Pensei em colocar este texto na categoria de Kill It With FIre, já que por mim o filme poderia queimar todas as cópias. Mas é filme, e é uma crítica. Então ficamos com um Colant Sem Decotes. Fica aqui o alerta de SPOILERS.

Ontem assisti Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), novo filme do diretor David Fintcher. E, colega, é uma merda. Do tipo grande.

  1. O estereótipo da mulher predatória.

O único erro de Nick (Ben Affleck) é ter traído a mulher e a ter forçado uma vida num subúrbio para a qual ela não tinha o menor atributo. Amy (Rosamund Pyke), no entanto acusou o marido de violência doméstica, forjou a própria morte e o incriminou. Antes disso ela também forjou um estupro contra um cara que se afastou dela por conta de seu comportamento obsessivo. Depois disso ela assassinou um cara. E depois disso tudo ela ainda forçou a permanência de Nick em casa com o golpe da barriga.

Não estamos trabalhando com um, mas sim com TODOS os estereótipos que atingem as mulheres. Mulheres que sofrem violência doméstica são corriqueiramente tidas como “merecedoras” ou “histéricas”, já que não deve ter sido tão ruim assim. 85% dos casos de violência doméstica é contra mulheres. Mulheres morrem todos os dias porque os companheiros as matam. Praticamente todas as mulheres, depois de um estupro, tem dúvidas sobre relatar ou não o ocorrido, por saber que vão duvidar da sua palavra - o homem sempre fica com o benefício da dúvida. Estavam só os dois, quem vai saber o que aconteceu de verdade? Mulheres são constantemente acusadas de mentir e fingir o estupro, de levar os homens a cometer o ato. Tentá-los, persuadí-los, seduzí-los e depois acusa-los. Mulheres são acusadas de prender companheiros em casamentos com gravidez premeditada. Furar a camisinhaparar de tomar a pílula. Tudo para controlar a vida do homem. Para forçar que ele fique, para tirar dinheiro dele, para ter um link permanente com o homem que não a quer mais.

TUDO isso está neste filme. TUDO. Amy é responsável por tudo isso. Os únicos erros de Nick foi arrumar uma amante e ter se mudado para a cidade da mãe moribunda.

  1. Personagens femininas são estereótipos negativos.

A mãe de Amy é uma perua sem dinheiro, uma mãe insatisfeita com a filha que criou, chata, arrogante e coxinha. A amante de Nick é a aluna burra que se apaixona pelo professor - estamos assistindo o filme sobre como esse cara pode ter matado a esposa e a amante dele é sexualizada. A “melhor amiga” de Amy é uma soccer mom histérica.

A jornalista sensacionalista é uma devoradora de homens infiéis, sempre questionando, sempre culpando, fazendo polêmica, contando mentiras, atiçando agressividade, fazendo tudo pela matéria/fofoca. A policial é incompetente, se sente inclinada a acreditar em Nick, depois se sente traída por achar que ele realmente matou a esposa, mas volta para o seu lado quando descobre a verdade. A mulher que Amy encontra no hotel é a mulher que sempre cai pelo cara errado, apanha e comete o mesmo erro de novo.

A própria Amy chega a beirar o cartunesco enquanto assiste o resultado de suas façanhas pela televisão.

Todas as mulheres são ruins. Todas são más.

Não existe sororidade. Mulheres não acreditam em outras mulheres a não ser que haja mentira envolvida. Nós somos todas inimigas. A única personagem com um risco de personalidade é Margot, irmã gêmea de Nick, que é apresentada falando mal de Amy.

  1. A discussão sobre relacionamento se perde em meio à misoginia.

Eu vou dar ao filme um crédito. Há, debaixo de toda a merda, uma discussão sobre relacionamentos, sobre como nós nos portamos perante nossos companheiros, sobre como projetamos expectativas e muitas vezes nos apagamos perante ao outro. Ou como forçamos o outro a se apagar perante as nossas expectativas. Esse é um assunto que me fascina. Adoro qualquer boa conversa sobre esse tópico. O filme também fala sobre o esteriótipo da “garota ideal”, aquela que é feminina e masculina na medida certa, que não é nem fresca nem relaxada. Que está sempre pronta para o marido. Sempre perfeita.

Gone Girl discute isso tudo através do diário de Amy, um relato detalhado sobre as transformações que o casal passa perante a realidade do casamento. Isso seria lindo, se não fosse mentiras escritas em um diário fictício. A partir do momento que a detetive passa a ler os trechos que falam dos problemas do casal, Nick começa a desmentir tudo. Ele nunca bateu nela - e a cena no final não nos faz pensar que talvez ele tenha feito isso. Esse homem está vivendo na mesma casa de uma psicopata, o filme passou duas horas justificando o momento em que ele bate a cabeça de Amy contra a parede.

  1. E determinado momento Nick diz “Eu estou cansado de ser perseguido por mulheres”.

Precisa desenhar?

  1. Uma mulher ter escrito o livro não o exime de erros.

Não sei se contaram para o desavisado, mas mulheres também erram. Sim. E nós também somos capazes de reproduzir machismo. O fato do livro, e do roteiro do filme, terem sido escritos por uma mulher (Gillian Flynn) não tira o teor misógino do texto. Ele está lá e precisa ser discutido e apontado.

David Fincher fez O Homem Que Não Amava as Mulheres, adaptação de um livro que discute muito bem a violência contra a mulher, e depois me faz essa merda. Tá foda.

É sempre bom lembrar que nós queremos vilãs. Queremos ver personagens interessantes, que têm motivações diversas, que são capazes de tudo aquilo que personagens masculinos são. Queremos diversidade sim. Mas não dessa maneira, não de em um filme que faz um desserviço à todas as vítimas de violência doméstica, estupro e feminicídio.

Gone Girl é o tipo de produto cultural que ajuda a colocar justificativas e dúvidas na mente da sociedade machista que vivemos, sempre culpando a vítima.

Tá sçerto.

[Atualização: uma versão anterior do texto trazia uma tradução errônea de um termo, que foi posteriormente apagado, já que não refletia a discussão inicial e atrapalhava o entendimento do filme.]

  • Jéssica

    Acho que essa é a primeira vez que discordo de um texto do blog. eu gostei de gone girl justamente pq interpretei como uma mulher que resolve se vingar do machismo do marido. Ele não arrumou só uma amante, ele tratava sua esposa como um objeto, vivia as custas dela. no livro o machismo do nick é ainda mais explícito. os homens que a amy usou eram aqueles que fingiam colocá-la num pedestal, quando na verdade apenas queriam tê-la como enfeite. é uma vingança pessoal contra as coisas que ela passou. é exagerado? é sim. Mas em filmes de ação homens fazem vinganças muito mais exageradas que essa, muitas vezes com aquele mimimi de defender sua honra. eu acho que gone girl tem problemas, de fato as motivações da amy não são tão explícitas, mas ainda assim não acho que é um filme misógino.

    • Rebeca Puig

      Hey Jéssica! Discordar faz bem hehehe
      Gone Girl é um filme bem complicado pra mim. Eu não li o livro, então não posso falar sobre ele, mas saí do filme com raiva, porque achava que ele tinha todo o potencial do mundo, mas falhou miseravelmente em tudo. Eu realmente acho que o problema do filme mora na quantidade de estereótipos que ele junta, a grande maioria deles estereótipos negativos, e por isso ele tem um problema de mensagem - quer passar uma, mas acaba mandando outra!
      Acho que a Amy é mais do que uma esposa procurando vingança, ela é uma psicopata e isso podia dar vida à uma personagem muito interessante, mas os estereótipos que a formam e que estão em volta dela cria um clima, ao meu ver, negativo. Eu falo um pouco sobre isso num outro texto sobre o filme: http://www.collantsemdecote.com/?p=74&paged=2
      Mas Hey! Opiniões estão aí para serem discutidas!haha \o/

      • Jéssica

        Então, li o texto que você indicou, mas ainda discordo, entende? Faz bastante tempo que vi o filme, então posso não me lembrar de tudo, só sei que ela não me parecia ser psicopata de fato, uma vez que psicopatas não tem sentimentos, a Amy fez muita coisa para agradar o Nick, só que ele devolveu isso na forma de traição e humilhação. O Nick é machista mesmo no filme na forma como ele trata as mulheres ao redor dele, eu realmente não vi o caso de um homem coitado sendo perseguido.

        Bem, eu também imaginei que os mascus iriam procurar pelo em ovo pra elogiar o filme pelos motivos mais absurdos. Uma vezes eles disseram que Thelma & Louise mostrava como o lesbianismo destruía os RELACIONAMENTOS héteros. Acho que eles são capazes de ver qualquer filme como uma prova de que homens sofrem nas mãos das mulheres.

        De qualquer forma, não é minha intenção colocar como se minha interpretação fosse a única possível. Eu só queria compartilhar uma visão diferente já que gosto do blog assim como gostei do filme. Inclusive eu só comecei a ler o livro porque me disseram que o diretor não soube explorar bem a personalidade da Amy. No livro a história é narrada tanto pelo Nick quanto pela Amy aí dá pra ver melhor que nenhum dos dois é santo. Eu diria que o Nick do livro não é nem machista, mas sim um misógino. Ele age mesmo como um cara coitado procurando sua esposa, mas como o livro é narrado por ele, pelas coisas que ele pensa antes de falar já dá pra ver que ele é muito ambíguo. Eu ainda não terminei, mas tô achando legal como está sendo conduzido e tal.

  • Julia

    Só um detalhe importante sobre o final do seu texto: a tradução de spouse não é esposa, e sim cônjuge. Esposa é wife.

    • Rebeca Puig

      Opa! Esse texto foi feito para um outro blog, e lá foi corrigido! Acho que na hora de fazer a migração para cá eu devo ter salvo a versão errada! Resolvido! Valeu por avisar! 😉

  • Natália

    Falou tudo o que eu tava pensando! Acho que a história é incrível e é um filme bom. Fiquei presa o tempo inteiro, muito nervosa com o desenrolar dos fatos e sem saber o que acreditar. Mas, infelizmente, como você disse, é um total desserviço contra a igualdade de gêneros. Não precisa ser nenhum gênio pra saber que mulheres não exercem esses papeis. Tanto pra você ver que ninguém, em nenhuma das críticas que li por aí, classifica Amy como uma psicopata.

  • David Gomes de Souza

    Eu concordo com algumas partes da sua crítica, realmente o filme pode, e com certeza foi interpretado de forma extremamente errada pelos machistas, afinal aposto que muitos podem querer usá-lo para dizer que não violentaram, principalmente por causa do que ela fez no final, fingindo um estupro(embora eu ainda considere que aquele perseguidor dela seja extremamente problemático e que isso deveria ser discutido também).
    Concordo que todas as personagens femininas sejam estereotipadas, inclusive ela, mas penso que o caso do filme é que todas as personagens são estereotipadas, por exemplo, eu não consigo me lembrar nem do rosto dos policiais, porque para mim eram aqueles que comiam rosquinha e pronto. O próprio Nick é um machista babaca, não dá para saber exatamente o que ele fez ou não fez, se bateu nela ou não bateu, porém existia um problema no relacionamento deles, e ao invés de conversar ou pelo menos terminar, ele preferiu ter uma amante. O perseguidor dela também é uma personagem estereotipada, assim como o pai dela.
    Penso que isso é exatamente o que o filme quis retratar, todas essas pessoas ali são boas e também ruins, todas elas tem seu ponto forte e fraco, a amiga dela, mãe dos filhos, certamente é uma ótima mãe, embora pareça ter uma autoestima lá em baixo, é algo extremamente batido e usado em Hollywood, aceito esse argumento, porém também é um padrão dos EUA, existe milhares de mulheres lá que são assim, e o filme tenta retratá-las, não mostrar para elas que podem sair disso, afinal, é um filme sobre o lado mal da humanidade, não sobre o bom.
    Quanto a própria Amy, penso que ela seja simplesmente uma mulher louca, não quero dizer louca no sentido de escandalosa, ou histérica, quero dizer psicologicamente louca, ela tem algum problema muito grande dentro dela, seja pelo que for, ser retratada como a garota perfeita nos livros também parece mexer com ela, ela nunca foi essa garota afinal, realmente os motivos dela são praticamente inexistentes, mas novamente, se ela é abalada de alguma forma, como nós poderíamos entender? O cérebro dela funciona de forma diferente e o que deveria acontecer é que ela deveria estar se medicando e indo no psiquiatra, no mínimo, ou pelo menos estar em uma ala psiquiátrica, porque ela não é sã.
    Todas as críticas são válidas, principalmente quando se trata de feminismo, se não começarmos a mudar o jeito que as mulheres são retratadas elas sempre vão acreditar que é normal ser desse jeito, um policial durona, uma mãe histérica, uma mãe insensível etc, mas ao mesmo tempo, esse filme não vem para te mostrar o que você deve fazer, ele vem para te mostrar exatamente o que não fazer.
    Eu gostei muito do filme, e acho que ela é uma excelente vilã, como temos poucas nos filmes, por enquanto não vi ninguém interpretando o filme de forma errada(tipo dizendo que ela exemplifica todas as mulheres do mundo) e isso me faz respirar aliviado, o filme tem problemas, óbvio, porém não considero que seja uma grande porcaria.