Aqui no Collant o nosso público principal são as mulheres, isso não quer dizer que você, cara, não é bem vindo. Muito pelo contrário, está super convidado à ler, assistir e comentar nos nossos textos/vídeos/podcasts, mas saiba que esse espaço não gira em torno de você.

Hoje, no entanto, eu quero falar com vocês, porque eu vou discutir um tema que muitos caras parecem não identificar nem entender como funciona: a broderagem.

A broderagem acontece quando um homem ajuda um brother. Há muito valor em uma pessoa ajudar outra pessoa, nós vivemos tempos complicados e um gesto de auxílio ao próximo é sempre muito bem vindo. Mas hoje a broderagem que parece tão inocente, positiva e natural, pode ser algo bastante negativo para qualquer pessoa que não seja um homem, branco, hetero e cis.

Vou usar a lógica do meio dos quadrinhos, mas você pode aplicá-la em qualquer outra área.

A maioria dos produtores de conteúdo, em posições de poder ou não, são homens. Isso é um reflexo do histórico e reconhecido apagamento das mulheres das produções culturais. Durante centenas de anos fomos proibidas e excluídas de participar dos cenários culturais a não ser como musas ou ouvintes. Muitas vezes nos proibiram inclusive de sermos leitoras. Parece que eu estou indo longe no tempo, mas a verdade é que esse conjunto de verdades históricas traçaram o caminho para que hoje, em pleno 2016, homens ainda sejam a maioria dos gate keepers para se entrar no mercado de quadrinhos. Gate Keepers são os responsáveis pela seleção de artistas, curadores de coletâneas, editores e donos de editoras, sites e distribuidoras.

As mulheres e outras minorias estão cada vez mais interessadas no meio dos quadrinhos, comentando, lendo, criticando, escrevendo, ilustrando. À medida que vamos discutindo representatividade vamos percebendo que sempre estivemos aqui, mas que antes ou não participávamos ativamente desse mundo, ou éramos ignoradas. Mulheres estão criando conteúdo de qualidade que atrai seguidores e críticas positivas, mas ainda precisam passar por essa barreira que parece invisível e tem pouco a ver com a qualidade do seu trabalho, a broderagem.

Ela se estabelece assim: Um editor/curador/pessoa em posição de poder vai criar uma coletânea/contratar um ilustrador ou escritor. Esse editor conhece um cara de quem ele é próximo/viu uma vez na vida/nunca viu e gosta do trabalho dele. Esse editor/curador/pessoa em posição de poder vai contratar esse brother. Contratado o escritor/ilustrador, eles vão dar a exclusiva do lançamento do produto/quadrinho para o site de um outro brother. Esse outro brother vai falar sobre o trabalho desses outros dois brothers e eles vão ganhar espaço, público e, quando forem para o próximo projeto, contratarão ainda outro brother. E assim a broderagem continua ad infinitum.

Isso não quer dizer que você editor/curador/pessoa em posição de poder é uma pessoa ruim, apenas que ao invés de fazer uma pesquisa e abrir seu olhar para outras possibilidades resolveu ajudar um brother. Ao fazer isso, no entanto, você está mantendo o fechado círculo de homens-que-já-estão-na-cena funcionando, abrindo vez ou outra, para uma mina que se torna A UNICA MINA e, muitas vezes, é usada como justificativa quando cobram de você um posicionamento mais inclusivo.

Isso acontece porque o ambiente é majoritariamente masculino, de homens que vão ajudar outros homens em detrimento de outras pessoas (que são, em sua imensa maioria, mulheres e outras minorias). Esses homens tem internalizado que mulheres são menos capazes, que suas opiniões são menos importantes e que são menos interessadas em quadrinhos. Muitas vezes eles também acreditam que mulheres sempre preferem coisas fofas e delicadas e, por isso, não saberiam fazer quadrinhos mais sérios e políticos, de terror ou horror. De novo, isso não quer dizer necessariamente que você é um cara ruim, apenas que ainda não tinha se dado conta de como esse sistema funciona e nem tinha se ligado que esses conceitos estão internalizados.

Agora você sabe. 

E sabendo disso vão se levantar outras tantas questões.

Mas então eu não posso mais ajudar um brother?

Claro que pode. Mas quando você for fazer isso lembre-se que se oportunidades não forem dadas mulheres e outras minorias nunca vão fazer parte do universo dentro do qual você existe. Enquanto você continuar chamando só os caras para aquela coletânea de quadrinhos, enquanto você limitar a participação feminina à um número mínimo, e enquanto você não parar de encarar a produção feminina dentro de quadradinhos estereotipados você também é responsável pela manutenção do sistema que vai favorecer apenas à você e à outros homens.

Mas isso quer dizer que os homens vão perder espaço.

Sim, mas isso não é uma coisa ruim. Ao invés de encarar isso como uma perda, pense em tudo que se pode ganhar ao transformar o mercado em um lugar com mais idéias e outros olhares além do masculino padrão. A democratização do espaço vai nascer daí, com oportunidades iguais para todos nós vamos realmente ter um universo em que a única coisa que vai importar é a qualidade do seu trabalho, se ele se alinha ao projeto ou não, se você entrega dentro do prazo ou não. Enquanto o mercado trabalhar dentro da lógica da broderagem o que nós vamos ter é um espaço majoritariamente masculino, excludente e que insiste no discurso de que “é uma questão de qualidade”, quando na verdade não é.

Mas é uma questão de qualidade.

Você já se perguntou por que existem menos mulheres do que homens produzindo quadrinhos? Hoje, no Brasil, são 420 mulheres confirmadas produzindo. A lista, feita pela quadrinista Aline Lemos, juntou tanto nomes conhecidos quanto quadrinistas que ainda estão ralando por algum reconhecimento. Uma das principais dificuldades quando falamos sobre fazer quadrinhos é convencer mulheres de que a opinião delas importa. Assim como vocês, nós, mulheres, crescemos escutando que a opinião feminina não importa ou não é tão importante quanto à do homem. Tomar coragem para colocar no papel o que a gente pensa exige muito de muitas mulheres, e enquanto nós não nos vermos produzindo vai ficar ainda mais difícil. Então enquanto vocês rabiscam três riscos e se consideram quadrinistas, as mulheres precisam primeiro aprimorar a técnica, a narrativa e a linguagem para depois ter coragem de publicar qualquer coisa. Enquanto vocês se ajudam um aos outros, nós precisamos nos provar para nós mesmas e para vocês. E mesmo quando atingimos uma qualidade considerada profissional ainda sim somos excluídas. Não é uma questão de meritocracia, é uma questão de oportunidade.

Mas por que mulheres podem se ajudar umas às outras e homens não?

De novo, não é uma questão de que vocês não podem ajudar uns aos outros – é que você só fazem isso. E esse comportamento é sim responsável pela manutenção de um ambiente excludente e hostil para a produção feminina e de outras minorias. Quando mulheres ajudam mulheres em espaços que são majoritariamente masculinos nós estamos carvando participação, apoiando e transformando esse mesmo espaço num lugar mais inclusivo e iqualitário. Assim como nós precisamos sempre pensar de maneira interseccional, para não excluir nenhuma mulher, vocês precisam pensar de maneira a não se fechar apenas em homens.

Então esse ano, quando você for criar aquela coletânea de entrevistas com quadrinistas, aquela coletânea de maiores quadrinhos brasileiros, quando for convidar os quadrinistas internacionais e nacionais para o seu evento, quando for formar mesas de discussão sobre qualquer assunto e não unicamente sobre ser mulher nos quadrinhos, quando você for contratar um ilustrador/desenhista/jornalista, lembre-se que se você nunca olhar além do seu clube masculino fechadinho, você está sendo conivente com um sistema excludente. Lembre-se dessa lista de mulheres quadrinistas (e se precisar me procura que eu te re-envio ela), lembre-se de fazer uma pesquisa e levantar nomes de quadrinistas que saiam do padrão homem-branco-hetero-cis. Lembre-se de olhar além da broderagem e ajudar as manas.

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