Autora convidada: Júlia Paolieri.

Dois mil e dezesseis foi mais um ano de boom das séries. Canais, estúdios e plataformas de streaming como a Netflix e a Amazon se renderam à produção de séries que estrearam uma atrás da outra e (a grande maioria) de incrível qualidade.

Entre algumas das estreias que mais marcaram o ano um detalhe surpreendeu: a representação feminina, principalmente nas produções da Netflix.

Repetindo o feito de séries dos últimos anos, como How To Get Away With Murder, Jessica Jones, Scandal, as personagens femininas assumiram não só o protagonismo de várias tramas, como estiveram bastante presente nos elencos e a grande maioria com personalidades fortes e independentes.

Em um ano que, se por um lado deixou a desejar no cinema (com a hipersexualização de personagens femininas, como foi o caso de Arlequina em “Esquadrão Suicida”), nas séries, as mulheres foram melhor representadas e menos sexualizadas, menos utilizadas como objetos de cena e mais inseridas na trama com papel ativo no desenrolar dos acontecimentos.

Para mostrar o poder feminino nas séries em 2016, listamos algumas personagens que passaram longe de obedecer ao patriarcado e mostraram modelos de coragem e personalidade forte e própria.

Stranger Things

Talvez uma das maiores estreias de 2016, “Stranger Things” trouxe não só um retorno aos anos 80 como personagens femininas incrivelmente fortes e corajosas que se desprendem de todos os tipos de clichês femininos.

Eleven, Joyce e Nancy, cada uma a seu modo, se destacam com suas personalidades fortes e em nenhum momento são sexualizadas ou usadas como objeto do olhar masculino, para agradar. Todas estão na história por conta de sua contribuição essencial para a trama.

Eleven se destaca como uma das protagonistas da série e é uma personagem totalmente fora dos padrões definidos como femininos. Além do cabelo raspado, a personagem mostra um modelo de pré-adolescente incrivelmente corajosa e independente – além de ser uma das personagens chave para o desenrolar da história.

Joyce, mãe solteira, embora encarada como louca por uns, não desiste de procurar o filho mesmo sem a ajuda de ninguém. A personagem também tem um comportamento totalmente independente de decisões e ordens masculinas.

E talvez a personagem com maior crescimento e transformação ao longo da série: Nancy. Ela passa de uma menina doce, que anda com um grupo de pessoas que não se parecem muito com ela por conta de um cara, para uma adolescente que decide agir por conta própria e com muita coragem. Nancy encara o Demogorgon, decide procurar o irmão do amigo e se transforma em uma personagem durona que consegue salvar a si mesma.

Apesar de serem minoria na história (4 personagens femininas e 7 masculinas), as mulheres dão um belo exemplo de força, independência de figuras masculinas e são essenciais para o mistério da série.

The Crown

“The Crown” é uma produção sobre a rainha Elizabeth II – desde seu casamento com Philip, ascensão ao trono após a morte do pai, o rei George, e todas as dificuldades de ser rainha e mudanças de comportamento necessárias para o cargo real.

Um dos pontos mais interessante da série é ver a forma como Elizabeth, ao assumir um cargo anteriormente masculino, se torna a “líder” de sua família e como Philip tem dificuldades em aceitar a redução de seus afazeres, como numa certa “inversão de papéis de gênero”. Como marido da rainha, lhe cabe a função de acompanhar a esposa e não mais ter uma carreira para si.

Elizabeth é uma personagem construída aos moldes de sua versão real. Sendo assim, a série traz toda a coragem e força femininas de encarar os novos desafios e a forma que faz tudo sem precisar de uma força masculina a coordenando e indicando o que fazer e como agir. Sua relação com Philip fica no âmbito familiar e de apoio mútuo e não dependência de sua figura.

Gilmore Girls

“Gilmore Girls” sempre foi uma série a frente de seu tempo. Em uma época em que não se falava sobre a importância de representatividade feminina, Lorelai e Rory protagonizaram uma série sobre uma mãe solteira que criou a filha totalmente sozinha, construiu sua própria carreira e sempre conseguiu tudo sem a ajuda de ninguém – muito menos dependia de um homem para tal.

O revival de “Gilmore Girls” produzido pela Netflix trouxe de volta essas personagens que mostram que não é preciso um homem para ser feliz e realizar grandes coisas. Muito pelo contrário. Esses dois pontos não estão remotamente ligados. Lorelai e Rory voltam a mostrar como lideram suas vidas, constroem suas carreiras e encaram seus próprios obstáculos sem precisar de orientação masculina.

Claro que a série comete alguns deslizes, mas o retorno de “Gilmore Girls” reforçou esses pontos. E vale lembrar da fala da criadora do show, Amy Sherman Palladino, sobre a discussão de “com quem Rory deve terminar”: os namorados “são apenas uma parte do que Rory é. Não vejo as pessoas discutindo ‘para qual jornal ela está trabalhando?’, ‘ela já ganhou um Pulitzer?’”.

3%

Outra série que mostrou personagens femininas ambiciosas que, através de suas qualidades e esforços, sem depender da ajuda de uma figura masculina, encaram desafios para estar entre os 3% escolhidos da sociedade para ascender socialmente.

Michele é a protagonista da trama. Embora à primeira vista ela pareça insegura e frágil, sua personalidade ganha contornos mais delineados logo no primeiro episódio mostrando uma figura extremamente certa de suas escolhas e opiniões, de ideologia forte, e que está decidida a buscar algo semelhante a vingança.

Michele se distancia da personagem feminina que precisa de ajuda, depende de uma orientação masculina ou que está na tela apenas para “cumprir a necessidade” de uma mulher na história.

Outra personagem feminina – e, arrisco dizer, a mais corajosa – é Joana. Joana se criou sozinha; ela nunca teve o apoio ou orientação de uma figura mais velha e, ao se guiar no mundo, aprendeu a se defender, a lutar pela vida e por seus direitos – mesmo que, para isso, acabe tomando atitudes consideradas injustas. Toda a construção da personagem mostra um exemplo feminino extremamente distante dos clichês: Joana é misteriosa no sentido de amedrontar, é valentona, irreverente, briga, fala palavrão e não tem medo de encarar os homens que ficarem em seu caminho.

Eleven, Joyce, Nancy, Elizabeth, Lorelai, Rory, Michele e Joana são algumas das personagens femininas que a Netflix acertou quando se trata de representatividade feminina e cada uma extremamente diferente da outra.

No entanto, é incerto dizer que o resultado é 100% positivo e que a Netflix finalmente “chegou lá” em questão de representatividade feminina. Não. Ainda falta diversidade e, apesar de terem personalidades fortes e independentes, as mulheres ainda são minoria dentro de suas próprias séries.

O fato é que o número de mulheres aumentou seja no elenco geral ou como protagonistas. E para além disso, elas estão fugindo cada vez mais dos clichês e padrões femininos considerados aceitáveis e não estão sendo sexualizadas. Elas aparecem porque sua presença é importante. Resta aguardar para que cada vez mais figuras femininas como essas sejam colocadas na tela.


Júlia Paolieri

Jornalista dividida entre maratonas de séries e filmes. Mergulhou na cultura pop, se deu conta da falta de representatividade e assiste tudo em busca do empoderamento na tela.

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