Faz um tempo já que eu venho querendo falar de verdade sobre Agent Carter. Logo antes do começo da exibição da série eu fiz um textinho falando sobre as minhas expectativas e sobre porque a existência dessa série é importante. Mas vamos dar uma caminhada e lembrar um pouco mais sobre como começou a história de Peggy Carter.

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Lá em 2010 saiu Capitão América: O Primeiro Vingador, que trazia, além do ex-Tocha Humana Chris Evans no papel título, nomes de peso como Tommy Lee Johnes, Stanley Tucci, Dominic Cooper e Hugo Weaving (aquele cara que caminhou por praticamente todo tipo de filme nerd desde Matrix). Além deles também estavam os menos ilustres Toby Jones, Neal McDonough (que você olha, sabe que conhece mas não sabe de onde), Sebastian Stan e Haley Atwell – a única personagem feminina do filme INTEIRO (descontando as dançarinas do capitão por razões de: não são personagens).

No primeiro Capitão Peggy era, de fato, o interesse romântico. Isso não impediu os roteiristas de criarem uma personagem interessante e minimamente desenvolvida. Ela não aceitava merda de cara babaca, era boa de briga, tinha autoridade e, bom, se encantava com a personalidade do Capitão América mesmo antes do procedimento. Caveira Vermelha veio, o Capitão congelou na neve e Peggy estaria fadada ao esquecimento dos fãs. Só que não.

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O time de roteiristas – e de publicitários – do primeiro filme acertaram tanto na mão que Peggy ganhou curtas, pequena participação em Capitão América (chorai) e, finalmente, uma mini-série. Oito episódios não me parecem o suficiente, mas a importância de Agent Carter vai além da quantidade de episódios que a série vai ter, já que é a primeira série – diabos, o primeiro produto do Universo televisivo/cinematográfico – da Marvel a ser protagonizada exclusivamente por uma mulher. Aliás, é a primeira qualquer coisa da onda mais recente de adaptações de Super-Heróis a ser protagonizado por uma mulher!

Cinco episódios pra dentro da temporada, eu digo com muita certeza e convicção: Marvel, você não podia ter feito melhor. Agent Carter é o tipo de série que não diminui o protagonista, ela é, de certa maneira, romantizada, já que possui qualidades superiores a qualquer um dos personagens a sua volta. Li alguns reviews por aí falarem que o feminismo de Agent Carter é ruim, que é centrado no girl power da década de 90, que é só “mulheres são melhores que homens”. Honestamente, acho que quem assiste a série e vê esse tipo de coisa não entende muito sobre feminismo, e, talvez por estar acostumado a ver personagens femininas no segundo plano, falha em ver Peggy pelo que ela realmente é: a protagonista. Quem está na tela é a Peggy heroína, não a Peggy interesse romântico.

Em Capitão América o fraquinho Steve é, de longe, o melhor homem para assumir o manto do Capitão. Ele tem o coração no lugar certo, ele é realmente uma boa pessoa, com o senso de justiça apurado – ele é o melhor dentre todos os candidatos. Thor carrega o Mjolnir porque ele é o melhor homem para a tarefa, ele é o único digno do poder do martelo. Homem de Ferro não quer dividir a armadura com o exercito americano porque se considera o único capaz de controlar o seu poder para o bem. Starlord é o líder dos Guardiões da Galáxia porque ele possui todos os atributos mais importantes para um líder.

Nem Thor, nem Steve, nem Stark e nem Starlord tiveram suas qualificações em relação aos demais personagens questionada – eles de fato são, pelo menos até então, os melhores para o trabalho. Eles são, também, os heróis protagonistas de seus filmes e, por isso são mostrados exatamente dessa maneira. Peggy, no entanto, é considerada uma versão piegas do Girl Power por ser tratada exatamente da mesma maneira que os protagonistas masculinos que vieram antes dela. Peggy é a melhor agente porque ela tem o treinamento, a inteligência, a atitude, a personalidade e o melhor currículo para o serviço. Ela é melhor do que todos os outros agentes que trabalham ao seu lado. Fato.

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O arco da Agente Carter não é se tornar a melhor agente – ela já é. Seu arco é aquele de toda mulher de sua época, é aquele que toda mulher precisa passar por até hoje: provar que é, se não a melhor, tão boa quanto todos outros agentes. A série acerta tanto no tom quanto no conteúdo ao retratar, criticar e ao mesmo tempo tirar um certo sarrinho do modo como os homens tratavam as mulheres rebeldes que se recusavam a aceitar o status quo ao qual eram submetidas na década de 40/50. Peggy se contorce por ser subutilizada, por ter suas qualificações automaticamente diminuídas por uma questão de gênero. Fosse Peggy homem, ela estaria mandando e sapateando na cabeça de todos eles.

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Muitas vezes, ao construir uma personagem feminina, o roteirista peca ao utilizar um fator que é constantemente usado para diminuir a mulher: sentimentos. Logo nos primeiros dois episódios vemos um paralelo entre Peggy em ação, e a versão romantizada dela na radio-novela. Na vida real, Peggy está ajudando a deixar o mundo mais seguro, na versão ficcional ela é uma enfermeira que só se mete em perigo e é salva pelo Capitão América. Para muitos de seus colegas Peggy só está ali porque foi namoradinha de Steve Rogers, não por sua experiência. Em uma cena em particular Peggy encontra uma foto de Steve e se emociona. Souza, futuro par romântico, a interrompe e Peggy trata de rapidamente se recompor. Aos olhos dos seus colegas ela não pode se mostrar fraca, mas em seu íntimo Peggy não deixa que os sentimentos, que são parcialmente responsáveis por a fazer ser a agente que, é se percam. Quando escrevi sobre Interestelar disse que Nohlan acerta ao utilizar o amor como motriz do filme, e como acho o discurso de Anne Hathaway empoderadora – o mesmo, ao meu ver, serve para Peggy e seu momento de luto por Steve.

N.-

Poucas pessoas sabem, e poucas pessoas se preocupam em divulgar, mas houve um grande efetivo feminino durante a segunda e a primeira guerra. Todo um esquadrão de pilotos mulheres bombardeou o exército nazista em situações que beirava o suicídio. Muitas mulheres serviram como espiãs. Muitas das que sobreviveram voltaram para casa e tiveram que se conformar com a vida que tinham antes. Mesmo as mulheres que nunca saíram dos EUA durante a guerra, e que assumiram cargos de chefia e de mão-de-obra enquanto os homens lutavam do outro lado do Altântico sofreram por terem que abandonar seus cargos e voltarem à vida submissa. Agent Carter mostra como essa realidade, a de ter tanto potencial e se ver forçada a recolher pedido de almoços, é injusta.

Peggy tem as melhores tiradas e as melhores respostas para seus colegas algozes. A personagem não só se diverte às custas do machismo deles, ela também utiliza as concepções ultrapassadas e misóginas dos colegas para tirar proveito das situações e ir em frente com sua missão. Nos dois primeiros episódios, a cena em que ela entrega café – que para nós é obviamente uma tentativa de escutar o que acontece na sala – funciona tão bem porque nós sabemos que aqueles homens sentados alí realmente acreditam que ela só serve para o café, e por isso não notam que ela é mais inteligente que eles. Usar o machismo deles para virar a situação à seu favor é uma das grandes armas de Peggy dentro do ambiente de trabalho. E é lindo.

A série trás também um personagem que de alguma maneira estreiou antes ainda dos Vingadores – Jarvis. Originalmente apresentado lá no primeiro Homem de Ferro (2008) como o ajudante computador de Stark, em Agent Carter Jarvis é o mordomo/motorista de Howard que acaba se tornando ajudante de Peggy.

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 Jarvis é engraçado, meio atrapalhado, com um passado um pouco conturbado e que vai, aos poucos, parecendo ser mais fiel à Peggy do que a Howard. O interessante na construção de Jarvis é que da mesma maneira que Peggy é uma mulher a frente de seu tempo, o motorista de Stark é um homem à frente do seu. Ora, ele é um homem à frente do nosso tempo – quantos caras você conhece por aí que não tentam arrumar uma desculpa para explicar porque eles estão fazendo sufflê e lavando roupa? Quantos caras você conhecem que fazem sufflê e lavam a roupa como divisão das tarefas da casa? O humor de Jarvis vem muito de sua situação familiar e do fato dele ser levemente inapto para o trabalho ao qual insiste em oferecer à Peggy – e isso só enriquece a representação de gênero que a série trabalha tão bem.

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Howard, que eu achei só voltaria a aparecer mais para o final da série, é um personagem que quase sem querer tem um backstory muito grande. Como já o “conhecíamos” dos filmes do Homem de Ferro, sabemos que ele faz o tipo de seu filho, mas tem nuances que o inicialmente ingênuo Tony não possuía. A gente sabe desde o começo que Howard não é totalmente sincero com Peggy, e isso é importante para solidificar os conflitos da personagem, já que ela aceita trair o governo americano para ajudar um amigo e, no fundo, porque se sente (com razão) não apreciada e subutilizada no seu trabalho oficial. O interessante em Howard é que nós já sabemos que ele é um grande cafageste pegador, no quarto episódio a série nos mostra um pouco mais disso, mas além de ser humanizado por suas tentativas heróicas, essa representação quase cartunesca do personagem passa tranquilamente porque Jarvis e Santos existem, ou seja, há mais de um tipo de personagem masculino em tela – um tratamento que raramente é dado às personagens femininas em situações similares.

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Apesar de todos os seus acertos, Agent Carter falha na representação feminina por trás das câmeras. Todos os diretores de episódios são homens e, de acordo com o IMDB, talvez uma mulher tenha escrito um dos episódios. Teria sido ainda mais incrível se a série que conseguiu tantos acertos tivesse também iniciado um aumento do número de mulheres em cargos importantes por trás das câmeras. Ainda é muito pequeno o número de mulheres envolvidas nesse tipo de série/filmes, e a inclusão de diretoras e roteiristas femininas ajudaria a dar ainda mais força a um projeto que já é tão especial. A participação feminina é importante tanto como personagens como como criadoras do conteúdo.

Quando a série chegar ao seu último episódio, volto para falar um pouco mais sobre a temporada como um todo. Por enquanto acho que Peggy é um primeiro passo firme de um processo de mudança que a indústria dos quadrinhos está tentando criar na sua versão cinematográfica. Fica a esperança de que até o oitavo episódio estrear nos EUA nós vamos ter escutado a confirmação de que a série ganhou mais uma temporada. 😉

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