Esse fim de semana foi bastante movimentado para os fãs da Batgirl, especialmente para aqueles que depositaram sua confiança na mais recente equipe de criadores da revista. Todo mundo ficou de queixo caído com o novo desenho do uniforme, e a primeira edição da equipe criativa deu muitas esperaças de que todo o avanço feito na era de Gail Simone não seria perdido.

Aí veio a edição #37.

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Nesta edição Batgirl está lutando contra uma versão mais glamorosa e menos heroica da Batgirl, com um uniforme bastante brilhoso e uma atitude performática, essa vilã passou a visitar galerias de arte e fazer sucesso – apesar de suas práticas criminosas. Bárbara, claro, quer colocar um fim aos avanços da sua “cópia”. E o resultado é esta página.

Não identificou o problema? Eu tento explicar.

Pessoas transgenero são pessoas que no nascimento foram designadas como de um gênero diferente daquele com que se identificam. Essa designação errônea se dá porque vivemos numa sociedade que acredita mais no que nós temos entre as pernas, do que no que nós temos dentro das nossas cabeças (e corações<3). Muitas crianças *trans só conseguem entender e aceitar quem são quando chegam à idade adulta, tanto porque a informação sobre pessoas *trans é escassa, como por causa do preconceito e porque muitas pessoas ainda consideram a identidade de gênero que vai além do feminino e masculino uma patologia.

Pessoas *trans (transgênero e travestis) sofrem diariamente com a transfobia que está presente no nosso dia a dia, muito mas vezes do que nos damos conta. Quando fazemos piadas com travestis, quando olhamos para uma pessoa *trans que passa por nós na rua, quando criamos personagens que incentivam um estereótipo negativo… Quando essas pessoas são impedidas de usar o banheiro que está de acordo com a sua identidade de gênero, quando são despedidas porque o chefe “descobriu o seu sexo verdadeiro”, quando sofrem ataques online e quando são espancadas por imbecis na rua.

Eu sei que pode parecer muito para entender de uma vez só. Mas o que importa de verdade é lembrar que pessoas *trans são, bom, pessoas. E que o mesmo respeito que a gente quer para nós, devemos ter com elas. Eu, por não ser *trans, não sou a pessoa mais indicada para falar sobre isso, então indico o trabalho da querida Samie Carvalho: Sasha – A Leoa de Juba. É um material que além de bonito me ajudou muito a entender e identificar os meus próprios pré-conceitos.

Voltando a Batgirl.

Bárbara Gordon foi, durante todo o tempo em que Gail Simone esteve no comando da HQ, uma aliada *trans. Sua melhor amiga, Alysa Yoh, é uma mulher *trans que acabou se tornando a maior representante *trans nos quadrinhos. O modo como Bárbara reagiu quando Alysa contou para a amiga que era *trans foi realista e muito positivo. Os fãs e os críticos a adoraram Alysa e a comunidade LGBT abraçou a personagem.

1-bg_19_4-666x1024 batgirl19page2O problema do quadrinho lá de cima nasce na frase de Bárbara “But you are a—“ ou, traduzindo, “Mas você é (um)…” A vilã passou a revista inteira se identificando, e sendo identificada, no feminino, o que indica que ela é uma mulher. Quando Bárbara, de quem se espera um discurso mais educado quanto às questões *trans, se refere à ela com o “um” ou, em inglês, apenas questionando a identidade de gênero dela, desconstrói-se como uma personagem que vinha sendo muito bem trabalhada e, ainda por cima, ofende toda uma legião de fãs. É um enorme passo para trás.

Além disso, pessoas *trans são constantemente consideradas duvidosas, mentirosas e não confiáveis – apenas porque a sociedade insiste em enxerga-las de maneira errada. Esse clichê é, infelizmente, muito comum na cultura pop e, vê-lo empregado em uma revista que era tão positiva, é deprimente.

Mey, crítica *trans do site autostraddle, falou sobre a edição e sobre o desenvolvimento da história. O texto está em inglês, mas é uma visão de alguém que foi diretamente afetada pela revista, então corre lá e qualquer coisa dá um google translate!

Diferente do que a gente espera num caso desses, o trio de criadores reagiu da melhor maneira possível. Toda vez que algum “aliado” faz alguma merda muito grande, sempre sonhamos com o pedido de desculpas perfeito. Aquele em que ele admite ter errado, que escutou e entendeu as críticas, que sente muito ter ofendido e que vai fazer melhor. Eu digo “sonhamos” porque são poucos os casos mas, felizmente, este é um deles.

O trio de criadores soltou uma mensagem que deixa muito claro que estão escutando e que querem fazer melhor. Espero que eles sirvam de exemplo para outros criadores de conteúdo sobre como escutar críticas importantes aos seus trabalhos.

Aqui vai uma tradução mais ou menos do pedido de desculpas:

“Nós escutamos as reclamações sobre este problema e estamos escutando com cuidado as reações.

Poderíamos falar eternamente sobre as nossas intenções para essa edição e para a personagem da Dagger Type, e sobre quais os nossos objetivos eram e não eram. Mas, nossas intenções não desvalidam a legitimidade das reações que alguns tiveram com a nossa história. Essas reações são honestas e de coração, e existem independentemente das nossas intenções criativas, e nós não queremos ignorá-las.

Ao invés disso, queremos reconhecer a dor e a ofensa que nós causamos, e expressar nossas mais sinceras desculpas. Nós estamos profundamente chateados com as reações à essa edição e as tornamos um ponto importante de discussão entre nós. Enquanto nós esperávamos algum tipo de controvérsia no que diz respeito à identidade e ao processo artístico que essa história tinha o intuito de levantar, nós agora nos damos conta de que a representação da personagem foi falha, e não queríamos de maneira nenhuma que qualquer elemento da história lembra-se aos leitores dos clichês sórdidos e errôneos que associam expressão de gênero com duplicidade.

Nós nos arrependemos de termos ofendido leitores que depositaram sua confiança em nós. Mas estamos em dívida com aqueles que se levantaram para falar sobre suas perspectivas em histórias assim. Seus comentários levam para contar histórias melhores, tanto nós como outros, e esperam alcançar um patamar maior no futuro.”

Pessoalmente, ver esse pedido de desculpas foi um alívio. Acho importante marcar que o erro aconteceu e que teria sido muito melhor que ele nunca tivesse chegado à impressão, mas é muito bom ver esse tipo de reação dos criadores. É importante também pra gente, que ainda precisa desconstruir muitos pré-conceitos, vermos como se deve realmente reagir quando dizem que nosso comportamento ofende ou oprime uma minoria. Eu venho adorando as aventuras da Batgirl e já estou com o pé que é um leque para a FIQ 2015, quando a desenhista vem para o Brasil. Fica aqui a esperança de que eles realmente cumpram com a promessa de aprenderem com o erro e fazerem melhor. 😉

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