São quatro horas da manhã e eu acabei de assistir Tiny Furniture (2010), escrito e dirigido por Lena Dunham — roteirista e atriz da série Girls, da HBO —, que o Netflix me sugeriu “porque você assistiu Frances Ha”. Nada melhor, então do que fazer uma pequena comparação entre os dois!

Ambos os filmes retratam os anos de aprendizado da protagonista em questão, naquele momento complicado e decisivo da vida da pessoa, pós-estudos superiores, onde é preciso infiltrar-se na sociedade adulta. Frances (Greta Gerwig) tem esse momento de “despertamento” consideravelmente atrasado, por conta de sua relação com sua melhor amiga e roommate, Sophie (Mickey Sumner), que funciona, de certa forma, como um ponto de apoio e de conexão com a vida universitária. É só quando Sophie “cresce” (arrumando um namorado sério e indo morar com outra amiga) que Frances se encontra face a si mesma e a todas as decisões que ela deve tomar. Do outro lado do muro, Aura (Lena Dunham), de Tiny Furniture, se confronta a esse mundo imediatamente depois de se formar. Sua primeira decisão (praticamente imposta, visto que Aura não tem idéia do que fazer) é voltar para casa, morando com sua mãe e sua irmã (ambas representadas no filme por suas verdadeiras mãe e irmã, Laurie Simmons e Grace Dunhan).

TF_Feature_original

Lena Dunhan como Aura

As semelhanças param por aí. Claro, há também o fato das duas personagens se encontrarem totalmente despreparadas para a vida adulta e começarem o filme com o fim de um relacionamento. Mas é isso. A partir daí, tanto o desenvolvimento das personagens quanto seus percursos são totalmente diferentes. Enquanto a questão principal para Frances é superar o afastamento de sua melhor amiga (uma perda tão desestabilizadora quanto a amputação de uma perna) e criar para si mesma uma vida, constituindo-se de fato como indivíduo, Aura não tem uma situação antagonística precisa com a qual ela deve lidar.

movie-reviews-Frances-Ha

“Eu te amo mesmo que você goste mais do seu celular que tem e-mail do que de mim.”

Se o fim de seu namoro e o retorno para casa parecem ser o motivo para o completo desânimo e inação de Aura, uma conversa ao telefone com sua “melhor amiga” da faculdade, Frankie, denota que o problema não é esse.

– Esse foi o melhor verão da minha vida, diz Aura.
– Tá brincando? Você passou o tempo todo se arrastando pela biblioteca, me seguindo.

Frances tem um problema. Aura é seu próprio problema, e isso se materializa nas relações que ela mantém tanto com sua mãe e sua irmã, quanto com suas amigas e eventuais crushes. Nenhuma dessas relações é satisfatória — nem vagamente. Sua mãe, uma fotógrafa bem-sucedida, falha em compreendê-la, falha em sequer perceber que ela existe. Sua irmã a vê apenas como uma inconveniência — alguém com quem ela é forçada a dividir seu espaço, mas que, por outro lado, é uma rival fácil, com quem ela pode competir e ganhar sempre. A única pessoa que parece se interessar genuinamente por Aura é Frankie, sua amiga da faculdade, que Aura não hesita em ignorar uma vez que ela se reencontra com Charlotte.

tinyfurniture2

Aura e Charlotte te julgando

Acho que esse é o maior ponto de divergência entre Frances e Aura.

Frances é uma vítima constante do descaso/desinteresse alheio: ela coloca sua relação com Sophie acima de todas as outras e é decepcionada por suas decisões; sua chefe, depois de prometer a ela uma posição melhor na companhia de dança onde ela é professora, volta atrás e a deixa praticamente desempregada e sem nenhum dinheiro; o cara de quem ela gosta aparece do nada com uma namorada; em sua viagem a Paris, ela tenta constantemente ligar para uma amiga que só retorna a ligação depois que Frances já está em New York.

050913franceshaclip_512x288Este talvez seja um dos motivos pelos quais a identificação do espectador com a protagonista vem de forma tão natural: no universo de Frances Ha, ainda que a própria personagem seja tão adoravelmente gentil que ela não o admita, o inferno são os outros. Frances luta, ainda que de forma bastante sutil, contra o cinismo. Sua incapacidade de ser pragmática, de calcular riscos, de entrar numa lógica “adulta”, é quase proposital. Duas cenas mostram essa recusa de forma bem clara: aquela em que ela dança pela rua ao som de Modern Love, de David Bowie, e aquela em que, bêbada, num jantar com desconhecidos, ela conta o que espera do amor, da vida.

No universo de Tiny Furniture, Aura sofre pelo mesmo descaso, mas não há identificação alguma com a personagem, porque ela mesma é parte desse universo. Frances é a parte dissonante: sonhadora, preciosamente infantil num mundo cínico. Aura, não: o descaso do qual ela é vítima é apenas um reflexo do seu próprio descaso com os outros. Sua infantilidade não é a mesma de Frances, mas aquela da criança que só enxerga a ela mesma, incapaz de se importar com o que não a atinge diretamente.

Frances Ha tem uma linearidade, no sentido em que o esforço é compensado: ela sofre um trauma que a desestabiliza, se debate sozinha, chega ao fim do poço mas, por fim, consegue se reerguer — voltando para a companhia de dança, assumindo responsabilidades, aceitando as mudanças e, por fim, conseguindo seu próprio apartamento, símbolo de sua independência e maturidade, mantendo sua personalidade. Ela articula perfeitamente sonho e expectativa com realidade. É por esse desfecho que você torce, sabendo que a personagem o merece, e é isso que o filme entrega.

frances-ha-580

Aura não consegue nada disso, e nem é a isso que ela aspira. Na verdade, é difícil identificar suas aspirações — sabemos que ela é uma artista, mas nem mesmo sua arte parece interessá-la verdadeiramente. Seus love interests também soam menos como reais interesses do que uma busca de validação, uma forma de passar o tempo. Suas amizades são ocas, movidas pela conveniência: Frankie não existe quando Charlotte aparece, e vice-versa. Nem mesmo a possibilidade de independência, de encontrar a si mesma, a atrai — ela prefere continuar vivendo no espaçoso apartamento de sua mãe a ir morar com Frankie.

Quando eu li sobre Tiny Furniture, duas questões que apareceram frequentemente nas resenhas foram sobre privilégio e feminismo. Privilégio pela posição social de Aura, que permite que ela retarde sua entrada no mundo do trabalho para consacrar seu tempo à sua arte. E feminismo porque Lena Dunham não tenta criar uma imagem de menina bonita, lugar-comum tanto nos filmes de grande orçamento quanto nos filmes independentes; pelo contrário, ela passa a maior parte do filme de camiseta e calcinha, com o cabelo oleoso, sem maquiagem.

i-took-three-klonopin

Primeiro: vai me desculpar, mas não penso que apenas isso possa caracterizar o filme como feminista. Quem dera fosse fácil assim. Tiny Furniture pode passar no teste de Bechdel, mas ele não assume nenhum posicionamento, não se esforça para descontruir nenhum papel de gênero, e, pelo que me consta, não se propõe a fazer nada disso. “Feminismo por tabela” não existe.

E, segundo: enquanto concordo que Aura seja bastante privilegiada, e que esse é um ponto de análise interessante para o filme, não sei se essa é a questão. Como eu já disse, Aura não parece se importar com sua arte mais do que ela se importa com qualquer outra coisa — diferentemente de Frances Ha, cuja capacidade criativa é visível em todas as dimensões de sua vida. Sua relação com a criação parece mais obrigatória do que espontânea: sua mãe é uma fotógrafa cujo sucesso é palpável em todos os cômodos da casa, sua irmã ganha um prêmio nacional de poesia. O que me parece, em todo caso, é que Aura não é artista coisa nenhuma — Lena Dunham é a artista, e Aura é a obra. Possivelmente é isso o que explica seu nome: “aura” é o conceito criado por Walter Benjamin para explicar o sentimento que se tem ao estar diante de uma obra de arte pela primeira vez. Isso explica também a única aspiração de Aura, que ela revela na última sequência de Tiny Furniture, conversando com sua mãe.

tiny-furniture-lena-dunham-silver-thread

“Eu não quero ser maquiadora”, ela diz, “e nem hostess. Eu quero ser tão bem-sucedida quanto você”:

Aura, em última instância, e em todas as suas interações, não é propriamente uma personagem, mas encarna o próprio filme, que não deseja mais do que atenção — e, a contar pelos prêmios conquistados por Tiny Furniture, é provável que ela tenha conseguido.

Pessoalmente, eu prefiro Frances Ha. Nem tanto porque é um filme que te dá aquela esperançazinha mágica de que, no fim das contas, tudo vai acabar dando certo, mas porque ele me agradou em todos os aspectos, desde o desenvolvimento da personagem até a trilha sonora (Noah Baumbach, o diretor, teve a sensibilidade de usar samples da trilha sonora de Os Incompreendidos, de Truffaut, nos momentos mais calmos do filme, o que achei lindo). Tiny Furniture, por outro lado, é melhor na teoria do que no fato. A questão que aparece mil vezes na cabeça do espectador — “tá, mas que horas esse filme vai começar de verdade?” reflete a questão na cabeça da própria personagem sobre quando é que sua vida vai começar de verdade, o que é interessante, mas não necessariamente bom. No fim das contas, eu fico com a Frances.

frances-a

go for it, gata! <3

%d blogueiros gostam disto: