Ficção Científica ainda não é o gênero de escolha de muitos brasileiros, sejam leitores, escritores ou quadrinistas, mas é exatamente nesse último, nos quadrinhos, que venho observando uma insurgência de trabalhos interessantes no gênero. Um desses trabalhos é Black Silence, da quadrinista Mary Cagnin.

A história segue a tripulação de uma missão organizada pela FAE (Forças Armadas Espaciais) para procurar um planeta que possa funcionar como colônia, uma última tentativa desesperada de salvar a humanidade. Na liderança da missão está a Comandante Neesrin Ubuntu, uma oficial fria e determinada, com uma reputação que a precede e mistura admiração e medo em sua tripulação. Além dela e de sua equipe da FAE está Lucas Ferraro, Exobiólogo que recebe a missão sem opção de negá-la, ele está preso pela FAE aparentemente de maneira irregular. A viagem é altamente arriscada, e pode resultar na morte de todos os seus integrantes, e o que os espera no outro planeta além de desconhecido pode ser perigoso.

Black Silence sofre de um mal que é muito comum nos quadrinhos brasileiros, a narrativa expressa. O universo criado para a narrativa central é grande e interessante, mas a história parece presa nas 87 páginas que tem para se desenvolver. Você sabe quem são os personagens porque se fala muito sobre eles, mas sem páginas o suficiente para desenvolvê–los as informações parecem cair no nosso colo ao invés de ser um processo mais orgânico. Informações interessantes que revelariam detalhes relevantes sobre como é e como funciona a sociedade da qual essa missão faz parte são apresentadas rapidamente mas nunca desenvolvidas. Fica a sensação de que havia muito mais história para contar, mas faltaram páginas.

Apesar desse problema de narrativa, Black Silence consegue contar uma história que conversa diretamente com os nosso medos, aqueles que são quase primitivos. O que vai acontecer com a humanidade quando chegarmos no nosso limite? Ao invés de escolher um cenário pós-apocalíptico onde veríamos a destruição humana, Mary Cagnin opta por nos mostrar um cenário contido nessa última missão. O modo como essas questões afetam ou não cada um dos membros da comitiva, os sacrifícios que todos eles tiveram que fazer para chegar no ponto em que estão – mesmo aqueles que nunca optaram por esses sacrifícios.

O quadrinho flerta com Hard Sci-Fi, mas é exatamente por não se fixar em detalhes muito específicos que ele ganha narrativamente. É possível ver influências tanto do clássico Vampiros de Alma (e talvez só essa menção já seja um pequeno spoiler), quanto de Alien: O Oitavo Passageiro. Pode-se dizer inclusive que há também um aceno para o tradicional anime de sci-fi Evangelium. isso tudo com uma roupagem mais atual e bem mais diversa etnicamente.

Um dos pontos altos de Black Silence é que dos seus cinco personagens, apenas dois são brancos. É difícil ver uma protagonista de sci-fi negra e é interessante ver como a protagonista se desenvolve. Se primeiramente Neesrin periga cair no estereótipo da mulher negra como uma fortaleza, algo que inclusive está dito na Ficha de personagens, mais para o final da história a Comandante da FAE ganha espaço para se desenvolver e mostrar um faceta diferente.

É muito legal ver o quadrinho nacional aprendendo a contar histórias de sci-fi sem cair na mesmice da narrativa tradicional americana. Black Silence é um produto criado por uma autora Brasileira que, assim como Mayara & Annabele, consegue caminhar por um gênero relativamente novo para a narrativa nacional, com elementos tradicionais de sci-fi, mas que se permite ir além sem parecer uma cópia esquisita do que já foi feito antes. Definitivamente vale a leitura.

Black Silence foi financiado no Catarse, mas você consegue adquirir uma cópia AQUI.

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