Galera, pra quem não viu Boyhood ainda, daqui pra frente até o nome do filme é spoiler!

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Vi Boyhood pela primeira vez há dois dias.

Como gosto do diretor Richard Linklater (e do pessoal que geralmente trabalha com ele), me mantive distante de qualquer trailer ou spoiler. Cheguei no cinema com uma única imagem do filme na cabeça, vinda do pôster: Mason, o protagonista, deitado na grama, olhando para o céu. Era mais do que o bastante.

Para ser sincero, queria ter visto Boyhood pelo menos mais uma vez antes de escrever sobre o filme. Queria poder revê-lo dez, vinte vezes antes de dizer qualquer coisa sobre ele.

Meu desejo, na verdade, é que existisse um cinema por perto que passasse o resto da vida exibindo Boyhood, para que eu pudesse entrar e rever sempre que der vontade, ou que a minha própria vida exija essa experiência de novo, nem que seja por uma ou duas cenas. Assim, naqueles momentos que a vida parece uma merda, um tédio, ou que não existe nada fora tristeza, eu poderia reencontrar o que há de mágico em duas coisas que são tão banais no nosso cotidiano – e importantes para a forma como vejo o mundo: o agora e o cinema.

Boyhood já faz parte da minha experiência tanto quanto os filmes que vi ou revi dezenas de vezes.

Meu plano, por enquanto, parece simples: ver Boyhood uma vez por semana, toda semana, enquanto o filme estiver em cartaz.

boyhood1 Acho que o primeiro filme do Linklater que eu vi sabendo que era dele foi Waking Life, no meio da adolescência. Devia ter uns 15, 16 anos. Era, pelo menos pra mim, a idade certa para ver aquele filme. Eu estava lendo filosofia, começava a me interessar por política e, claro, queria ser e pensar diferente das pessoas mais velhas (e da maioria dos adolescentes) com quem convivia.

Desde então, tenho passado por momentos em que adoro e odeio a maneira como Waking Life é construído por diálogos extremamente cabeçudos e outros profundamente banais – ou um pouco de cada, misturado. Hoje, por causa de Boyhood, eu voltei a gostar de Waking Life; não só pelo que Boyhood me fez ver de novo nele, mas (principalmente) por ter sido minha porta de entrada pro trabalho de um cineasta que mostra na tela ter o maior coração daquela geração de cinema independente americano da década de 90.

O segundo filme que vi dele foi Antes do Amanhecer (Before Sunrise). Na época, vou ser sincero, achei meio água com açúcar, meio falado demais. Enquanto eu dizia isso para os meus amigos, no entanto, eu sabia que debaixo daquilo que me parecia idealizado demais havia algo que se conectava diretamente com minha própria vontade de pular do trem e fazer de verdade alguma coisa, conversar de verdade com alguém sobre a vida – tudo aquilo que parece “de verdade” até uma certa idade, da qual estou me afastando pouco a pouco. E mesmo na idealização do Antes do Amanhecer, que foi sendo descontruída (não acho que esse seja o melhor termo, mas enfim) no decorrer da trilogia, havia algo que me tocava pra caramba.

Mas não quero falar muito sobre a trilogia do Amanhecer por aqui. Quem sabe esses três filmes não rendem uma coluna mais pra frente?

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A sinceridade dos filmes do Linklater é tocante e desbravadora. Se deixa assumir como estética nos seus filmes – uma estética que remete a Robert Bresson, a Yasujiro Ozu, a Ingmar Bergman (diretores cuja influência ele cita); a um cinema, enfim, que tem a liberdade para filmar o aqui e agora com a beleza e a importância que o momento carrega em si, sem se deixar levar por artifícios narrativos ou efeitos e movimentos que servem para desviar nossos olhos do fato de que não tem tanta coisa assim acontecendo onde mais importa: entre os personagens e no universo interior de cada um deles. É naquilo que os personagens estão vivendo (muitas vezes sozinhos) ou compartilhando, e que dividimos com eles, que está a essência do que o Linklater nos mostra. Ele faz aquilo que o cinema faz de melhor (mas que é tão esquecido), o motivo para o Marcel Proust se trancar e escrever até a morte: seus filmes nos convidam a sentar e ver, sentir e aceitar o tempo passar.

Ao contrário do Proust, no entanto, que me dá uma sensação de que a narrativa está dizendo “já foi, já foi”, e te convida a reconfigurar a memória na busca por uma essência perdida, Linklater me parece trabalhar de outro jeito. Tenho a impressão de que ele nos mostra que as coisas “estão sendo”, ao mesmo tempo em que nossas memórias as estão absorvendo (e as modificando). As personagens dele passam bastante tempo falando, analisando, observando o que a vida (que os anima) faz acontecer com elas, e o que as decisões que elas tomam faz acontecer com a vida.

Elas passam um tempão, enfim, fazendo exatamente o que estou fazendo agora.

E o efeito acumulativo das cenas em Boyhood (e na trilogia do Amanhecer) é, de certa forma, parecido com o do final de Em Busca do Tempo Perdido: olha onde estamos, o que nos trouxe até aqui – o que é que nos segura neste lugar, por que não caímos (ainda) ou morremos? Porque a vida ainda está sendo. E nos resta, principalmente, ver, sentir e aceitar o tempo que ainda temos. A outra opção fora viver não é morrer, é deixar passar.

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Tem muita de que eu gosto em Boyhood. Uma das principais é que o conceito – a idéia de passar 12 anos filmando e, ainda assim, produzir uma obra coesa em todos os aspectos –  é algo tão grande, uma conquista tão absurda, que é comparável ao barco que o Werner Herzog fez escalar um morro na Amazônia peruana em Fitzcarraldo, ou ao método absurdo que levou Béla Tarr a fazer Sátántangó, um filme de pouco mais de 7 horas, com mais ou menos 150 planos. E, ainda assim, não tem nada no filme que tente esfregar na cara do espectador esse conceito; a maneira como o filme lida com essa espinha dorsal é com absoluta normalidade, como se as cenas tivessem sido filmadas de um dia pro outro – como se a própria vida estivesse acontecendo na tela, e de certa forma ela está.

Os cortes de passagem de tempo, o fluir dos anos, são feitos em elipses claras, sem pompa. Encontramos as personagens logo ali, no próximo estágio da vida delas, e de um ou dois gestos, de umas palavras, intuímos o que aconteceu desde a última vez que estivemos com elas. Assim, Boyhood evita o que seria, em outros filmes, o aspecto central de sua história: não há valor de choque na passagem de tempo, apenas uma noção bonita de que as coisas se avolumam e formam as pessoas, momento a momento.

Outro aspecto importante de Boyhood é a forma como o filme evita os momentos chave que servem de sustentação para as histórias de quase todos os filmes de coming of age. Não vemos aqueles acontecimentos clichê, padronizados: o primeiro beijo, o baile de formatura, o primeiro dia de aula. Pelo contrário, é no que em outros filmes não passaria do cotidiano banal que Boyhood encontra sua essência, sem nunca entediar.

Boyhood também não julga. Isso não quer dizer que a visão do diretor não esteja expressa na tela com total clareza de intenções. Só não se trata de um filme que carrega de qualquer forma um julgamento pesado sobre aquilo que está mostrando. A intenção de Linklater é muito mais nos mostrar de forma aberta, sob diferentes prismas e pontos de vista, com delicadeza, tudo aquilo que está na tela.

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Mason, o protagonista, é apresentado como um garoto sonhador, daqueles que fazem perguntas difíceis, que desenterra um pássaro morto para ver como ele anda e se entristece. Seu pai, ausente no começo do filme, logo trará um dos grandes temas pra tela: a paternidade. A presença constante da mãe de Mason na tela (interpretada de forma genial pela Patricia Arquette), no entanto, não deixa dúvidas: a maternidade é um assunto ainda mais central. Sem a personalidade, as decisões e as dificuldades pelas quais sua mãe passa, Mason não seria a mesma pessoa. Por mais que seu pai tenha alguma influência na vida do filho, é a mãe que irá guiá-lo no decorrer de todo o filme.

Quem poderia imaginar não apenas o caminho pelo qual Mason seguirá, quem ele vai se tornar, mas também quem Ellar Coltrane que o interpreta se tornaria? Que ele tenha se mantido interessado, e tenha entregado uma grande performance durante tantos anos de sua vida é algo incrível demais.

Durante os anos difíceis da adolescência, Mason continua um personagem interessante, por quem a câmera tem um interesse magnético. E sem apelar para o caminho fácil de torná-lo uma figura idealizada, um adolescente irreal que não irrita ninguém e não tem problemas consigo mesmo. É a sua jornada que estamos acompanhando, afinal, e não há nenhum momento que não seja precioso.

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As outras personagens centrais no filme são a mãe de Mason, sua irmã e seu pai. A mãe de Mason é pontuada por uma história de superação; ela começa como uma mãe solteira que passa por dificuldades e se realiza como uma profissional que atinge aquilo que queria. Por outro lado, sua vida amorosa não tem o resultado que ela esperava. Suas escolhas, tanto aquelas que ela acaba considerando acertadas quanto aquilo que ela passa a ver como erros, são boa parte da essência do filme, daquilo que vai formando o caminho dos seus filhos. A mãe de Mason é, sem sombra de dúvidas, o motor que leva o filme adiante, mais do que as próprias escolhas de seu filho.

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É muito bonito ver como o papel de mãe não é a única característica que Boyhood traz à tona. Existe uma profundidade impressionante, muitas vezes silenciosa, que não se deixa traduzir em palavras, na personagem da Patricia Arquette. Sua cena final, um dos momentos mais emocionantes do filme, é incrível.

Algumas pessoas do grupo com quem vi o filme reclamaram do fato de que os dois maridos com quem a mãe de Mason se casa durante o filme tem mais ou menos o mesmo comportamento. Concordo que isso redunda num certo clichê, da mulher que torna a escolher sempre o companheiro errado – e mesmo a forma como isso é mostrado é mais ou menos a mesma, já que os dois se tornam alcoólatras. Ainda assim, vejo muita dignidade para a personagem na forma como o filme lida com a violência do primeiro padrasto de Mason contra ela. Não vemos a violência na tela, mas conhecemos cada um dos detalhes de suas consequências: uma mulher que é responsável por recomeçar do zero, não só para si mesma, e que não se deixa diminuir.

Acho interessante também a forma como o filme humaniza o segundo padrasto de Mason, um ex-militar. Ainda que Linklater deixe seu pacifismo mais do que expresso na tela, há espaço para que o ex-militar diga com suas próprias palavras qual é a sua percepção daquilo que fez no Iraque, da importância do trabalho que tinha lá.

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A irmã de Mason, Samantha (interpretada por Lorelei Linklater, filha do diretor), é outra personagem cujo desenvolvimento achei muito legal. O engraçado é que, uns dois ou três anos depois das filmagens começarem, Lorelei pediu para o pai para ele matar Samantha, porque ela (no alto de seus 12 anos) estava cansada da personagem. Por sorte, os dois conseguiram se entender e esse não foi o fim de Samantha.

Samantha começa o filme com uma atitude que ilumina a tela. A relação dos dois irmãos é de trazer um sorriso para todo mundo que tem irmãos. Eles se cutucam, se chateiam, brincam juntos. A espontaneidade dos dois juntos é divertida demais. Duvido que alguém vai ver o filme e se esquecer da cena em que Samantha decide encher o saco do irmão cantando Britney Spears.

Essa garotinha tão solar, aos poucos, amadurece e se torna uma adolescente calada, com todos os sinais de rebeldia com os pais, de desconforto consigo mesma. Acho que o peso dessa mudança, e o silêncio com que os pais parecem recebê-la, dizem muito sobre como é (ou era, naquela época) ser uma garota de classe média americana – tudo aquilo que não pode ser dito, que os pais não compreenderiam. Achei reveladora a maneira ridícula como seu pai reage à descoberta de que Samantha está namorando, sua incapacidade de tratá-la como madura mesmo quando está tentando ensiná-la a fazer sexo seguro – e a incapacidade de ouvir seu pai falar sobre aquilo sem sentir nojo, sem se sentir deslocada por aquela conversa. Mesmo que Samantha não seja a protagonista do filme, vejo muita profundidade na maneira como o amadurecimento dela é apresentado na tela.

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O pai de Mason, interpretado por Ethan Hawke, é apresentado sob o signo da ausência. Sua aparição no filme não deixa muitas dúvidas de que, por mais que ele tenha uma visão política progressista, que se comporte com certa leveza (fingida), ele é um babaca. Mas é um babaca cuja vida vai ensinando a ser menos babaca. Durante um acampamento com Mason, a dica que ele dá pro filho para conseguir namorar garotas é fingir interesse pelo que elas têm para dizer. Esse é exatamente o tipo de comportamento que ele mesmo assume perante os filhos no começo da história. Por mais que ele se case, forme uma nova família – aprenda, enfim, a ser uma pessoa muito, muito melhor do que era antes –, o que ele tem a dizer para Mason sobre mulheres no final do filme não é assim tão diferente. Tem coisas que seu comportamento lhe ensinou a mudar, mesmo que à força, mas que suas palavras (ou ideias) não conseguem acompanhar. Isso é bem interessante, pois não apenas ajuda a aprofundar um personagem com falhas profundas (de personalidade, não de construção!), mas ajuda a equilibrar o que seria uma visão política do filme que tende à esquerda.

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Enquanto acompanhamos a história de Mason e sua família, Boyhood faz também um retrato da História dos Estados Unidos durante o período. Desde a trilha sonora até os acontecimentos históricos que atingem o cotidiano dos personagens (o 11 de setembro, a eleição de Obama etc), tudo isso tem um impacto direto na vida deles. Existem poucos filmes americanos nos últimos anos que mostram com tanta clareza a relação direta entre política e o dia-a-dia, a vida das pessoas.

É nesse aspecto, eu imagino, que o fato da escolha de um protagonista masculino, cis, branco e de classe média, e as consequências dessa escolha fiquem mais evidente para os espectadores. A vida que Mason está levando, suas possíveis escolhas, tudo isso é retrato do estilo de vida de apenas uma parcela da população norte-americana. O que seria, portanto, numa visão mais tradicionalmente difundida por Hollywood – uma indústria na qual Linklater mal se encaixa – um retrato do estilo de vida americano, baseado na família nuclear (branca) e tudo mais, se revela em Boyhood como um retrato da dissolução desses estereótipos na vida real. Será que se Mason fosse de outra etnia, de outra classe social, ele passaria pelas mesmas experiências que vemos na tela, teria o mesmo escopo de possibilidades? Linklater escolheu um personagem que não foge da “normalidade” exclusivista geralmente imposta à tela e, dentro dessa escolha, tentou desmontar a construção que geralmente se faz dessa normalidade. Acredito, portanto, que existe no filme uma crítica poderosa sobre representação. Mas não acho que essa crítica seja nem de longe o bastante, ainda mais para um cinema que funciona fora dos parâmetros ditados pela indústria.

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Outro aspecto interessante: nas sequências do filme, muitas vezes, encontramos o inesperado. Personagens que esperávamos ver de novo são deixadas para trás. E, por outro lado, outras personagens, mesmo que em breves aparições, deixam uma marca forte na tela. De repente, um professor de faculdade meio doido, que dá aula para ninguém na mesa de um restaurante de madrugada. Ou um amigo de Mason, o único garoto do clube do bolinha que se nega a falar de garotas de forma pejorativa, que é “acusado” pelo rapaz mais velho de ser gay e um eterno virgem – e que responde com firmeza (mesmo sem ser ouvido pelos outros), que dá voz para que o filme nos mostre o que aquela conversa “casual” entre garotos realmente quer dizer, qual é o discurso que eles estão repetindo. Ou ainda o casal de novos avós de Mason, típicos sulistas tradicionalistas que dão uma bíblia e uma espingarda para um garoto que acaba de fazer 15 anos de idade, e ainda assim são apresentados de forma humana e crítica.

Mesmo que esses pequenos momentos, essas personagens que vêm e passam pela tela, possam parecer apenas um detalhe para a família de protagonistas, o peso da existência e da presença deles se faz sentir no espectador – e não é assim que, muitas vezes, nos lembramos de algum lugar ou uma pessoa? De repente, percebemos a marca que aquilo nos deixou, que nem suspeitávamos na época.

E assim, com muita sensibilidade, mais uma vez Richard Linklater volta seu olhar para a passagem do tempo. Não seria exagero dizer que Boyhood é, se não o melhor filme de sua carreira, pelo menos um de seus maiores feitos.

O mais importante é que Boyhood vai te fazer se sentir jovem e vivo, não importa quantos anos já tenham se passado. São poucos os filmes por aí que têm a mesma força.

 

E vai de brinde, para quem ainda não viu, um ensaio visual do (grande!) Kogonada sobre a obra do Richard Linklater:

(spoilers, principalmente pra quem não viu a trilogia do Amanhecer)

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