No primeiro mês de faculdade de animação, tive aula de desenho de personagem com a uma professora chamada Aline. As aulas foram super divertidas, mas logo a gente soube que ela não seria mais a nossa professora e que teríamos aula com a Zoe.

O mês inteiro ouvimos coisas do tipo: “Vocês vão ter aula com a Zoe, né? Vish”. Eu já ouvi alguém a chamando de general uma vez, mas foi com amor. No mínimo quando eu dizia que teríamos aula com ela o aluno veterano ria, aquela risada que tá querendo te alertar, sabe? Aquela risada de aviso amigo.
O mês foi tomado por uma ansiedade generalizada na minha turma pra conhecer a Zoe. Será que ela gosta de dar notas baixas? Será que ela vai tirar dois pontos da minha média se eu não usar o Canson 224g? Será que se eu usar a borracha eu vou levar um tapa de régua na minha mão? Meu Deus, será que ela é Dolores Umbridge Taiwanesa?

As aulas começaram e a gente viu quem era a Zoe que tanto comentavam pelos corredores da faculdade: Uma professora exemplar, que tem uma sincera preocupação com a evolução do aluno e que está sempre disposta a ferir seu ego de estudante de arte, se for pro bem do seu aprendizado – ou seja, está sempre disposta a te ajudar.

Eu conversei com a Zoe sobre os estudos e a carreira dela, sobre diversidade na criação de personagens, quis saber quais são as artistas favoritas dela e fiz a tão famosa pergunta: “Pra fazer animação, precisa saber desenhar?”

Eu adorei nossa conversa, espero que curtam e aproveitem as dicas!

O que te motivou a estudar arte?

Quando criança, me sentia motivada a desenhar porque me destacava um pouco mais do que os outros alunos.
Minha mãe é professora de desenho, deu aulas em Taiwan (viemos pro Brasil quando eu tinha 1 ano e meio), mas quando chegamos no Brasil ela parou de dar aulas, então eu não aprendi a desenhar com ela.
Eu tive um pouco de aula de pintura a óleo com o meu avô que é professor de desenho, mas desenho (proporção, anatomia, perspectiva) eu aprendi sozinha com quadrinhos e os livros de arte da minha mãe.
Na época não existiam livros importados sobre o assunto então eu observava por exemplo, os trabalhos do Leonardo da Vinci e Michelangelo pra entender melhor a anatomia.

Qual é a sua formação?

Eu sou formada em artes plásticas pelo Mackenzie e tenho pós em Audiovisual pelo Senac.

Como foi sua experiência como estudante e quais foram seus maiores desafios?

Minha experiência como estudante deu um pouquinho a desejar, não foi o que eu queria. Eu esperava que eles fossem mais técnicos, tivessem um ensino clássico e rígido, mas as escolas no Brasil são mais livres e contemporâneas, então ao invés de aprender as técnicas de estrutura por exemplo, pra depois começar a trabalhar de uma forma mais livre, eles nos incentivavam a sair criando sem antes ter uma base técnica.

Zoe, desenho de Marcela Lima.

Então vocês criavam com aquilo que vocês sabiam? Não tinha uma informação que os ajudassem a melhorar seus projetos?

Isso, trabalhávamos em cima daquilo que a gente já sabia, então quem desenhava bem continua desenhando bem, com o mesmo estilo, e o pessoal que não desenhava, não tiveram um real aprimoramento.
A gente teve aulas de perspectiva, desenho de observação, tivemos bons professores, mas eu não tive a formação clássica que eu gostaria. Teria sido interessante ter tido modelo vivo e mais aulas de desenho de observação, por exemplo.

Uma coisa que eu gostei muito da sua aula foi que você não tinha medo nenhum de magoar o ego do aluno (NENHUM MESMO!). Você é uma professora rígida que se preocupa com a evolução do trabalho do aluno.

Hahahahahaha! Eu tento me espelhar nos meus bons professores e também trazer pras minhas aulas algo que eu não tive. Meus professores diziam que os trabalhos estavam ruins mas não explicavam o porquê, eles não comentavam o que não estava interessante, o que precisava aprimorar. Então eu sempre tento passar pro aluno um argumento sobre como ele pode melhorar aquilo que tá ruim e porquê aquilo tem que mudar.

Você chegou a trabalhar como freelancer? Como foi sua experiência?

Cheguei a trabalhar como freelancer no começo sim.
Fiz trabalhos horríveis hahaha! O começo é sofrido pra quem não consegue arrumar um emprego.
Eu não tinha tanto contato com profissionais de arte, então pra mim foi mais difícil entrar nesse mundo. Contato é essencial.
Na época em que eu comecei a estudar a arte digital, tive que trabalhar em loja de revelação fotográfica e em agência de turismo pra conseguir pagar cursos de arte.

Então sua experiência como freelancer foi necessária, mas cheia de altos e baixos?

Com certeza! Vida de freelancer é sofrida. Tem dias que você consegue bastante trabalho, mas em outros dias não tem trabalho nenhum, então não tem muita segurança.
O interessante em trabalhar com freelas é ter contato na área, assim a chance de conseguir trabalho é maior.
Mas mesmo assim, a parte do pagamento é complicada, você não recebe tão bem, muitas vezes atrasam seu pagamento, outras vezes não te pagam… é sofrido.

E como conseguir os abençoados contatos?

Então, já declarando minha idade hahaha… na minha época não era tão fácil como hoje em dia. Eu tinha que bater de porta em porta e apresentar meu trabalho e quando alguém me conhecia, me indicavam.
Hoje você divulga seus trabalhos em fóruns, portfólio digital, redes sociais… Fica mais fácil pros seus amigos conhecerem seu trabalho, divulgar e outras pessoas acessarem seu portfólio.

Como foi sua trajetória profissional até se tornar professora?

Hoje em dia não faço mais freelas, eu gosto da rotina de horários estabelecidos, fica mais fácil de conseguir saber quando eu vou poder me desligar do trabalho.
Antes de começar a dar aulas eu tive esses trabalhos como freelancer. As aulas vieram por causa de indicação. Meu ex-marido me apresentou pro cunhado dele que é sócio da Melies, apresentei meu portfólio e eles me chamaram pra trabalhar com eles ainda como freelancer, até que fui efetivada e foi com eles que eu fui aprender a trabalhar com 3D.

Como foi essa transição do 2D pro 3D?

Eles tinham acabado de voltar da VFS (Vancouver Film School) e estudaram 3D por lá. Eu fazia esses desenhos 2D quando eles precisavam, e me incentivaram a modelar, porque eu tinha essa facilidade com volumes e estrutura de anatomia. Eles davam aula em outra escola e eu ganhei uma bolsa pra aulas de modelagem com eles.
A minha dificuldade foi entender como o software funciona, mas isso é só no começo, depois que você aprende como ele pensa fica mais fácil. Na modelagem em sí eu não senti tanta dificuldade. Claro que você precisa pensar numa outra maneira de estruturar o objeto e naquela época não tinha ZBrush Hahaha! Eu estudei no 3DMax 4.5 eu acho – eita, esse é antigo, heim! – era um trabalho mais limitado, mas no começo foi divertido.

Quando você começou a dar aulas, os alunos eram quase exclusivamente homens. Como você se sentia nesse ambiente masculino e como foi acompanhar essa mudança de ver o público feminino se interessar por esse mercado?

Eu nunca tive problemas em dar aulas pros meninos, acho que por eu ser mais velha do que eles, (comecei um pouco mais tarde nessa área de 3D, já tinha mais de 30 anos) eu não me sentia intimidada, até hoje é assim, e pelo contrário né? Eu é que intimido meus alunos hahahaha.
Eu nunca me senti discriminada e desrespeitada como professora, na verdade foi o contrário, por eu ser uma das poucas mulheres na escola, sempre senti que eles me respeitavam até demais. Foi uma alegria ver mulheres surgindo!
Garotos geralmente são muito imaturos e fazem brincadeiras de baixo calão, garotas tem maturidade pra lidar com isso.
Me senti muito feliz em ver mulheres se interessando por uma área que eu gosto, me deixava mais motivada!
Aqui na escola a gente tem esse interesse em agregar diversidade na equipe, o que me incentiva também.

E as brincadeiras imaturas nas aulas de anatomia?

Eu começo a fazer as brincadeiras antes deles, eles ficam sem graça e acabam ficando quietos hahaha.
Quando a aula é de modelo vivo eu já passo o recado sobre respeito ao profissional, aviso que não quero piadas e risadinhas, explico como a aula funciona e que o modelo tá alí pra ajudá-los nos estudos, no aprimoramento profissional deles.

Como mulher, quais foram as maiores dificuldades que você teve desde a época de estudante até agora?

No meu ambiente profissional, que sempre foi na escola, nunca tive problemas.
Mas tem coisas que me desanimam bastante, como os assédios no transporte público a caminho das aulas, por exemplo. Uma vez eu tava indo pro aula e tinha um cara que tava encostando em mim. Sempre tem um canivete no meu material de arte, eu saquei o canivete e ele parou na hora.
Mesmo sendo muito tímida na época, eu revidei porque a revolta é muito grande.

O que você pensa sobre a hiper sexualização de personagens femininas nos quadrinhos, animações e games?

Acho que nunca é bom seguir um padrão, mas infelizmente isso vem acontecendo a muito tempo, a gente tem essa mania de estereotipar as coisas.

Artistas tendem a reproduzir padrões e seus ideais de beleza e acabam exagerando. Acontece de eles espelharem aquilo que eles gostariam de ser ou ver no trabalho deles e acabam estereotipando a personagem, acho que a gente precisa quebrar isso.
Frank Frazetta por exemplo se usava de modelo pros seus trabalhos.Acho que essa quebra tá acontecendo, mas essa linguagem é muito forte ainda e vai levar um tempo pra deixar de existir.

Eu vejo que o homem tende a exagerar no desenho, tanto no feminino, quanto no masculino.
Os personagens masculinos sempre estão vestidos mas ainda sim com a musculatura totalmente marcada e exagerada. Quando desenham mulheres também buscam o ideal deles, dando aquela quebra de quadril exagerada pra personagem, seios enormes etc. É um fetiche.

Muito se tem discutido sobre representatividade e estereótipos. É muito fácil, principalmente pra um estudante, cair no padrão de sempre desenhar homens brancos, fortes e poderosos e mulheres brancas semi nuas, acinturadas e com quadris grandes.
Você tem dicas para os estudantes não se prenderem na criação desses personagens e passarem a ser artistas mais ricos de diversidade?

Infelizmente como essa linguagem de estereótipo já existe há muitos anos, a gente se adaptou a identificar o personagem por causa disso e até hoje se usa estereótipo com essa finalidade,
(Do ponto de vista de criação do personagem) isso agrega informação pro espectador entender quem é quem.
Na minha aula, eu ensino a técnica de estruturar o corpo humano, mas não passa de uma técnica base, os aviso que eles têm a liberdade de dar o formato que eles quiserem pros personagens deles.
Mas acho que o padrão tem que ser quebrado, porque nós não temos essa perfeição de proporção.

O que pode ser feito em sala de aula pra que os alunos entendam o valor da diversidade?

Quando se cria personagens o ideal não é pensar somente em etnias diferentes, mas também em seres diferentes da raça humana, porque o leque de criação é sempre maior do que a gente imagina. Nas minhas aulas eu reclamo muito quando alguém faz somente aquele padrão Disney de desenho.
Eu tenho reparado que isso tem sido quebrado aos poucos, os alunos tem procurado se diversificar cada vez mais.

Em termos técnicos, quais são seus longas de animação favoritos?

Eu gosto muito do primeiro Montros S/A.
A história é bem original apesar de falar sobre o clássico monstro do armário, a história levou isso pra um lado totalmente diferente do que a gente tava acostumado a ouvir.
Adoro a criatividade da criação dos monstros que são todos tão diferentes uns dos outros, além do mais naquela época rolou uma evolução técnica muito legal com relação a variedade de pelos e técnicas usadas nos personagens.

Também gosto muito do Akira, foi uma das primeiras animações voltadas pra adultos que me fez pensar: “Uau! Isso sim é animação de verdade!”. É maravilhoso.

Quais são suas artistas favoritas?

Gosto da Anita Malfatti, Camille Claudel, Audrey Kawasaki, Aurélie Neyret e da Loish.

Anita Malfatti, A Boba, 1915. Fonte da Imagem: Obras de Anita Malfatti.

Camille Claudel, The Little lady, 1896. Fonte da Imagem: The Red List

Audrey Kawasaki, If You Only Knew, 2013. Fonte da Imagem: Audrey Kawasaki

Aurélie Neyret, Les Carnets de Cerise, 2015. Fonte da Imagem: Aurélie Neyret.

Loish, Ambrosial. Fonte da Imagem: loish.net.

Dos quadrinhos, qual sua heroína favorita e qual tem o melhor concept?

Minha personagem favorita é a Mafalda do Quino. Também acho a mulher maravilha muito interessante.
Ela foi criada pelo psicólogo William Marston (o inventor da máquina da verdade) e ele pegou todo o conhecimento que ele tinha sobre as mulheres e por aquilo que elas mais se identificavam e colocou na personalidade da mulher maravilha, então ele criou uma personagem forte, guerreira e que não precisava que alguém a salvasse, pelo contrário, ela é quem salva. Além disso o laço da verdade veio justamente da descoberta da máquina, em forma de um super poder.

Bom saber que em ,1942 já sabiam que a mulher queria ser representada com força, inteligência e heroísmo. BOM SABÊ!
Muita gente quer fazer animação mas não sabe desenhar o boneco do palitinho e ficam com receio de entrar no mercado. Afinal de contas, quem quer fazer animação, 2D e 3D, precisa saber desenhar?

Claro que desenho facilita, mas eu conheço muitos artistas que trabalham, principalmente na área de 3D, que não desenham, trabalham super bem e tem uma animação muito boa ou uma modelagem muito boa.
Nessa área, o nosso olhar é muito importante, é necessário observar como as coisas se comportam, como a luz se comporta, o movimento das coisas etc., então se você não sabe desenhar, dá pra trabalhar com animação sim, além do mais pra tudo se usa referência, então se você estuda e sabe observar e extrair o melhor da sua referência, você tá no caminho certo. Tem muita gente inclusive que desenha muito mas não se daria bem em animação.

Muito obrigada pela entrevista, Zoe!
Fiquei muito feliz de estrear minha colaboração aqui no Collant, entrevistando uma professora tão querida.

Que venham mais entrevistas com tantas outras mulheres incríveis! \o/

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