Dizer que as minhas expectativas eram baixas é dizer pouco. Não porque eu tinha certeza que o filme ia ser ruim, mas porque eu realmente não esperava nada dele. Eu cresci assistindo Power Rangers, quis ser Kimberly quando criança e depois de mais velha vi Zordon morrer. Power Rangers no Espaço foi a última temporada que assisti, depois disso só acompanhei de longe um ou dois capítulos que apareciam em dias que eu não estava fazendo nada.

A adaptação que chega hoje aos cinemas conta com um elenco de relativamente desconhecidos assumindo o papel da equipe original:Dacre Montgomery (Jason/Ranger Vermelho), Naomi Scott (Kimberly/Pink Ranger), Ludi Lin (Zack/Ranger Preto) e Becky G. (Trini/Yellow Ranger). Além deles os atros Elizabeth Banks e Brian Craston encarnam Rita Repulsa e Zordon. Apesar de não ser um filme de qualidade artística alta, ele parece ser honesto com suas limitações e com a expectativa do público. Ao meu ver o filme tem dois pontos fortes, saber o tipo de filme que é e a diversidade dele.

Ele sabe muito bem o que é.

Quando saíram os trailers uma das coisas que pulavam aos olhos era a tentativa de fazer o filme se encaixar dentro do “padrão de sucesso” dos reboots: trazer algo mais adulto, mais viceral e obscuro. Se essa era a intenção da produção, então eles falharam astronomicamente. Mas eu realmente não acho que esse seja o caso, pois a grande força de Power Rangers é saber exatamente o que é e manter-se fiel ao seu público alvo: um filme pipoca da Sessão da Tarde – e não há nada de errado nisso.

Não há nada de estelar no roteiro do filme, que até tenta se aventurar por um caminho mais adulto ao “matar” um dos personagens e trazer um Zordon bem menos acolhedor que o original, mas sempre acaba voltando para momentos intencionais (ou não) de humor. Eu honestamente acho que essa é a escolha certa, Power Rangers nunca foi viceral, pesado ou qualquer coisa similar, muito pelo contrário. Se Power Rangers fossem garotas mágicas eles seriam Sailor Moon, não Madoka, e tá tudo bem.

Quando saí da sessão, fiquei me perguntando o que eu sabia sobre a história pregressa ou a personalidade dos primeiros Rangers – pouco ou quase nada. Neste quesito o longa faz um trabalho melhor do que a série fez em algumas temporadas. Os Rangers aqui não são só adolescentes que vão pra escola e, depois de zoar com Bulk e Skull, vão salvar a alameda dos anjos. O filme tira alguns momentos para tentar desenvolver um pouco mais a angústia interna deles, nada extraordinário e, talvez exatamente por ser um filme sessão da tarde, fica a sensação de que isso podia ter sido feito com mais calma e também melhor trabalhado.

A Diversidade de seus personagens.

Muito se falou nos últimos dias sobre Trini, a Ranger Amarela, ser uma representação LGBT. Há milhares de questionamentos em torno do tipo de representação que Trini trás, e de fato há um cansaço quando se noticia uma personagem lésbica mas isso é apresentado de maneira não tão evidente quanto nós gostaríamos. O arco da personagem é sobre descobrir quem ela é e, do ponto de vista narrativo, ela sendo uma adolescente parece coerente que ela ainda não tenha se rotulado como nada – ou que não queira se rotular. Isso não quer dizer que não precisaríamos de uma afirmação mais forte sobre isso.

Mas há mais do que isso. Billy, o ranger Azul, é autista. Além de quebrar a tradição de personagens negros serem os Rangers Pretos, Billy é uma representação um tanto caricata porém carinhosa de uma pessoa no espectro autista. Um acerto do filme, ao meu leigo ver, é que ele não é vitimado necessariamente por ser autista, e o filme não o mostra como alguém digno de pena, ele é super-herói como seus colegas, talvez dentre os cinco o que mais anseia por esse papel. O grupo se forma ao redor dele – é dele a decisão que coloca os cinco em contato com os cristais, é ele que une os cinco e é ele o primeiro a conseguir morfar.

O único personagem branco do filme é o Ranger Vermelho, ele é também o menos interessante e com o conflito interno mais desinteressante. É como naquele clipe dos Backstreet Boys em que cada um deles mostrava um drama em sua vida (problemas no coração, morte do pai, da irmã ou o vício com drogas) e o problema do Nick é que ele nunca tinha encontrado o amor. Perto dos outros personagens, Jason parece uma escolha questionável para liderança. A atriz que faz Kimberly é descendente de indianos e, apesar de isso não ser usado na história, ela está bem longe do padrão branco americano. Trini é latina, Billy é negro (e autista!) e Zack é de descendência asiática. A mãe de Zack, inclusive, não fala inglês, apenas chinês, levantando a pergunta que talvez ela seja imigrante – mas essa é uma extrapolação minha.

O ponto forte, apesar das falhas, é que esse é um filme focado em adolescentes, baseado em uma série de mais de 20 anos e que não se recusou a atualizar os personagens para padrões mais inclusivos.

Quase um ano atrás, quando saiu o primeiro trailer, eu falei sobre a presença de Boobie Plates e salto-alto no uniforme das personagens femininas. Eu continuo achando tudo isso:

Conclusão

Não espere atuações extraordinárias – esse não é o tipo de filme para isso. Como já era esperando, nem Elizabeth Banks, que interpreta a vilã Rita Repulsa, nem Bryan Cranston, que interpreta Zordon, vão ganhar indicações à prêmios por seus papéis. Banks parece se divertir interpretando a vilã, que tem a origem bem diferente da série original, e isso ajuda a manter o clima do filme no lugar certo. Também não espere John Wick ou Pacific Rim no que diz respeito às lutas e ao Megazord – anunciado como “mais centrado na realidade”, a realidade em questão aqui é o baixo orçamento e os limites técnicos.

Se você for ao cinema esperando uma versão mais adulta de Power Rangers vai gastar o dinheiro do ingresso a toa. O filme tem como público alvo adolescentes, visando começar no cinema uma franquia que já é sucesso na televisão há mais de vinte anos. Essa é a escolha mais acertada do filme, enquanto existem pequenos acenos aos fãs mais velhos, o filme não perde tempo com saudosismo ou auto-referência. Power Rangers entrega um clima e uma narrativa muito próxima da série original, com o coração no lugar certo, e momentos de humor interessantes. Não esqueça de ficar até o final dos créditos. 😉

Power Rangers estreou hoje no Brasil.

  • Neila Pauline

    Achei o filme maravilhoso, do ponto de vista de uma fã de Power Rangers, as diferenças e ao mesmo referencias me encantaram, ter mulheres fortes na equipe me lembra um pouco a Taylor(Ranger Amarela de Força Animal) e Jen( Ranger Rosa de Força do Tempo), esta ultima inclusive foi confirmada como lider da equipe ainda que tivesse o Wes.
    Na minha infância torcia muito pra ter um destaque feminino nas equipes e ate mesmo uma ranger vermelha, mas é um passo a se conquistar, sei que teve apenas aparição de uma em SPD como lider do esquadrão A e a irmã do ranger vermelho em Super Samurai por alguns episódios.
    A roupa pouco me incomoda, é um detalhe que não muda em nada a personalidade de cada um dos rangers mais reais e com conflitos adolescentes atuais, coisa que na serie de tv é pouco explorada, que eu torcia pra aprofundarem, é como a mulher maravilha, que a própria diretora decidiu manter uma roupa que valorizasse mais Gal Gadot, se olhar para o elenco masculino no caso do filme de Power Ranger parece que pelo menos Billy depois que veste armadura ganhou um update digno de um filhote de The Rock, com aquele tanquinho pre fabricado, engraçado que isso me lembra a parodia de 300, quando tem um cara pintando o tanquinho de um personagem. haha
    A história do Jason me pareceu pouco explorada, pois ele levou toda a culpa por algo que não fez sozinho e ainda sim ficou calado, agora gostei do arco dele com o Zordon as conversas de líder para líder, a relação dele com Billy e com a própria Kim.
    Enfim gostei demais do filme e espero ansiosamente pela continuação, não sei se queria Tommy Oliver mulher, mas acredito que vai ser uma boa sequência.
    PS: Os momentos da Trini com a Kim, foram ótimas, trouxeram algo que eu sinto falta nos filmes: a amizade entre mulheres sem interresses(espero que seja isso mesmo) que muitas vezes é retratado como uma disputa de egos ou ate mesmo não é muito explorada principalmente nos filmes de heróis, destaque para a cena das duas no café.

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