Felicity surgiu inicialmente pela DC como uma operadora de software e interesse amoroso do personagem Firestorm. Nos quadrinhos eles chegam a se casar e ela tem cabelo preto. Mas quem se importa? Vamos ao que realmente interessa.

Por muito tempo me perguntei se o jeitinho nerd/geek/peculiar/fofinho da Felicity não era demais. Afinal, Zooey Deschanel já provou com uns 5 papéis diferentes que minas assim existem. No entanto, me ocorre que enquanto as motivações de personagens como a da Zooey costumam “ser feliz!” e “mostrar aos outros como o mundo é bonito!”, Felicity se junta à equipe do Vigilante para salvar Walter e eventualmente se envolve demais com esse esquema de salvar a cidade pelo seu computador para pedir para sair. Ah, sim, ela manja dos paranauê das internet e dos computadores em geral, lembrando um pouco o Oráculo (Bárbara Gordon pós-cadeira de rodas). Ela claramente se apaixona por Ollie e eu sei que o futuro dos dois é promissor, inclusive pelo sucesso dela com o público. Eu particularmente não vejo problema se personagens femininas possuem como aspecto importante de seus arcos amarem caras – CONTANTO QUE – hajam nesses mesmos arcos outras coisas tão relevantes quanto. Por enquanto, Felicity já estabeleceu bem seu terreno, seus diálogos são divertidos e bem elaborados, não tem como não se identificar com sua personalidade, mas não, ela ainda não é protagonista da própria história. Sua aparição é dependente das necessidades de Ollie. Mas a 2ª temporada promete.

Arrow-Huntress-2

Helena Bertelinni, a Justiceira, sempre foi uma personagem complicadinha da DC. Perdeu a família quando criança e sua sede de vingança parece ser insaciável. Já foi expulsa da Liga da Justiça (não pode matar o coleguinha, Batman tá vendo!) e já fez parte do grupo feminino Birds of Prey, lutando contra o crime em Gotham City.

Em Arrow, não foi muito diferente. Tá aí uma personagem feminina que não surpreendeu nenhum pouco, foi exatamente como eu esperava. Eu só não entendi o piti enorme que ela deu quando foi apresentada para a Laurel e o Tommy pelo Ollie “VOCÊ É AMIGO DA SUA EX, FICA LONGE DE MIM”. O que diabos foi essa cena? Eles precisavam de uma desculpa para ela se revoltar e sair por aí sozinha matando todo mundo, mas foi isso o melhor que conseguiram? Ciúmes do cara? Sério? Obrigada pelo desserviço de confundir a complexidade dessa personagem com histeria de 2ª categoria por conta de homi. Como se toda mulher tivesse somente esse motivo pra sofrer.

Enfim, as motivações dela nem mudam tanto, dessa vez ela buscar se vingar da morte do noivo, mesmo que isso signifique matar o próprio pai. Tem uma cena que Ollie desfaz um pouco a mira dela, mas né, desculpa aê, se não fiquei presa 5 anos em uma ilha recheadas de assassinos. E aposto que ela teria matado a galinha de boa, como o pica das galáxias ficou com medinho de fazer logo quando chegou.

McKenna_Hall_Arrow_TV_Series_001

Mckenna Hall é a típica personagem que eu acho um desperdício de tempo e dinheiro. Não que seja culpa dela, claro. Mas é um interesse amoroso já fadado ao fracasso, você sabe que ela e Ollie vão terminar já quando trocam os primeiros olhares. Para compensar a inutilidade dela, Mckenna é uma policial dedicada e inteligente. Legal a inclusão de uma etnia diferente também, Mckenna tem a pele mais escura, com alguns traços mais indianos (vale um questionamento do porque personagens femininas principais continuam loiras e brancas, mas fica para a próxima). No entanto, séries de TV com mais de 12 episódios precisam encher a linguiça e por vezes essa encheção é um relacionamento amoroso cujo objetivo se resume a trazer desenvolvimento emocional interno. Para o protagonista, é claro.

Shado

Por último, até porque foi uma das últimas a aparecer, temos a Shado. Nos quadrinhos, sua etnia é japonesa e é uma órfã em busca de vingança (galera tá precisando de motivos mais originais pra entrar no mundo da matança), mas na série ela é chinesa. Para nossa alegria, ela se torna a mestre de Ollie, um papel que parece pertencer ao seu pai, Yao Fei.

Mas infelizmente, Shado também protagoniza uma das cenas mais machistas da série. Uma prova simples de ainda temos um longo caminho pela frente, se os roteiristas deixaram uma gafe dessas passar.

Shado luta muito bem e Deadshot comenta essa habilidade. Shado responde “meu pai queria um filho homem” e Deadshot responde “Ele teve um.” MANO, ISSO NÃO É UM ELOGIO, VLW FLWS. Não dá para a mulher ser excelente lutadora sem associar essa característica ao masculino? Não, Yao Fei teve uma filha mulher sim, que aprendeu algo que qualquer mulher é capaz de aprender, tão capaz quanto qualquer homem. AFFE.

E mais, precisava mesmo que Shado se envolvesse emocionalmente com Ollie? Seria bom ver uma mulher não precisar de um relacionamento para suportar as privações da vida (no caso estar presa em uma ilha cheia de psicopatas). Creio que esse relacionamento criará um conflito de motivações e um possível triângulo com Deadshot na 2ª temporada, mas ainda assim questiono sua real necessidade.

Oook, lembrando que essa foi uma análise das personagens femininas da 1ª temporada de Arrow. Aguardem para em breve falarmos como essas e as novas personagens femininas se desenvolveram.

 

*Você pode encontrar mais do trabalho da Renata no seu canal de Youtube!

%d blogueiros gostam disto: