Sempre que se fala de princesas fica difícil fugir do mixed feelings: adoramos princesas mas também enxergamos os problemas por trás da construção dessa cultura de princesas. A Bela, no entanto, talvez seja a princesa Disney que mais desperta sentimentos confusos nos seus fãs, em parte porque ao mesmo tempo em que a personagem foi construída para ser um símbolo de uma quase rebeldia e independência, uma garota que quer mais do que viver no interior, uma garota que quer ler todos os livros que existem por aí, ela cai em duas representações femininas tão problemáticas.

Antes de seguirmos é importante lembrar que ninguém está imune ao poder de influência da cultura pop nas nossas vidas e, quando ela repete padrões incansavelmente, eles são ao mesmo tempo consequência e sustento para um sistema que de tantas maneiras é utilizado para manter mulheres em situação de opressão. Vale lembrar também é possível gostar de um produto da cultura pop e ainda assim análisa-lo com um olhar crítico – eu adoro a Bela e a Fera.

A Síndrome de Estocolmo

“Eu já nem me lembro mais como você sequestrou meu pai, depois a mim, aí quis me obrigar a jantar contigo ou passar fome, me fez colocar a minha vida em risco.”

Síndrome de Estocolmo é um termo foi cunhado mais de 40 anos atrás, quando depois de um assalto à banco com sequestro que durou dias, as vítimas do sequestrador começaram a apresentar sinais de que se identificavam com o seu algoz. Em um primeiro momento um mecanismo de defesa, com o aumento das gentilezas do sequestrador, ele acaba se tornando empatia. O sequestro aconteceu em Estocolmo, por isso o nome.

Pode-se argumentar que a Bela está passando por essa síndrome quando ela começa a simpatizar e, no final, se apaixona pelo seu raptor – a Fera. O raciocínio é bem simples mesmo: Fera prende o pai de Bela, Bela se oferece para ficar no seu lugar e assume a posição de raptada. Bela foge do castelo mas é cercada por lobos, Fera aparece e a salva. Bela nunca teria sido perseguida por lobos se a Fera não a tivesse mantido presa, mesmo assim a Bela começa a desenvolver sentimentos pelo seu raptor.

Fofo.

É importante discutir essa questão porque esse é o tipo de narrativa que ajuda a sustentar um sistema que continua a colocar na cabeça de meninas e mulheres a idéia de que um homem violento pode mudar por causa da força do seu amor. Veja bem, a Fera, por mais amável que ele possa ser, é violento. Ele é verbalmente abusivo e chega a rosnar na cara da Bela. O longa live action consegue atenuar esse traço tentando expandir a história pregressa do personagem, e em certo ponto até consegue, mas também não foge do fato da Bela estar presa no castelo. Ele continua a liberando ao final da cena de dança.

Como ninguém vive numa ilha, a sustentação dessa narrativa mágica onde homens violentos mudam por causa do amor, continua a manter mulheres em relacionamentos abusivos. Não é uma questão de “ah, mas alguns homens mudam” é uma questão de diversas mulheres sofrerem abusos físicos e psicológicos enquanto esperam pela mudança – que muitas vezes nunca vem. Isso acontece porque a nossa sociedade alimenta gerações e mais gerações de mulheres com essa retórica e quebrar esse tipo de pensamento é mais difícil do que se imagina. Além disso, quando em relacionamentos abusivos, muitas mulheres tem medo de seus companheiros, medo do que eles possam fazer contra elas ou contra suas famílias e, por isso, não conseguem terminar esses relacionamentos.

Na adaptação Live Action Bela está mais ativa. Ela se deixa prender no lugar de seu pai já pensando em como vai escapar e realmente tenta fazer isso, é uma tentativa honesta de superar esse tropo, mas que por precisar contar a mesma história acaba não tendo o alcance que gostaria. O esforço vem também com o desenvolvimento do personagem da Fera, ao descobrirmos a origem da arrogância que acabou por causar a maldição sobre o castelo, o filme aproveita para conversar um pouco sobre masculinidade toxica. Nada disso é perfeito, mas ajuda a atualizar a obra e a diminuir os impactos negativos da narrativa.

A Garota Diferentona – Diferente de todas as outras garotas.

“Você não é como as outras garotas.”

Dizem os homens achando que estão fazendo um elogio. Ao separá-la do grupo de mulheres o cara está dizendo que você é melhor do que elas. Elas normalmente sendo mulheres que se encaixam num tipo de feminilidade considerado chato e irritante (geralmente mulheres que gostam de coisas fofas, se interessam por temas considerados fúteis, etc). Quando um cara fala esse tipo de coisa o que ele realmente está dizendo é: “Você é legal, mas o resto do seu gênero é ruim”.

Você é Diferente de Todas as Outras Garotas (o clichê DTOG, para diminutivo).

Em A Bela e a Fera, Bela é exatamente esse tropo/clichê. Ela é tão isso que tem uma música inteira dedicada a diferenciá-la das outras mulheres.

Look there she goes that girl is so peculiar

I wonder if she’s feeling well

With a dreamy, far-off look

And her nose stuck in a book

What a puzzle to the rest of us is Belle

(..)

Look there she goes

The girl is strange but special

A most peculiar mad’moiselle!

Olha, lá vai ela

Optei pela música original por razões de discurso. Em tradução literal: Eu me pergunto se ela está se sentindo bem / Com um olhar perdido e sonhador / E seu nariz enfiado num livro / Um enigma para o resto de nós é a Bela. (..) Olha, lá vai ela / Essa garota é estranha mas especial / Uma jovem moça muito peculiar!

Essa narrativa de Bela ser diferente de todas as outras mulheres ganha força quando a narrativa a compara às outras jovem mulheres da cidade, conhecidas como Bimbettes (Paulette, Laurette e Claudette).

Confesso que esse é um clichie/tropo que eu nunca tinha parado para pensar sobre a Bela até me deparar com ele no The Mary Sue. A autora do texto, Lili Peterson, diz:

O trio, aparentemente as únicas contemporâneas de Bella na vila, são bem obviamente construídas para retratar as “Outras Garotas”, do tropo DTOG. E olha, elas são bobas. Loucas por homens, idiotas e de fácil distração, obsecadas pelo Gaston e ignorantes aos vários problemas dele. A primeira vez que as vimos no filme (1991) elas estão literalmente suspirando ao ponto de colapso simplesmente porque Gaston passou por perto.

O problema com essa representação é que traça uma linha entre mulheres boas (que não são frívolas, que muitas vezes tem mais amigos homens) como o resto das mulheres: que são hiper-femininas, bobas e muitas vezes fúteis e más. Como Lily ressaltou em seu texto, nós nunca vemos as Bimbettes serem agressivas com Bella, mas o desprezo presente é bastante óbvio (alô, jogar mulheres contra mulheres, mas um clichê pra bolsa). Outra característica que fica acentuada em Bela com essa representação é a arrogância – ela que ir embora de lá porque na vila ninguém a entende, porque todos tem a cabeça pequena, é como se ela realmente se sentisse superior a todos eles – ela compra essa narrativa.

Além de traçar essa linha imaginária separando uma mulher do resto das mulheres, esse tipo de tropo também fomenta a idéia de o tipo bom de mulher é aquele que consegue se comunicar com os homens.

Jack: I guess I love you.

Anne: Why, Jack! You hate women!

Jack: Yeah, I know. But you aren’t women.

King Kong (1933)

Bella, no original de 1991, tem apenas seu pai como família e ao chegar no castelo conquista Lumiére com facilidade. Mrs Potts também faz parte dos utensílios que a cercam dentro do castelo, mas ela é a única personagem feminina desse meio – Plummett e Madam Gardorobe quase não aparecem. Até o cachorro do castelo é macho. E todos eles, mesmo o Relógio, adoram Bela. Ela é especial. Diferente das outras mulheres. Quais mulheres? Não sabemos, já que a animações não oferece qualquer tipo de personagem feminina relevante para a vida da personagem até o momento dela entrar no castelo.

No live action existe uma tentativa real de mudar essa percepção da personagem. Ela tenta ensinar outras meninas a ler, nós descobrimos um pouco mais sobre o backstory de Bela e de sua mãe e as Bimbettes não estão tão estereotipadas quanto na animação. Existe uma discussão sobre a cidade não gostar de Bela porque ela desafia o lugar da mulher – ela inventa uma máquina de lavar para poder ler enquanto lava a roupa. No castelo a participação das personagens femininas é muito maior do que no original – todos esses elementos ajudam a tirar Bela desse lugar de “única mulher” e a trazê-la para um universo mais positivamente feminino.

Se você ainda não assistiu ao filme, ou se já viu também, nós já soltamos a nossa crítica. Lá eu discuto um pouco mais sobre algumas mudanças feitas pelo Live Action em relação ao original – mudanças positivas e negativas.

Como disse lá em cima, é importante lembrar que nós podemos gostar de algo e ainda assim observá-lo com um olhar crítico. Na verdade, olhar criticamente o que consumimos culturalmente é um dos passos mais importante quando estamos tentando evoluir como sociedade. A Bela e a Fera continua sendo um dos filmes que mais marcou a minha infância, mas hoje, adulta, eu já consigo ver os tipos de problemas que a história ajuda a sustentar. O legal é ver que existe uma tentativa de mudança quando começamos a adaptar as narrativas mais tradicionais para os nossos tempos.

Até mais. 😉

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