Eu não saberia te informar quantas mulheres foram expulsas do twitter porque homens ligados aos quadrinhos acham que tem o direito de assediar mulheres na rede social simplesmente porque elas escrevem sobre um tema que não lhes agrada. Eles também parecem não entender que assédio e crítica são duas coisas completamente diferentes. Eu uso o termo “expulsa” porque é bem isso que acontece, já que o assédio e as ameaças são tão grandes que a mulher não vê outra escolha senão abandonar o twitter.

A última mulher a passar por isso foi Chelsea Cain.

Após este twitte…

Mockingbird está cancelada. Mas nós precisamos garantir que a @Marvel abra espaço para mais títulos por mulheres com mulheres chutando bundas.

Mockingbird está cancelada. Mas nós precisamos garantir que a @Marvel abra espaço para mais títulos por mulheres com mulheres chutando bundas.

Ela recebeu twittes deste nível:

ataque-mockinbird

Eu não vou traduzir, a imagem é horrível o suficiente.

Chelsea é uma escritora Best Seller de romances que fez sua estréia nos quadrinhos na revista especial em comemoração aos 50 anos da SHIELD, Mockingbird. Devido ao sucesso que a edição especial fez, a revista ganhou uma série, que chegou ao fim este mês, em sua oitava edição.

Mockingbird, que conta a história da personagem Harpia, tinha uma equipe criativa composta maioritariamente por mulheres, e isso transparecia muito bem no papel, com personagens femininos e masculinos bem escritos, desenhos que brincavam com a nossa percepção de sexualização e quebrava alguns estereótipos de gênero. Um ótimo exemplo de como uma equipe criativa com mulheres pode resultar em mais acertos do que erros.

O twitter no qual anunciava o cancelamento da revista, e pedia por mais espaço para títulos criados por mulheres e com personagens femininas acabou gerando um onda de ódio. Ela respondeu assim:

chelsea-2

Minha fala não foi um pedido de atenção. Mesmo. Eu já cansei daqui. Eu estou impressionada com a crueldade que os quadrinhos fazem aflorar nas pessoas.

chelsea-3

“Eu te amo” – mensagem que a minha filha de 11 anos me mandou, pq eu estou no escritório lidando com bullies misóginos no twitter ao invés de…

Depois disso sua conta explodiu e a autora acabou saindo do twitter.

Chelsea não disse absolutamente nada demais, apenas pediu para que os fãs continuem cobrando da Marvel uma postura mais inclusiva, postura essa essa que permitiu que Mockingbird fosse criada.

O que também despertou a fúria dos trolls e dos fãs machistinhas de quadrinhos foi a capa da última edição. Essa maravilhosidade aqui:

mocking

Eu acho engraçado como nós não podemos falar sobre temas como representação feminina, e feminismo nem mesmo com humor, mas devemos achar ok a capa de uma revista que hipersexualiza uma personagem negra e adolescente. Diferente da capa de J Scott Campbell, e eu uso esse exemplo porque ele é o mais recente, a capa de Mockingbird #8 dialoga perfeitamente com o conteúdo e com a personagem título da revista.

Não é uma capa ofensiva, é uma capa que lida de maneira bem-humorada com um tópico tão ~polêmico~ dentro dos quadrinhos: o machismo. Não se enganem, nós tivemos muitos avanços nos últimos anos, mas ainda são as autoras, ilustradas e executivas do meio que são expulsas do twitter, não os homens.

Muitos vão comparar as críticas que J. Scott Campbell recebeu com o assédio moral que Chelsea Cain recebeu, mas nem de perto é a mesma coisa. Enquanto Campbell foi criticado e questionado sobre seu trabalho, as ofensas direcionadas à Cain foram de nível pessoal e ofensivo. Crítica não é censura e assédio não é crítica, é violência.

Brian Michael Bends respondeu ao twitte de Chelsea imediatamente, mas digamos que não foi a melhor resposta que ele poderia ter dado.

bendis-1

Bendis explicou, em outro twitte, que a intenção era dizer que não era um problema unicamente de quadrinhos. Mas aqui nós temos uma mulher que nunca precisou bloquear ninguém no twitter até começar a trabalhar com HQs, isso por si só já é justificativa o suficiente para ela acreditar que o meio dos quadrinhos é o problema. E ela não está completamente errada. Apesar de machismo e misoginia ser uma constante em todas as outras frentes da cultura pop, como games, RPG e mesmo literatura, os quadrinhos tem sim um problema gigante, um problema que editoras e grandes autores se recusam a reconhecer.

Em um post no seu site, Chelsea explicou porque deixou o twitter e como as coisas se sucederam. Ela não chegou a ler toda onda de ódio contra ela, porque cansou muito antes disso de acompanhar todos os twittes que recebia, ela não saiu do twitter por causa dos piores twittes, aqueles que vieram durante a noite e depois que começou-se a falar sobre eles, mas por causa dos que representam o machismo velado.

Mas saibam que eu não sai do twitter por causa de ameaças de estupro ou porque alguém postou meu endereço, ou alguma das coisas realmente vis que você lê sobre. Eu sai do twitter por causa do abuso diário, com o qual eu decidi que não quero mais conviver. O nível básico de grosseria e machismo. Claro, quando eu desativei minha conta na quinta pela manhã, tudo tinha explodido. E eu aposto que uma parte dos milhares de posts no meu feed foram realmente vis. Mas eu não sei.

E essa é a questão. Não é só quando trolls e fãs misóginos resolvem atacar em massa que essas mulheres são perseguidas no twitter, é sempre. É diário e é sintomático da indústria.

Leth Merenghi, roteirista de Vampirella, fez uma série de twittes comentando como o meio dos quadrinhos continua a fomentar esse tipo de comportamento agressivo. leth-merenghi

Mulheres nessa (e em muitas outras) indústrias sabem que nós precisamos ficar juntas e ajudar umas as outras porque, quem mais vai nos apoiar? Homens que são publicamente conhecidos por assédio, por agarrar, por MORDER, ainda estão empregados. Não existe consequência para eles. Se a gente fala, se dizemos não, a culpa é nossa. Criadoras de confusão. Não sabemos jogar em equipe. Ela é difícil de trabalhar… etc. Então além de ter que viver com o conhecimento que a sua segurança, e a segurança de outras mulheres ao seu redor, não é da preocupação dos poderosos, você também precisa lidar com o assédio dos “fãs”, num nível muito pior do que a maioria dos homens vai um dia saber. E precisa fazer isso com um sorriso. Então imagine o quanto nós amamos o nosso trabalho, para aguentarmos TANTO só para trabalhar. Você não pode ficar surpreso quando alguém desiste. Eu sei que eu falei muito, desculpe. Eu só estou cansada do status quo dos quadrinhos, e ter que lutar tanto por tão pouco.

Nós já falamos diversas vezes sobre como o mercado de quadrinhos, nacional ou americano, trabalha para excluir as mulheres do seu mercado, seja através da broderagem, seja quando não se fala ou não se faz nada contra os homens assediadores da indústria. Tudo isso colabora para criar ao redor dos quadrinhos um ambiente de permissividade quando o assunto é agressividade masculina direcionada à mulher.

Desde o começo da polêmica Mockingbird se tornou #1 em vendas online, o que é ótimo. E, claro, muitos homens sentiram a necessidade de desmerecer o movimento de apoio falando que a melhor maneira de apoiar uma autora é comprando as suas revistas, não através de “posts de tumblr”. E sim, nós precisamos comprar revistas feitas por mulheres, mas ainda é difícil saber quais são tais revistas, já que títulos como Mockingbird não possuem, nem de perto, o mesmo tipo de publicidade que os grandes títulos das editoras possuem. Grandes títulos esses que são majoritariamente escritos e ilustrados por homens. Além disso, com tantas autoras e ilustradoras sendo expulsas das redes sociais fica difícil para elas entrarem em contato com o seu público, uma outra maneira de fazer os seus títulos ficarem mais conhecidos. As coisas realmente não são tão transparentes como alguns editores da marvel parecem achar.

Em resposta à onda de ataques contra Chelsea, muitos fãs e profissionais dos quadrinhos passaram a utilizar a hashtag @IStandWithChelseaCain, e a twitter a capa de Mockingbird #8.


chelsea-apoio-6 chelsea-apoio-5 chelsea-apoio-4chelsea-apoio-7 chelsea-apoio-3

Gail Simone, inclusive, fez uma thread inteira sobre o assunto, e vale muito a pena ler e acompanhar o pensamento da roteirista.

É ótimo ver que tantos fãs e autores de quadrinhos saíram em apoio à Chelsea, mas o que ainda falta toda vez que noticiamos esse tipo de acontecimento é a posição oficial das editoras. Apoiar os seus artistas é parte de mostrar-se realmente comprometida com o desenvolvimento de um ambiente mais seguro e saudável, mais inclusivo também. Porque se uma autora é atacada e a empresa não se posiciona, qual a mensagem que ela está passando tanto para seu empregados quanto para seus fãs?

A gente pode brincar com a frase “Ask me about my feminist agenda”, e eu já aviso que ela acabou se tornando símbolo de empoderamento e força pra as mulheres do meio dos quadrinhos, mas a verdade é que enquanto as grandes editoras e os grandes nomes dos quadrinhos fizerem vista grossa para todo o assédio moral e sexual que as suas funcionárias e colegas sofrem, tanto por fãs quanto por outros funcionários e colegas, a única agenda do mercado de quadrinho é a exclusão de mulheres através do machismo. Nós precisamos melhorar.

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