Volta e meia, ou pelo menos uma vez por semana, eu vejo alguém dizer que criticar produção cultura é censura.

E eu acho isso muito louco.

Porque crítica e censura são duas coisas completamente diferentes, mas que são comumente consideradas iguais numa tentativa de desvalidar críticas contundentes ao trabalho de artistas reconhecidos. Se a crítica for de cunho feminista ou de algum movimento social, então ela com certeza será considerada censura.

A definição dos termos:

crítica

substantivo feminino

1.
arte, capacidade e habilidade de julgar, de criticar; juízo crítico.

2.
p.ext. atividade de examinar e avaliar minuciosamente uma produção artística, literária ou científica, bem como costumes e comportamentos.
“c. literária, musical”

censura

substantivo feminino

1. ação ou efeito de censurar.

2. análise, feita por censor, de trabalhos artísticos, informativos etc., ger. com base em critérios morais ou políticos, para julgar a conveniência de sua liberação à exibição pública, publicação ou divulgação.

Ou seja: Se uma pessoa retira o livro da prateleira, se ele toma a caneta da mão do autor, se ele impede de alguma maneira que o autor publico sua arte, e que a população tenha acesso à ela, isso é censura. Mas se a pessoa apenas tece críticas sobre o trabalho que o autor criou, então isso é uma crítica. Censura precisa vir de alguém com poder para censurar, e isso normalmente vem do Estado ou das Instituições. Pessoas e movimentos sociais raramente tem esse tipo de poder.

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Aqui no Collant nós criticamos diversos autores, de diversos meios artísticos. Suas obras são analisadas de um ponto de vista feminista, procurando compreender e pontuar quais são os problemas e os acertos dentro da representação feminina naquela obra. Procuramos também, muitas vezes, refletir sobre possíveis soluções para tais problemas, tentando mostrar que a obra talvez fosse muito mais interessante se tivesse uma representação feminina bem construída e fora dos padrões machistas e estereotipados. Isso não é censura, isso é uma crítica.

Nós também já falamos sobre a escolha pessoal de consumir ou não produtos que venham de autores de índole duvidosa ou comprovadamente criminosa. Eu mesma não assisto Polanski nem Woody Allen, assim como não leio Arthur C. Clark ou Marion  Zimmer Bradley. Essa é uma opção minha, pautada em escolhas pessoas, que busca não apoiar pessoas que tenham de alguma maneira causado dano à pessoas, principalmente mulheres e/ou crianças.

Como roteirista eu sei que críticas podem ser pesadas. Uma das primeiras coisas que precisamos aprender como criadores de arte é que críticas existem e que inflar o seu ego artístico não vai fazer nada além de prejudicar o seu crescimento como profissional. Escutar críticas e saber filtrá-las é parte importante do processo de criação artístico de todo autor, ilustrador, diretor e etc.

Como criadora de conteúdo online, assim como roteirista, eu também sei que sou responsável por tudo que eu coloco no papel. Tudo que eu escrevo vai alcançar alguém de alguma maneira, seja diretamente como aqui no blog, seja de maneira mais indireta na tela do cinema. Por isso uma das minhas maiores preocupações é qual a mensagem que eu estou passando, e como ela vai ser interpretada. Nós vivemos numa sociedade que absolve muito facilmente os que são considerados gênios em suas áreas, principalmente se eles forem homens, então cabe à esses criadores de conteúdo artístico ou não, escutarem as críticas e se preocuparem com a mensagem que o seu trabalho vai disseminar.

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Como consumidora de conteúdo artístico eu sou a rainha da problematização. Eu consumo quadrinhos, filmes, séries, livros, jogos e acabo olhando para todos eles com um viés crítico. Não porque eu quero destruir esses produtos, mas porque eu gosto deles e quero que eles evoluam cada vez mais. Parte dessa evolução é abranger de maneira mais igualitária todos os grupos de possíveis consumidores, incluindo os que estão fora do padrão masculino-branco-hetero-cis. Se a gente gosta de uma coisa, se a gente ama aquela história, a gente deve querer que ela seja melhor, não que ela seja intocável. Não é porque eu problematizo que eu não me divirto, que eu não curto aquilo que estou consumindo, muito pelo contrário. Isso só quer dizer que eu consigo olhar além do que eu gosto e perceber o caminho que falta para um produto verdadeiramente completo.

Quando uma editora decide tirar de circulação uma revista por causa das críticas dos fãs ou de movimentos sociais, como aconteceu na semana passada com a capa alternativa de Invincible Iron Man, o poder de decisão está na mão da editora. Muitas pessoas tendem a culpar os movimentos sociais e/ou os fãs que reclamaram, mas a verdade é que o que eles fizeram foram críticas, seja à escolha do artista, ao modo como a personagem foi apresentada ou à decisão da editora de autorizar a publicação do material. Nenhum desses críticos tem o poder de parar as máquinas de impressão, o poder de decidir o que irá ou não às bancas é da editora. (Nós vamos falar mais sobre esse caso em outro texto).

Com o revival de Gilmore Girls chegando ao Netflix em Novembro, o serviço de streaming adicionou na sua biblioteca a série original em todas as suas temporadas. O que eu mais vi na minha timeline do facebook e do twitter foram mulheres dizendo o quão felizes estavam por poder assistir a série que representou tanto para elas, mas apontando também os erros e os problemas de representação que a série tinha. Isso é maravilhoso. Gilmore’s foi escrito e filmado numa época em que nem de perto nós tínhamos uma discussão tão ampla sobre representação feminina, então é uma série que apesar de criada por uma mulher, carrega em si diversos estereótipos e conceitos negativos. É normal que os nossos olhos mais abertos de hoje vejam problemas que na época nós não vínhamos, eu espero que a criador também veja esses problemas hoje e tenha trabalhado para criar algo melhor e maior nesses novos episódios. Não é só porque eu gosto de uma coisa que eu não possa critíca-la.

Ao invés de se ofender quando alguém critica o seu trabalho, ou o trabalho de algum autor que você gosta, procure entender a crítica. Procure ver além do coração de fanboy. E tá tudo bem em ser fanboy ou fangirl, mesmo. Mas é preciso entender que não é só porque você não vê problema nenhum que ele não existe. E tá tudo bem se você gosta de alguma coisa que outras pessoas criticam, mas não dá pra dizer que crítica é censura, isso é descabido e errado. Críticar algo não é censurar o autor ou o produto, é apenas apontar onde estão os erros percebidos, onde aquilo poderia melhorar, onde aquilo é muito bom ou não. Ninguém está tirando a caneta da mão do autor nem tirando o quadrinho da prateleira, nós estamos apenas criticando o trabalho do autor, questionando porque ele repete erros do passado, porque um autor carregado de tantos estereótipos e temáticas negativas e ofensivas ainda continua ganhando espaço, etc. Nada disso é censura, mas tudo isso é crítica.

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