Hoje é o Dia da Não Violência Contra a Mulher, uma data muito simbólica, principalmente com os dados de violência doméstica e de gênero que o Brasil apresenta. Por isso resolvi começar uma série de textos em que falo sobre a representação feminina na cultura mainstream. Vão ser cinco textos em que discuto Quadrinhos de Super-Heróis, Cinema Americano, Séries de Televisão Americanas, Animações Infantis, Cinema e Televisão Nacional.

O texto de hoje é introdutório, e eu aproveito para falar um pouco sobre um dos vários casos de Violência Doméstica que aconteceram dentro dos Quadrinhos.

Você já escutou falar do termo “Woman in Refrigerators”?

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Mulheres na Geladeira é um termo criado por Gail Simone, quadrinista e roteirista americana, pra descrever um clichê que ela via ser utilizado com uma frequência preocupante nos quadrinhos de super-heróis: uma personagem feminina é morta, estuprada, machucada de alguma maneira ou perde os seus poderes apenas para dar motivação ao desenvolvimento de um personagem masculino.

O termo nasceu a partir de uma cena em que Kyle Rayner (Lanterna Verde) chega em casa e encontra sua namorada morta de maneira violenta dentro de sua geladeira. O modo como Hal lidou com a morte da namorada criou todo um novo arco para o personagem, e fez Gail Simone pensar um pouco mais sobre isso.

Simone notou que quase todas as super-heroínas que ela tanto gostava já haviam em algum momento sofrido algum tipo de violência com o único intuito de desenvolver uma nova história, ou dar uma nova motivação para o seu companheiro ou amigo superpoderoso. Ela criou um site e uma lista com o nome de todas as personagens que já haviam passado por esse tipo de situação. O número é assombroso.

A diferença entre super-heróis homens e mulheres serem mortos está no fato de que numa quantidade gigantesca de vezes, essas mulheres morrem de maneiras esdrúxulas, sem explicações, sem nenhum teor heróico ou qualquer relevância para a história delas. É uma morte sem importância que acontece apenas para dar um novo curso ao arco do personagem masculino. Muitas vezes, como no caso da namorada de Hal Jordan, a morte acontece fora da tela, ou seja, você não sabe como aconteceu, e os poderes que a personagem possui e que muitas vezes poderiam ter impedido a morte, não parecem ter feito diferença.

Mulheres na Geladeira evidencia o quão normalizada é a violência contra a mulher, e expõe ainda que em um meio controlado majoritariamente por homens brancos, heterossexuais e cis, a presença das personagens, e das fãs femininas, não é de grande importância a não ser que estejam ligadas a algo do “universo” masculino. Há uma mudança gradual acontecendo nesse mercado sim, mas ele ainda está longe de chegar ao ideal.

Personagens femininas não devem existir, deixar de existir, serem violentadas e espancadas apenas para o desenvolvimento dos homens que estão a sua volta. Anitaa Sarkeesian, no Feminist Frequency, tem um vídeo muito legal sobre isso.

Pensando no dia de hoje, quero falar sobre um dos casos que mais me impressionou nos últimos tempos. Eu não sou grande fã do Homem-Formiga e nem da Vespa, mas venho acompanhando alguns textos sobre a grande polêmica que envolve esses dois personagens, e que ressurgiu com a eminência da adaptação para os cinemas: aquelas duas vezes em que o Homem Formiga bateu e depois quase matou a Vespa.

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Nos quadrinhos Vespa (Janet van Dyne) e Homem-Formiga (Hank Pym) são um casal já há muitos anos, e a história dos dois foi manchada não uma, mas duas vezes com histórias que envolve violência doméstica. E nas duas vezes o tratamento recebido pela cena foi banal. E não aconteceu durante os anos 60, mas na década de 80 e mais recentemente na versão Ultimate do Universo Marvel.

A normalização da violência contra a mulher faz parte da cultura tanto ocidental quanto oriental. Somos uma sociedade fundamentada em conceitos machistas, que tornam a mulher um objeto de propriedade masculina. Se o seu computador não está funcionando direito, você dá uma balançada e até uns soquinhos no monitor pra ver se funciona. Essa é a lógica da violência doméstica.

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Durante a primeira agressão, Hank Pym estava descontrolado, passando por algo como um surto psicótico e, num momento de raiva e frustração, ataca a esposa. Muito foi, e ainda é, discutido sobre se o personagem pode ou não ser colocado para baixo por causa de um único quadrinho. Li uma reportagem que falava exatamente sobre isso, no texto, o autor diz que sim. Assim como Cris Brown e Ike Turner vão sempre ser lembrados como homens que bateram em suas mulheres/namoradas, Pym vai para sempre ser o super-herói que bateu na esposa. Não uma, mas repetidas vezes.

Mais recentemente, durante o lançamento do Universo Ultimate da Marvel, Pym mais uma vez ataca Vespa. A relação dos dois é abusiva desde o começo (porque os escritores acharam uma boa idéia retomar um arco tão polêmico e com consequências tão ruins para os personagens, eu nunca vou saber), batendo na namorada inúmeras vezes, fazendo com que ela vá parar no hospital. Num dos últimos ataques, durante uma crise de ciúmes e depois de Janet se encolher para fugir dos golpes do marido, Pym tenta acertá-la com aerossol contra insetos e, tendo falhado, a coloca em choque anafilático depois de mandar uma orda de formigas atacar a namorada. Honestamente, como as pessoas esperam que alguém consiga superar o estigma de Wife Beater de Pym não me faz sentido.

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Claro, Hank Pym e Janet van Dyne são personagens ficcionais em um mundo ficcional, mas não há nada ficcional em violência doméstica e quando você faz uso dessa temática, mesmo que inconscientemente, você ou mergulha nela e faz disso uma discussão interessante, ou normaliza, justifica e colabora para a sustentação de um modelo violento e opressor. Ao que tudo indica, essa segunda versão do personagem, foi bastante criticada. Na minha opinião, e por mais que o envolvimento inicial de Edgar Wright tivesse me deixado ansiosa pelo filme, o Homem-Formiga não deveria ganhar um filme solo. Principalmente quando há um buraco gigante na representatividade feminina e de outras minorias.

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Janet, membro original dos Vingadores, e uma das personagens mais amadas pelos fãs, se tornou mais uma mulher na geladeira para que Hank pudesse ter o seu arco de personagem desenvolvido de maneira mais interessante. Nesta nova versão, inclusive, ao invés de usar esse arco de abuso para transformar a personagem num ícone de empoderamento, é o Capitão América o responsável por salvá-la desse relacionamento abusivo – apenas para que ela volte a procurar Pym depois de um tempo. É foda. Eu sei que esse é um comportamento que acontece com algumas mulheres em relacionamentos abusivos, em alguns casos cria-se uma relação de dependência. Essa temática também poderia ser discutida de uma maneira à empoderar a personagem, mas não acontece.

Hank Pym vai ser para sempre o super-herói que bateu na esposa e quase a matou. Não interessa se a versão ultimate não é a “oficial”, é um padrão que se estendeu para ela. Foi a escolha dos roteiristas e desenhistas que contruíram a história do personagem assim. Ao meu ver, a única maneira de fazer com que o personagem alcance algum tipo de redenção, é fazer disso a sua tormenta, do fato dele ser um espancador de mulheres. Jogar ele na merda por causa disso e depois arrumar um jeito de fazê-lo ir em frente, mas sem nunca deixa-lo, e aos leitores, esquecer o que ele fez.

A mulher que sofre a violência doméstica nunca esquece. O agressor nunca deveria esquecer também. Ninguém perdoa ou entende a mulher que apanha e fica. Porque perdoar e entender o homem que bate?

O caso da Vespa e do Homem-Formiga é um daqueles tópicos que coloca muita gente em cima do muro. Não é só porque eu estou lendo sobre um cara bater na mulher que eu vou bater na minha esposa. Não, eu realmente espero que não. Mas quando esse tipo de assunto é abordado, ele normalmente vem com uma carga ideológica, conservadora e conformista gigante. A mulher está sempre fora do seu lugar original, Janet é também uma cientista, é também super-herói, e os dois foram motivados não só por causa do desequilíbrio de Hank, mas por que ela parecia estar melhor profissionalmente do que o marido.

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As histórias de super-heróis, fantasia e ficção científica, pelo menos as mais trabalhadas, são um reflexo, uma metáfora da nossa realidade. Tire os superpoderes de Hank e Janet e temos só mais um caso de violência doméstica em que o homem, ao se sentir diminuído pelo sucesso da esposa, decide coloca-la de volta no seu devido lugar. Pode não ser apologia ao comportamento violento, mas se não há uma reflexão, se não se discute o assunto para além do superficial, é só mais uma história que perpetua um estereótipo.

Quer saber como termina a história da Vespa no universo Ultimate? Ela morre fora de cena pelas mãos do super-vilão Blob. A imagem do Homem-Formiga a encontrando é incrivelmente nojenta e sexualizada, e é também o que fornece ao herói-batedor-de-mulher o impulso para se vingar dessa morte: comendo a cabeça do assassino da mulher em quem ele batia. Viu? A história da Vespa nunca foi sobre ela, sempre foi sobre o misógino Hank Pym.

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