Escrito por Rebeca Puig e Brendda Lima 

Alguns meses atrás nós publicamos um texto sobre a Broderagem, esse esquema invisível que acaba sempre beneficiando homens e deixando mulheres tão ou mais talentosas de fora do meio dos quadrinhos. Hoje nós voltamos para falar sobre uma questão mais prática: como você, homem, pode ajudar a acabar com o assédio e o machismo no meio dos quadrinhos (ou em qualquer meio de que você faça parte).

Nos últimos anos, com o aumento da discussão sobre representação, feminismo e sobre a presença da mulher no mercado, muitos homens começaram a passar por um processo de desconstrução. Essa mudança é muito importante para que a gente alcance um ambiente mais igualitário. No entanto, esse processo de desconstrução não pode ser algo que acontece unicamente no íntimo desse cara. É algo que precisa ir além.

A gente costuma ver muitos caras dispostos a desconstruir conceitos machistas no âmbito pessoal, mas infelizmente, quando esses caras se deparam com problemas no circulo de amigos, no trabalho ou na rua, as reações não são as mesmas.

É por isso que nós estamos aqui. Pra explicar pra vocês, caras, como vocês podem de fato se tornar um agente de mudança no meio da ilustração\quadrinhos.

Se você é um leitor:

  • Trate artistas homens e mulheres com o mesmo respeito;
  • Procure conhecer quadrinhos e ilustrações feitos por mulheres;
  • Leia\compre trabalhos feitos por mulheres;
  • Não descarte um quadrinho ou uma banca em evento só porque ele é composto por mulheres. Tem muita quadrinista fazendo coisa legal, em gêneros muitos distintos.
  • Nem todo quadrinho feito por uma mulher é fofo, e quadrinho fofo feito por mulheres não merece ser diminuído.
  • Se você ficar sabendo que editores, quadrinistas, roteiristas, jornalistas, blogs ou sites atacam, excluem ou assediam mulheres, não compre os produtos deles. Não dê views. Não compartilhe materiais dessas pessoas. São caras e situações como essas que ajudam a manter as minas longe dos quadrinhos\ilustração.  

Se você é um profissional (ilustrador, quadrinista, jornalista, editor ou organizador de evento):

  • Procure conhecer as pessoas do meio em que você está inserido;
  • Faça parcerias com roteiristas, quadrinistas, coloristas. Convide o mesmo número de mulheres e homens para coletâneas e eventos.
  • Publique Mulheres. Ninguém está dizendo para você nunca mais trabalhar com o seu brother, só para você abrir mais espaço para quadrinistas mulheres.
  • Não evite stands e bancas compostos por mulheres. Se você não conhece o trabalho de uma artista, entre, folheie o material, converse e conheça. O mercado não vai mudar se você não se predispor a conhecer as artistas. Já bastam os diversos relatos de editores que pulam mesas de quadrinistas mulheres em eventos e que adoram cantar de desconstruídos.
  • Se você vir um homem assediando mulheres em um evento, denuncie o cara para a organização.
  • Não diminua denúncias de assédio ou agressão;
  • Se o acusado é seu amigo e você tem certeza absoluta de que ele nunca faria isso, procure provas – mas sem vitimar novamente a mulher. É compreensível que você se sinta desconfortável quando a acusação é de um colega próximo, mas não chame a moça de louca, não a desqualifique só porque você conhece o acusado. Tem muito homem que é lobo em pele de cordeiro, estar aberto para entender o lado da vítima antes de acusar é sempre importante.
  • Não divulgue caras com histórico de assédio ou agressão.
  • Se um dos convidados do seu evento/coletânea já foi acusado de assédio ou agressão, ofereça o espaço que seria dele para outra pessoa.

Para todo mundo:

  • Denuncie assediadores e agressores.
  • Não comece uma conversa com uma artista falando que ela é bonita.
  • Não reduza o trabalho de uma artista à beleza ou a fofura dele. Você não faria isso com o trabalho de um homem.
  • Compre, divulgue, apoie trabalhos feitos por mulheres.
  • Não faça pouco caso das acusações de assédio feitas por mulheres. Muitas mulheres não vão nunca falar sobre o que lhes aconteceu, algumas não vão querer expor o acusado, outras não vão querer lhes mostrar os prints – e isso não tem nada a ver com ser verdade ou não. Leve algumas coisas em consideração:

             – O mercado é machista. Se elas falarem, e se o nome delas for descoberto, é possível que seja ela a sofrer com as consequências. Não seria novidade ver uma mulher perder oportunidades de trabalho, ser taxada de louca e mentirosa, mesmo depois de apresentar as provas. O que nós mais vemos são casos em que o cara é acusado de assédio (ou coisas piores) e continua caminhando e produzindo material sem nenhuma consequência.
             – Muitas mulheres não lidam bem com assédio, elas podem não querer falar sobre isso. Podem ter medo exatamente de serem taxadas como loucas.  Tenha empatia.
             – Elas podem ser processadas. O medo do processo por difamação é real, e é uma das fontes mais pesadas na hora de decidir fazer ou não a denúncia pública. Muitas dessas acusações não vão poder ser feitas judicialmente, o que não quer dizer que elas não são verdadeiras e que não são causa de sofrimento para a vítima.
             – Artistas famosos possuem uma base de fãs que pode atacar essas mulheres. Não é de hoje que homens famosos, mesmo que em meios menores, se fazem de desentendidos quando dizem alguma besteira e uma mulher é atacada pela horda de fãs raivosos. Isso tudo é fonte de stress, ansiedade e muitas vezes trigger para depressão.


Para que nós consigamos criar um ambiente onde mais mulheres se sintam à vontade, tanto para permanecer trabalhando quanto para começar a trabalhar, todos nós precisamos fazer alguma coisa para melhorar o status atual. Ao homem, leitor ou profissional, cabe garantir e exigir um espaço não só maior, mas também mais seguro para as mulheres. Dizer que acredita no feminismo, que acha a discussão sobre representação feminina importante, que ama a Kelly Sue, que quer muito o filme da Capitã Marvel e que não vê a hora de ver mais mulheres nas editoras ou produzindo quadrinhos de nada adianta se você não colocar a mão na massa. Faça sua parte, nós estamos fazendo a nossa.

Até mais.

Para ler mais: Broderagem, Mercado e Exclusão. 

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