Gail Simone é talvez a roteirista de quadrinhos de super-heróis mais conhecida no mundo. Com trabalhos tanto nas duas maiores editoras, como em editoras menores, Gail foi responsável recentemente pela reformulação de personagens como Vampirella e escreveu um dos arcos mais famosos da Batgirl. Gail também foi a criadora do termo Mulheres na Geladeira (Women in Refrigerators), um dos grandes responsáveis por aquecer a discussão da representação feminina nos quadrinhos de super-heróis.

No último dia 23 Gail soltou alguns twittes onde fazia uma predição sobre o que vai acontecer com o mercado americano de quadrinhos de super-heróis, principalmente sobre como uma nova leva de criadoras não-brancas vai revolucioná-lo. É importante lembrar que para a visão norte-americana toda brasileira é não-branca, então ela também fala sobre o trabalho de quadrinistas que aqui dentro nós consideramos brancas.

Ela disse:

Eu vou fazer uma predição. E isso não vem de um desejo liberal, mas da simples observação.

Okay. Eu disse por anos que mulheres iam começar a escrever quadrinhos mainstream de novo e finalmente aconteceu, certo?

Quase todo título que gerou buzz nos últimos dois anos tinha uma mulher escrevendo, editando, ilustrando ou como protagonista, exceto pelos títulos tradicionais.

Então a maioria das coisas novas e interessantes tinha pelo menos uma mulher profundamente envolvida, nas duas maiores empresas e nos indies. Bom. Mas…

Minha predição é que a próxima grande onda vai começar em 2017, e vão ser mulheres não-brancas.

Isso não é querer demais. Eu estou viajando o mundo visitando CONS por anos, e o número de mulheres não-brancas criadoras está explodindo.

E a paixão por quadrinhos de leitoras em lugares como Shangai, Cidade do México e Belo Horizonte foi palpavelmente intenso.

Alguém está prestes a começar um incêndio.

Elas podem não estar recebendo apoio e encorajamento dos que já estão estabelecidos. Mas essa é a questão, elas não precisam mais.

Elas tem umas às outras, elas tem a internet, elas podem construir os seus próprios sistemas de apoio e bases de fãs antes da sua primeira publicação.

Imagine a maior parte da música, arte ou cinema americano sem pessoas não-brancas. É muito chato para se considerar.

Mas imagine o que um grande fluxo de talentosas mulheres não-brancas vai fazer para deixar os quadrinhos (de super-heróis) incríveis.

As pessoas não vão mais reclamar que os quadrinhos são todos iguais e repetitivos. Eu prometo.

Nós vamos ter uma infusão de criadoras dedicadas e incríveis, de países onde eles estão apenas descobrindo o amor pelos quadrinhos americanos.

Eu sei que muitas pessoas pensam que eu estou sendo sonhadora. Eu não estou. Essa é a realidade.

Ninguém acreditou no que eu disse durante que estava voltando na época do Mulheres na Geladeira e, se muito, eu mesma subestimei.

Assista e veja. Vai acontecer, e os quadrinhos vão ser mil vezes melhores por isso.

Em Shangai, a fila de mulheres e garotas que queriam fazer quadrinhos no estilo americano não tinha fim. Não tinha fim.

E na arte delas elas misturavam estilos asiáticos e ocidentais, e o resultado era maravilhoso. Crianças americanas comprariam em peso.

No Brasil, o número de criadoras de quadrinhos passa com uma boa margem o número de criadores. E eu nunca, nunca vi tanta diversidade de material.

Tudo desde mini-quadrinhos com fotos até épicos imensos e pintados. Só um esmagador dilúvio de talento.

Adicione à isso as destemidas mulheres dos EUA que querem fazer quadrinhos… Vai ser incrível.

Na Cidade do México, as criadoras já tem a sua própria cultura. Eu vi u monte de artistas que poderiam trabalhar para a Marvel ou Image amanhã.

E isso é só fora dos EUA. Tem um monte de mulheres que eu conheci em CONS que já estão no caminho, e serão imparáveis.

Você pode ler o thread original AQUI.

Para mim faz sentido que Gail veja o mercado internacional de quadrinistas como potencial bolsão de talentos para o mercado americano, o Brasil exporta talentos já há mais de 20 anos. O número de mulheres brasileiras que trabalham para o mercado americano é bem menor do que o o número de homens que fazem isso.

Não sei confirmar se as criadoras são realmente a maioria do mercado nacional, mas é certo que nos últimos anos elas vieram com muita força e com trabalhos de qualidade tanto narrativa quanto artística. Vendo os títulos de maior sucesso nos EUA tanto no mercado de super-heróis quanto no indie, é possível entender que as predições de Gail não estão assim tão longe da verdade. Seria incrível ver ainda mais nomes femininos brasileiros trabalhando no mercado americano.

Fica o desejo que a profecia de Gail realmente aconteça, e que nós acompanhemos essa mudança editorial dentro dos Super-heróis nos próximos anos! <3

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