Histórias de super-heróis caminham numa linha tênue entre o autoritarismo e o altruísmo. Os últimos filmes da DC nos cinemas por diversas vezes cruzam a linha para o lado do autoritarismo, sem prover, em profundidade, uma discussão sobre esse aspecto dos Super-heróis. Mas esses super-seres não foram criados para representarem um poder extremo e inalcançável, eles foram criados para serem símbolos de esperança, liberdade e empatia. E é exatamente por conseguir equilibrar esses três elementos, e também a discussão sobre autoritarismo, que Mulher-Maravilha sopra um fôlego novo nos filmes de super-heróis.

Uma das minhas maiores preocupações ao entrar na sala de cinema era como o filme retrataria a guerra. Diferente da Segunda, a Primeira Guerra Mundial tinha lados muito mais embaçados, sem um dos lados representar o mau absoluto, como o nazismo. Ela aconteceu por diversas razões, em diferentes territórios e por diferentes interesses políticos também. O filme consegue manter um certo equilíbrio nessa questão na maneira como questiona – e representa – os oficiais ingleses à quem Steve Trevor serve. Diana bate de frente com eles, demonstrando como o poder e a guerra estão diretamente ligados ao poder burocrático, que joga com a vida de soldados e civis de acordo com os seus interesses.

Diana representa o que há de melhor entre nós, ela tem empatia, inocência, garra, senso de justiça e, principalmente, ela é uma mensagem de esperança. Não só para o mundo dos homens, como para Temisciria. Se as amazonas já estão cansadas e marcadas pela guerra que as levou à ilha paraíso, Diana possui um senso de aventura e determinação que a torna não só a emissária perfeita, como também a heroína amazona que o mundo precisa. Diana não é um poço de niilismo e tragédia como o Batman e o Superman do universo cinematográfico da DC, ela é capaz de ver a tragédia, de empatizar de verdade com aqueles que sofrem, de querer ajudá-los e de se preocupar com o que vem depois de seus atos. Não é sobre o umbigo de Diana, não é sobre revanche, é sobre a humanidade.

E é exatamente por conseguir definir isso que o filme tem tanto sucesso na personagem. Aqui, Diana não sabe exatamente quem  ela é, nem qual é o seu destino no mundo dos homens e dos Deuses Ela segue seu coração, tenta fazer aquilo que lhe parece certo dentro dos preceitos e da moral que aprendeu com as Amazonas. E Diana tem muito coração, tanto quanto tem garra e coragem. Diana enfrenta seus desafios e, mesmo quando duvida de si e da humanidade, faz isso dentro de sua personalidade. Ela não é inconsistente, no fundo ela é humana.

Gal Gadot consegue passar todas essas camadas de Diana de maneira incrível, a atriz consegue acertar não só a postura de princesa guerreira, mas também o de uma garota que apesar de curiosa com um mundo novo, não compreende suas regras machistas e por vezes repugna muitos de seus aspectos. Fisicamente ela se impõe como guerreira sem que nos faça duvidar de todo o seu poder. Gadot consegue caminhar muito bem também no timing de comédia, nos momentos em que ela aparece. Uma das melhores piadas do filme acontece enquanto Diana e Steve vão embora de Temisciria e me fez gargalhar alto no cinema.

Para os que estavam preocupados com Steve tomar muito tempo de tela, podem relaxar. O papel do espião é muito semelhante ao de um guia, ajudando Diana a transitar pelo universo desconhecido que é a sociedade moderna da época. Ele também não tem oposição nenhuma em ser liderado ou mesmo protegido por Diana, entendendo muito rápido que é ela quem possui as habilidades e o poder para liderar. Ainda assim, para aqueles que estavam preocupados com uma possível emasculação do personagem – ele vai muito bem, obrigada.

Existem alguns fatores que eu gostaria de ter visto de maneira diferente no filme. Apesar de haver Amazonas não-brancas em Temiscira, e de algumas delas possuírem lugares de destaque, ainda assim não é o suficiente. Os companheiros de Diana no mundo dos homens não são todos brancos, e levanta-se a questão de como isso influencia ou influenciou a vida deles mas, de novo, fica a sensação de que podíamos ter tido mais. Eu espero que nos próximos filmes da MM nós vejamos mais sobre Temisciria, já que passamos a maior parte do tempo entre as guerreiras. Seria incrível descobrir uma variedade de mulheres que existem dentro da ilha – eu aposto que elas não são todas atléticas e muito menos brancas. Seria também interessante que os próximos filmes abordassem a questão da sexualidade das amazonas, algo que não é nem de leve tocado no filme.

Etta James (Lucy Davis), amiga da Mulher-Maravilha, apesar de assumir um papel de liderança na missão, também merecia mais espaço do que lhe foi dado – ela por pouco não cai no estereótipo da mulher gordinha e alívio cômico (o fato dela ser gorda nunca é utilizado como punchline). Eu entendo, do ponto de vista histórico, que os companheiros de Diana tenham sido homens. Mas acredito que o filme, que é sobre uma princesa amazona com super-poderes vinda de uma ilha paraíso, podia ter tomado mais liberdade história e ter substituído pelo menos um dos companheiros de Diana, por uma mulher.

Connie Nielson (Rainha Hipólita) e Robin Wright (General Antiope) estão maravilhosas em seus papéis. Connie consegue mostrar Hipólita como uma mãe, uma guerreira, uma rainha e uma mulher marcada e cansada de guerras. Wright foi um acerto em cheio na escalação para Antíope, tanto fisicamente como com sua atuação. O filme abraça a idade das duas mulheres, usando isso para criar personagens ainda mais complexas do que se esperaria com o tempo de tela que elas tem. De maneira geral as mulheres de Mulher-Maravilha são fabulosas, não só porque são amazonas, mas porque o filme as permite expressar sentimentos sem que a natureza guerreira delas tente, de alguma maneira, envergonhar esse lado humano que, muitas vezes, seria considerado um sinal de fragilidade. Sentir e empatizar são as palavras chaves de Mulher-Maravilha, e isso é maravilhoso.

Patty Jenkins, diretora do filme, mostra um controle incrível sobre as cenas de ação. Mesmo quando usa um recurso tão batido quanto slow-motion, ela o faz com um sentido narrativo. Na cena em que Diana invade uma sala com inimigos, e que aparece já no trailer, cada slow-motion serve para mostrar um aspecto das habilidades de Diana – seja sua força, sua destreza ou a avalanche de poder que ela carrega em seu corpo. Tanto as cenas nas trincheiras, quanto a grande cena de ação final, caminham junto com a temática de liberdade e poder do filme, e são momentos em que a diretora se permite também discutir um pouco mais sobre esperança e autoritarismo.

Talvez um diretor homem não teria permitido que suas personagens femininas tivesse o nível de complexidade que as amazonas ganham no filme. Talvez elas tivessem sido apenas vasos vazios de significados, mas cheios de força e sensualidade. Diana não é hipersexualizada em momento nenhum durante o filme, e é muito óbvio, através do trabalho de câmera e enquadramento, que fez toda diferença ter uma mulher como diretora do longa.

Mulher-Maravilha é, hoje e na minha opinião, a melhor representação do que um super-herói deveria ser. Capitão América talvez divida essa posição com ela, mas Diana é algo novo e de um ponto de vista diferente, um ponto de vista que ao mesmo tempo que promove uma ação épica também se preocupa em manter um super-herói como um símbolo de esperança, de empatia.

Depois de anos escondida dentro do mito da “personagem difícil de ser adaptada”, Mulher-Maravilha chega finalmente aos cinemas como uma história de origem, uma história que precisava e merecia ser contada. Ao final do filme eu me peguei querendo saber como Diana iria reagir e superar os acontecimentos finais do longa, qual será o arco maior da personagem, espero que Liga da Justiça consiga continuar desenvolvendo um pouco isso. Depois de anos de espera, a experiência de ver a MM chegar às telonas é catártica, mas é também um sinal de esperança. Um ponto de força, empatia e luz em nossos tempos tão sombrios.

Mulher-Maravilha chega nesta quinta, 1º de Junho, aos cinemas.

Review de Representação Feminina
Eu não me lembro de nenhum outro filme de ação com maioria de personagens femininos. É incrível como o filme consegue evitar muitos dos estereótipos comuns à personagens femininas.
Com mais tempo em Temisciria ou com Etta, talvez tivéssemos melhorado a diversidade das personagens femininas.A equipe criativa continua majoritariamente masculina. Uma pena.
77%Pontuação geral
Há pelo menos duas personagens femininas?100%
Elas conversam entre si sobre algo que não um homem?100%
Ela(s) é(são) importante(s) para a trama central?100%
Ela(s) é(são) desnecessariamente hiper-sexualizada(s)?100%
Ela(s) é(são) está(ão) presa(s) aos tropos/clichês de personagens femininas?100%
Número de personagens femininas em relação ao número de personagens masculinos.60%
Há diversidade entre as personagens femininas?30%
Participação feminina na equipe criativa central do filme.29%
  • Você não cansa de ser ridícula, garotx…??? Elegeu a Mulher-Maravilha a melhor entre todos os super-heróis baseado no incrível argumento de que ela possui uma vagina entre as pernas….

    • Collant Sem Decote

      Sabe, Broca. Tô pensando seriamente em autorizar todos os seus comentários. Pq acho que é importante a gente deixar pra posteridade o quão ridículo e infantil o homem pode ser. E você parece ser um espécime perfeito de ego masculino frágil. Pode continuar passando vergonha, tá tudo bem. Chora sim, deve ser muito difícil saber que a MM tá fazendo melhor do que todos os seus personagens masculinos.

      • Fábio Alves

        Acho ótimo deixar alguns comentários assim passarem. Eu, como homem e mais ainda como ser humano, sinto mais orgulho de mim quando vejo que sou o oposto de tipos como esse aí.
        Deixa chorar mais! kkkk

    • Marcia

      Não é ela que tá pagando mico. .. Como lhe falta interpretação de texto, né não? E sim, concordo plenamente: MM é a melhor, longa vida as Amazonas! 😎

    • Claudia Carvalho

      Obviamente você não leu nada kkkkkkkk Comentar só pelo título é o tipo de atitude de gente de pensamento preguiçoso, que vai na onda e usa a desculpa de que “as coisas sempre foram assim”. Visionário.

  • Marcia

    Ai que texto lindo, aqueceu meu coração! Louca para ver!

  • Collant Sem Decote

    É que historicamente a gente nunca teve uma super-heroína mitológica grega na primeira guerra, né? Então estaria tudo bem termos uma mulher lutando ao lado dela. Até porque, mulheres sempre lutaram nas guerras, elas podem não ser a maioria dos soldados, mas estiveram lá. Mata Hari tá aí como uma figura histórica, feminina, presente na primeira guerra.

    • Fui assistir mulher Maravilha no cinema e fiquei maravilhado. Primeiro com o filme ser na I Guerra, que eu particularmente acho mais interessante que a segunda. E depois fiquei lembrando da tua critica e do teu comentário. Quando você me respondeu eu fiquei voando: “Porque ela está falando da Primeira Guerra? Ué, a personagem é de 40!” Quando eu vi o avião do Steve… Pensei “eita muléstia, eu tava numa caverna!” Ando evitando os trailers e sites pois eles geralmente tão entregando o filme todo, mas leio as criticas de vocês antes de ver os filmes pois vocês não fazem isso. Reli sua crítica agora e vi que realmente em momento algum você fala do filme ser na Primeira guerra na critica, só na sua resposta a mim é você citou o momento histórico. Você se focou nela, na Diana, e no que realmente era importante no filme. Depois que vi o filme fez todo o sentido seu comentário de realmente ter faltado uma parceira para ela nesse grupo de aventureiros…

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  • Felipe Reyes

    Acho que dava para colocar tranquilamente uma mulher no grupo do Steve, o contrabandista não era soldado e poderia facilmente ser uma mulher sem ferir nenhuma uma fidelidade histórica. (muito antes do século XX já existiam mulheres piratas). mas em geral achei bem bacana o filme tirando a luta final.

  • clara

    Amei o texto, mas sobre a sexualidade das amazonas é levemente citado pela Diana quando ela e Steve estão no barco saindo de Temiscira, e ela fala que a presença do homem é indispensável para a reprodução, mas não para os “prazeres da carne” hahahaha

  • Fábio Alves

    Fiquei muito feliz de que realmente não tenha spoiler nessa incrível crítica! Mulher Maravilha é a minha ídola, minha heroína, minha inspiração! Mas só na próxima quarta-feira (depois de amanhã) poderei ver o filme.

  • Flávio de Almeida

    Boa crítica! Como filme, algumas coisas me incomodaram (achei que o slow-motion passou um pouco do limite e o CG das lutas me lembraram Matrix Reloaded/Revolution), mas é de longe o melhor filme da DC/Warner até agora! Concordo com o lance dela ser uma heroína verdadeiramente altruísta, diferente dos outros heróis mais famosos, e acho até que Geoff Johns e Allan Heinberg beberam na fonte da Maureen Murdock para tentar “fazer a coisa direito” (https://heroinejourneys.com/heroines-journey/)! É um filme não “só para mulheres”, mas para qualquer fã da DC e da heroína e essencial em momentos que a paz entre povos tem ficado rara… Que a massa não dê trela para os mimizentos de plantão! 😉

  • Claudia Carvalho

    Linda crítica! Mas vou ter que discordar com a parte do corpo atlético… As Amazonas são uma tripo de guerreiras, então todas se exercitam. Mas seria ótimo ver biotipos diferentes.

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