Se você ainda não conhece o trabalho da Carol Rossetti, você vai se apaixonar por suas ilustrações cheias de mensagens poderosas de empoderamento e amor próprio. Contando dramas, dificuldades e preconceitos sofridos pelas mulheres, Carol se jogou de vez na criação de ilustrações que refletem bem a luta que é ser mulher no dia a dia.

O projeto Mulheres criado pela Carol consegue entender aqueles preconceitos que quase passam batidos no nosso cotidiano. Como ela mesmo diz, “uma ilustração, com um texto simples e acolhedor pode ser transformador”.

Foi assim que o projeto Mulheres se destacou (e não só no Brasil, no mundo todo).

Tudo começou com a ilustração de uma personagem fictícia chamada Marina, que usava um vestido com listras horizontais apesar das revistas de moda não recomendarem. “Com a repercussão do projeto, mulheres do mundo todo começaram e entrar em contato comigo para compartilhar suas histórias”, conta Carol.

O trabalho dela se tornou, então, um meio para transmitir o feminismo e a mensagem de empoderamento para mulheres. Carol acredita que o diálogo feminista precisa ser levado para além dos movimentos sociais e do meio acadêmico, e a arte e a cultura pop são canais essenciais para isso.

Além do projeto Mulheres, ela desenvolveu outros trabalhos (em que o foco é sempre a mulher). Em Livres e Iguais, um projeto da ONU, Carol criou ilustrações sobre a violência contra a população LGBT com o intuito de conscientizar sobre a hostilidade vivida por esse grupo.

Carol também criou um projeto para dar visibilidade às mulheres refugiadas que vivem no Brasil. Vidas Refugiadas conta a história de algumas dessas mulheres que se encontram aqui em uma tentativa de tirá-las da invisibilidade e fazer com que sejam ouvidas.

Com a repercussão de seus trabalhos sempre engajados, Carol foi convidada pela Skol para participar da campanha de Dia das Mulheres deste ano, em que ilustradoras mulheres redesenharam anúncios antigos da marca, extremamente machistas e sexistas. A iniciativa foi vista como um passo importante, mas, claro, é preciso cautela.

Como Carol mesma diz, seria “ingênuo” pensar que, de agora em diante, as mulheres não serão mais objetificadas. Mas a campanha mostra que é possível fazer publicidade, e vender cerveja, sem machismo.

Carol Rossetti fez da sua forma de expressão e trabalho uma maneira de lutar contra pequenos machismos, sexismos e preconceitos diários da vida das mulheres. A própria campanha da Skol mostra a necessidade de mais profissionais mulheres por trás de projetos para pôr fim às representações femininas estereotipadas.

“Acho que a maior falha é que raramente as mulheres são tratadas como seres humanos completos. Os roteiros são preguiçosos e a criação de personagem é rasa, reduzindo personagens femininas à estereótipos bidimensionais que reforçam opressões diárias na vida de mulheres reais”, diz Carol.

 

Confira a entrevista na íntegra:

COLLANT: Como surgiu a ideia de fazer ilustrações que ajudassem na autoestima das meninas e trouxessem “histórias reais”?

CAROL ROSSETTI: Essa ideia surgiu de forma bem espontânea. Eu tinha uma proposta de postar um desenho por dia na minha página e já vinha lendo bastante sobre feminismo. Um dia, eu fiz uma ilustração sobre uma personagem fictícia chamada Marina, que usava um vestido com listras horizontais apesar das recomendações contrárias de revistas de moda. Esse post foi compartilhado várias vezes, e por isso, resolvi fazer outra no mesmo estilo, e depois outra, e mais outra, e aí nunca parei. Com a repercussão do projeto, mulheres do mundo todo começaram a entrar em contato comigo para compartilhar suas próprias histórias e vivências. E foi muito bacana, porque passei a conhecer histórias de pessoas que viviam em contextos muito diferentes do meu, mulheres de outros países, vivendo outras dificuldades e, ao mesmo tempo, expressando o mesmo grito por respeito. O projeto foi então construído a partir de histórias reais, embora quase sempre com personagens fictícias.

 

C: Você acredita que ilustrações e pequenas mensagens ao longo do dia podem contribuir para aumentar a autoestima e empoderamento das mulheres?

CR: Com certeza. O feminismo vem com essa proposta (dentre várias outras), e é importante levar esse diálogo para fora dos movimentos sociais. E acho que a arte e a cultura pop têm um potencial incrível nessa parte, ao passo que conseguem alcançar um público que um texto acadêmico não consegue. Claro que o contrário também acontece: é o perigo da representatividade negativa das mulheres e personagens femininas. Mas eu vi, através da minha experiência com o projeto Mulheres, como uma ilustração com um texto rápido, simples, direto e acolhedor pode ser transformador.

 

C: Ser mulher em alguns ambientes de trabalho pode ser difícil, ainda mais para conseguir reconhecimento. Alguma vez você já passou por isso, sofreu preconceito ou dificuldade de conseguir credibilidade por ser uma artista feminina?

CR: Como toda mulher, já passei por muito mansplaining e já tive que me explicar de mil maneiras diferentes para fazer minha voz ser ouvida. Mas sinto que vivenciei isso relativamente pouco, uma vez que sou autônoma e trabalho sozinha em casa. Eu não tenho chefes e meus parceiros de trabalho são meu marido e minha melhor amiga, de forma que, na maior parte do tempo, é bem tranquilo neste aspecto. Claro que eu lido com clientes, mas geralmente as pessoas já me procuram pensando no meu trabalho dentro do feminismo, o que já permite uma certa “triagem” dos contatos machistas no trabalho.

 

C: Acompanho suas ilustrações há uns dois anos e sempre ouço das pessoas que elas ajudam na autoestima. Você, ao longo dos anos, sentiu que elas também te ajudaram na relação com a autoestima ou empoderamento?

CR: Acho que sim. No final, a mensagem de amor-próprio não é algo que a gente desconheça, mas certamente é algo difícil de vivenciar no dia a dia. Com este projeto, através do diálogo com outras mulheres e da elaboração de textos e imagens que sempre tivessem uma mensagem positiva, eu comecei a internalizar melhor essas ideias e lidar melhor com minhas próprias questões.

 

C: Você foi convidada pela Skol para fazer parte da campanha de Dia das Mulheres deles, redesenhando as campanhas antigas que mostravam mulheres super sexualizadas. O quão importante você considera que foi esse passo para eles e para a representação dos corpos femininos na mídia? Acha que a forma como as mulheres são representadas vai mudar?

CR: Seria ingenuidade pensar que, de agora em diante, as mulheres não serão mais objetificadas. Essa luta é constante e damos um passo a cada dia. Essa mudança no posicionamento da Skol traz algumas mensagens importantes para nós e para o mundo: 1) é possível fazer publicidade sem machismo. Simples assim. Claro que o objetivo da campanha da Skol é vender cerveja. Pois então, que façam isso sem objetificar mulheres. 2) que nossas vozes estão cada vez mais fortes. O feminismo está se fortalecendo, está se fazendo ser ouvido e logo mais as outras empresas grandes também não vão mais poder ignorar este nosso grito.

 

C: Para você, qual a grande falha hoje em relação às mulheres na mídia e seus estereótipos? Como são retratadas? Qual a importância de ilustrações como as que você faz e a valorização de artes feitas por mulheres?

CR: Acho que a maior falha é que raramente as mulheres são tratadas como seres humanos completos. Os roteiros são preguiçosos e a criação de personagem é rasa, reduzindo personagens femininas à estereótipos bidimensionais que reforçam opressões diárias na vida de mulheres reais. É muito importante que mulheres sejam incluídas nos processos de criação dessas histórias, sejam elas na publicidade, no cinema, nos quadrinhos, na televisão, na literatura… Nós, mulheres, precisamos ocupar estes espaços e nos firmarmos também enquanto público. Enquanto o público for pensado unicamente como um grupo de homens branco heterossexuais, a linguagem não muda. Ou seja, é muito importante a valorização de mulheres tanto enquanto público quanto profissionais.

 

 

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