Pense em seus cinco diretores de cinema favoritos. Quantos deles são homens? Pois é, a indústria do cinema é claramente dominada por diretores homens. Em Hollywood, apenas sete por cento dos filmes são dirigidos por mulheres, de acordo com a Variety, e na maior parte do mundo, a situação é igualmente crítica – quando não pior.

Mas, mesmo frente à uma disparidade de gêneros gritante na indústria cinematográfica (vide links abaixo), há um hall grandioso de mulheres comandando sets de filmagem.

Muito devemos às pioneiras desta profissão e a um grande número de mulheres que, geração após geração, deixaram sua marca no cinema mundial e abriram caminho para que outras mulheres pudessem realizar filmes.

Nomes como a diretora russa Yuliya Solnte, responsável por dirigir mais de 14 filmes entre 1939 e 1979, ou a senegalesa Safi Faye, primeira mulher africana a dirigir um longa-metragem distribuído comercialmente, se somam aos nomes de Ida Lupino, Vera Chytilová, Tazuko Sakane, Germaine Dula, Nora Ephron, Agnes Vardá e dezenas de outros mais.

Claro, ainda há muito o que ser feito. Relatórios e matérias em todo o globo (vide aqui dados da Europa, África, e de países como Estados UnidosAustralia e Nova Zelândia, apenas para citar alguns), atestam a disparidade de gênero no cinema.

Além disto, a luta também deve ser para que as mulheres negras tenham tantas oportunidades no cinema quanto as brancas – o que claramente não acontece, como pode ser verificado aqui e aqui.

Vale lembrar ainda que a indústria do cinema é extremamente desigual. E que, enquanto em locais como França e Estados Unidos, vemos mulheres dirigindo filmes desde o começo do século vinte, em outros, a situação é mais complexa. Foi apenas nos anos 2000 que a Arábia Saudita viu sua primeira mulher diretora, Haifaa Al-Mansour. Em diversos momentos, a diretora teve de dirigir os atores via walkie-talkie, de dentro de uma van, uma vez que, segundo as leis de seu país, não poderia ser vista nas ruas junto com os homens de sua equipe de filmagem.

Para citar outro exemplo, em Cuba, segundo dados de 2008, em toda a história do cinema do país, apenas um dois longas-metragens de ficção haviam sido dirigido por mulheres – “De Cierta Manera”, realizada por Sara Gómez em 1974, e “Te llamarás Inocencia”, 1989, realizada por Teresa Ordoqui. Por isso, se tornou célebre a frase da cineastas Mayra Vilasís: “Em Cuba, é mais fácil ser pilota de avião que diretora de cinema”.

Isto dito, foi pensada uma lista de mulheres diretoras que merecem ser conhecidas. A lista, claro, vai muito além dos nomes aqui citados, e serve também como um incentivo para que outros nomes sejam buscados (aquelas que se interessarem, sintam-se à vontade para acrescentar mais nomes nos comentários).

Aqui, um recorte foi necessário. Assim, foram selecionados apenas nomes de diretoras ainda na ativa. Houve também um cuidado para selecionar nomes mais “comerciais”, sem deixar de lado outras diretoras extremamente relevantes, mas com obras menos conhecidas pelo público.

Além disso, a decisão foi de privilegiar diretoras, primeiramente, de longas-metragens, deixando de fora nomes de importantes autoras de TV, como Maria Adelaide Amaral, responsável por diversas novelas da Rede Globo. A ganesa Nicole Amarteifio, da popular websérie “An African City” – considerada a “resposta africana para Sex and the City”, também ficou de fora segundo este critério.

A divisão se deu por continente, ainda que tal critério se mostre limitante: afinal, como comparar diretoras de um continente tão amplo e díspar quanto a Ásia? Por vezes, divisões sócio políticas parecem mais coerentes – O México, embora pertencente à América do Norte, apresenta um cinema que, em muitos sentidos, se assemelha mais com o restante da América Latina.

Sem mais delongas, segue abaixo a lista de mulheres diretoras que, sem dúvida, merecem ser conhecidas da Europa e Africa. Nas semanas seguintes, serão publicadas listas abarcando os demais continentes.

EUROPA

BERLIN, GERMANY - FEBRUARY 11: (EDITORS NOTE: This image has been retouched) Director Celine Sciamma poses during a portrait session for the movie 'Tomboy' during day two of the 61st Berlin International Film Festival at the restaurant Oscar and Co. on February 11, 2011 in Berlin, Germany. (Photo by Florian G Seefried/Getty Images)

Celine Sciamma

A diretora francesa se tornou conhecida após seu primeiro longa-metragem, “Lírios D’água” (2007), que foi exibido no Festival de Cannes e concorreu ao Prêmio Cesar. Mas foi seu segundo longa-metragem, “TomBoy” (2011), que aborda a identidade de gênero na infância, que ela se consagrou, tendo levado o prêmio Teddy – Escolha do Juri no Festival de Berlim. Seu terceiro filme, “Garotas” (2014), também obteve boa recepção de crítica em diversos festivais ao redor do mundo. Em suas obras, assuntos como sexualidade e juventude são recorrentes.

mia hansen love

Mia Hansen Love

A cineasta francesa estreou no cinema em 2007, com “Tudo Está Perdoado”, mas foi com seu segundo longa-metragem, “O Pais dos meus Filhos” (2009), vencedor da Mostra “Un Certain Regard – Prêmio Especial do Juri”, no Festival de Cannes, que Mia ganhou reconhecimento. Seu terceiro longa-metragem, “Adeus, Primeiro Amor” (2011), abocanhou dois prêmios no Festival de Loccarno. “Eden” (2014), seu último filme, inspirado na história do Daft Punk, aborda o cenário da música eletrônica nos anos 90. Uma diretora sensível, com amplo domínio do tempo cinematográfico.

agnieszka holland

Agnieska Holland

Polonesa, Agnieska é uma veterana do cinema, com mais de quatro décadas trabalhando como diretora e roteirista. Seu filme “Europa Europa” (1990) rendeu-lhe uma indicação de melhor roteiro adaptado. Além de ter dirigido diversos longas-metragens, dentre os quais destaca-se “In Darkness” (2011), sobre um homem que se arrisca para salvar refugiados na Segunda Guerra Mundial, Agnieska dirigiu episódios de séries como “Treme”, “The Killing” e “House of Cards”.

isabel coixet

Isabel Coixet

A diretora espanhola, que atualmente reside em Nova York, assina obras como “Minha Vida Sem Mim” (2003), “A Vida Secreta das Palavras” (2005), “Fatal” (2008) e “Nobody Wants the Night” (2015), ainda inédito no Brasil. Ao longo de sua carreira, Isabel acumulou mais de 30 prêmios. Além de feminista engajada, Isabel afirma ter a preocupação de, cada vez mais, olhar para fora da cultura europeia e americana para construir suas obras.

susanne bier

Susanne Bier

Seu filme “Em um Mundo Melhor” (2011), venceu o Oscar e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. A diretora dinamarquesa acumula mais de trinta prêmios em sua carreira, e uma extensa lista de filmes bem-sucedidos, como “Depois do Casamento” (2006) e “Brothers” (2004). Susanne afirma, em suas obras, nunca fugir das emoções – assim, seus filmes são conhecidos pelo alto teor dramático.

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Claire Denis

Mais um nome para o hall das diretoras francesas, Claire Denis é dona de uma extensa e respeitável lista de obras cinematográficas. Filmes como “Nénette et Boni” (1996), “Trouble Evey Day”, (2001), “35 Doses de Rum” (2008) e “Minha Terra, África” (2009), fazem de Claire Denis um dos grandes nomes da cinematografia francesa. Filha de um administrador colonial, Claire cresceu na África – e a memória e heranças da infância no Camarões irão permear sua obras. Temáticas como a sexualidade, o desejo, o amor, o estranhamento e a figura do estrangeiro são constantes nos filmes de Claire Denis.

Andrea Arnold photographed in London Andrea Arnold photographed in London

Andrea Arnold

Seu primeiro longa-metragem, “Marcas da Vida”, (2006) concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Desde então, Andrea dirigiu o famoso filme “Aquário” (2009), vencedor do prêmio do júri no Festival de Cannes, e uma adaptação do romance “Os Morros dos Ventos Uivantes” (2011). Conhecida por seus filmes densos, a diretora inglesa diz que seus filmes não oferecem “passeios fáceis”.

sally potter

Sally Potter

Diretora de “Orlando” (1993), “Porque Choram os Homens” (2000) e “Ginger e Rosa” (2012), a inglesa Sally Potter é uma das mais respeitadas diretoras de seu país. Seu longa-metragem de estreia, “The Gold Diggers” (1982) foi feito por uma equipe apenas de mulheres.

PHOTO: WOJCIECH OLSZANKA/EAST NEWS WARSZAWA 5.11.2008 Proba dla mediow "Hrabiny Maricy" w rezyserii Marty Meszaros w Teatrze Dramatycznym NZ: MARTA MESZAROS

Márta Mészáros

Uma das mais relevantes diretoras húngaras, com mais de 60 filmes dirigidos, se tornou conhecida mundialmente após sua séries de filmes “diários” na década de oitenta. Seus filmes – muitos, feitos num contexto de repressão política de seu país – contemplam questões como gênero, sociedade, política e identidade e já foram exibidas em importantes festivais mundo afora, como Veneza, Cannes e Berlim.

deniz erguven

Deniz Gamze Ergüven

A diretora Franco-Turca ganhou notoriedade com o seu ainda inédito no Brasil “Cinco Graças”, que conta a história de circo irmãs que vivem num pequeno vilarejo da Turquia. Premiado no Festival de Cannes, indicado ao Globo de Ouro e indicado ao Oscar, a produção colocou Deniz, graduada na prestigiada escola de cinema francesa “La Femis”, no hall dos grandes nomes do novo cinema europeu.

alice rohrwacher

Alice Rohrwacher

O grande prêmio do júri em Cannes foi apenas uma das premiações que “As Maravilhas” (2014), da diretora italiana Alice, abocanhou. Seu filme anterior, “Corpo Celeste” (2011) foi exibido em Cannes e Sundance. Em seus dois filmes, Alice apresenta jovens protagonistas femininas, e a relação destas com suas famílias e comunidades.

Vale conhecer também Lynne Ramsay, diretora escocesa de “Precisamos falar sobre Kevin” e as francesas Maiwenn, de “Polissia”(2011) e do ainda inédito “Mon Roi” (2015) e Agnès Jaoui, de “O Gosto dos Outros” (2000). Além disso, as inglesas Clio Barnard, de “The Selfish Giant” (2013) e Carol Morley de “Dreams of a Life” (2011). Da república Checa, Alice Nellis de “Vylet” (2002) e da Hungria, Ágnes Kocsis, do premiado em Cannes “Pál Adrienn” (2010).

 

ÁFRICA

tope oshin ogun

Tope Oshin Ogun 

A diretora, produtora e atriz Nigeriana é o grande nome por trás de “Tinsel”, série nigeriana de grande sucesso, no ar desde 2008. Dirigiu, ainda, curtas-metragens e filmes para televisão, além do longa-metragem “Journey to Self” (2013). No centro de suas principais obras, a irmandade entre mulheres.

michelle bello

Michelle Bello 

A comédia romântica “Flower Girl” (2013) fez com que Michelle ficasse conhecida como um nome forte de Nollywood – indústria cinematográfica Nigeriana e considerada a maior do mundo em números absolutos, lançando entre 1.000 e 2.000 títulos ao ano. A diretora nasceu em Londres e passou sua infância na Nigéria, para onde retornou após se formar em uma universidade americana. Ela afirma adorar “contar histórias africanas, de uma perspectiva feminina, para audiências mundo afora”, e complementa, afirmando que “existem poucas diretoras mulheres em nossa indústria como um todo, e essa é uma das razões que eu amo apoiar outras mulheres diretoras pelo continente, sempre que posso”.

shirley frimpong manso

Shirley Frimpong-Manso

Diretora de onze bem sucedidos filmes, a ganesa Shirley é responsável por obras como “Scorned” (2009) e “Six Hours to Christmas” (2010) e venceu o prêmio de melhor diretora no 6th Africa Movie Academy Awards. Ela afirma se lembrar de, quando pequena, ver apenas filmes que retratavam as mulheres como fracas e submissas – nada como as mulheres que ela via ao seu redor. Shirley ganhou reputação por escalar protagonistas femininas poderosas em suas obras, o que inspirou que um número crescentes de mulheres em seu país a se aventurarem numa indústria predominantemente masculina.

sara blecher

Sara Blecher

Sara é a diretora de “Otelo Burning” (2011), considerado pela CNN um dos dez filmes africanos mais importantes da década, e “Ayanda and the Mechanic” (2015), premiado no último Los Angeles Film Festival. A diretora sul-africana se formou pela NYU. Sobre seu último filme, que tem como protagonista uma jovem que Sara descreve como “afro-hispter”, ela afirma ter nascido do desejo de realizar um filme que fornecesse um modelo feminino alternativo para as jovens sul-africanas.

 

Destaque também para a Angolana Pocas Pascoal, de “Por aqui tudo bem” (2011), vencedor do Los Angeles Film Festival, e para a tunisana Moufida Tlatli, que foi premiada em Cannes por seu filme “Samt et Qusur” (1994) e em 2000, dirigiu o reconhecido “La Saisones des Hommes”. Vale ainda conhecer Cheryl Dunye, oriunda da Libia e conhecida por seu “The Watermelon Woman” (1996).

 

 

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