Antes que vocês comecem a jogar pedras em mim, me deixem falar. O objetivo deste texto é, em primeiro lugar, tirar vocês da zona de conforto, incomodar um pouquinho mesmo. Mas a ideia principal é lembrar que nós temos privilégios.

Eu joguei World of Warcraft por muitos anos. Isso implica a interação multiplayer com pessoas de todo lugar do globo, inclusive com americanos. Acontece que, apesar de nós termos dificuldade de aceitar isso, para eles é muito simples: brasileiros são latinos. Como sabemos, a latinidade é um problema para grande parte do povo americano. Como consequência dessa visão, aparece a xenofobia, que também existe nos jogos.

Meu ponto é: o micro é sempre uma reapresentação do que acontece no macro. Os ambientes multiplayer são sociedades simuladas virtualmente (micro), e elas apresentam todas as características de uma sociedade do mundo real (macro). Existem relações de consumo, existem relações hierárquicas e existem relações de poder. Por serem simuladas, essas sociedades não podem ser isentas das influências originais das sociedades reais às quais os indivíduos que as formam fazem parte. Desta forma, os problemas que acontecem no ambiente multiplayer são um reflexo direto dos problemas  do mundo não-virtual.

Se refletirmos mais profundamente sobre esses reflexos nas relações sociais simuladas pelos videogames, é possível questionar de que forma isso se materializa na prática. Afinal, estamos falando de outro ambiente social, que possui regras específicas. A resposta aqui é simples: geralmente a intensidade das opressões só caminha em duas mãos, ou melhora, ou piora, e no caso deste universo ela piora.

Nem vou entrar no mérito do motivo que faz com que as pessoas se comportem mais cruelmente nesse tipo de ambiente, até porque junto desse discurso sempre vem uma demonização da internet com a qual eu, do fundo do coração, não concordo. Acho que vamos dizer apenas que isso acontece porque nós somos humanos.

E o que você tem a ver com isso?

Bom, para começar, você é um indivíduo que é agente social. Como agente social, absolutamente todas as suas ações, seus pensamentos e suas palavras causam efeitos concretos na sociedade. “Na sociedade”. Em toda a sociedade. Em todas as sociedades, inclusive nas simuladas virtualmente.

Se você (e por ‘você’ eu quero dizer todo mundo, inclusive eu), nos ambientes multiplayer, reflete sua vida social real e é agente ativo, então você é basicamente a mesma pessoa no mundo real e no virtual, apesar de os dois mundos terem regras diferentes. Isso implica poder dizer que todas as suas condutas opressoras se repetem no mundo virtual, normalmente, como comentei antes, potencializadas.

Mas afinal o que é ser tóxico? Para mim, a toxicidade é diretamente proporcional à sua capacidade de ferir, humilhar ou prejudicar alguém. Quando se é violento, se é tóxico. Quando se oprime, se é toxico também.

Nós temos privilégios no mundo real e eles continuam sendo privilégios no mundo virtual. Por consequência, nós oprimimos no mundo real e esta opressão se estende ao mundo virtual.  É importante pensar nisso.

Tente imaginar quantas das suas ações podem ter possuído o poder de desincentivar ou mesmo de fazer com que alguém tenha deixado de jogar por completo. Pense em qual o tamanho da sua responsabilidade.

Agora pense que a desconstrução também é um processo social.

É sua obrigação criar um ambiente saudável para todas as pessoas. É sua obrigação desconstruir suas atitudes opressoras. E é sua obrigação levar o resultado desta desconstrução para o ambiente multiplayer. O trabalho é árduo, tal qual toda desconstrução, mas não é impossível.

%d blogueiros gostam disto: