Os recentes doramas com protagonistas mais velhas, as conhecidas ajjuhmas, estão trazendo questões pertinentes sobre a emancipação de mulheres casadas. Queen of Mystery (2017, 16 episódios) não é muito diferente do drama Twenty Again (2015). Uma esposa, que deixou de lado as próprias ambições de carreira para estar à mercê da família, é impulsionada para um destino de aprendizado e mudança de vida por volta dos 40 anos.

O que difere as duas obras é que Queen of Mystery vem com uma premissa de ser um dorama policial com mistério e comédia. Yoo Seol Ok (Choi Kang Hee) começa a ajudar a polícia local em um pequeno caso de furto e depois vai se envolver com outros maiores. E o romance? Não é o foco principal da trama, apesar de sabermos que ele sempre vai aparecer a qualquer momento, até porque o enfoque é o público feminino (isso é bem claro a partir do episódio 11).

Por que ver Queen of Mystery?

Foi o primeiro dorama que tive contato que expandiu as discussões sobre a violência à mulher. Diferente de um breve diálogo no drama It’s ok, that’s love (2015), onde acontece a possibilidade de a protagonista ter sido estuprada: o amigo diz a outro rapaz que é impossível acontecer isso, porque ela não é esse tipo de mulher. É aqui que Queen of Mystery é fundamental ao trazer a realidade: não há um tipo de mulher. A violência não ocorre apenas com um perfil no qual insistem em enquadrar as vítimas para justificar o abuso. Estamos lidando com problemas estruturais da sociedade e o drama evidencia isso e, melhor, expõe as responsabilidades para além dos agressores. Oras, se há violência de gênero, é porque ela é perpetuada pelos discursos misóginos (por meio da mídia, ensino, instituições públicas e privadas, etc) há gerações.

Uma das cenas mais fortes do drama é quando as pessoas próximas a um casal poderiam ter mudado o desfecho trágico de uma violência doméstica. E como muitas vezes se repete: a mulher é isolada e culpada pela própria tragédia. E quem se importou com ela?

A série tem diálogos essenciais para romper com a noção de que aqueles seriam casos isolados ou que apenas um monstro poderia ter feito aquilo. As vítimas são perfiladas assim como seus agressores, que são o marido, o sogro, o amigo, o namorado, o cara que tá interessado na mulher e não aceita uma rejeição, o vizinho e o psicopata. Em sua maioria, pessoas que nunca cometeram crimes.

Em breves momentos Seol Ok pensa em desistir de investigar casos, mas é sempre motivada a voltar, como no caso acima quando uma conhecida foi assassinada. (Fonte: Tumblr)

Não é um drama fácil de se ver, até porque quase todos os casos são relacionados às mulheres. Situações como o desespero de ser perseguida por alguém, o medo constante de um possível estupro ou morte, uma doença psicológica desenvolvida por conta de relacionamento abusivo, o receio de se relacionar com um homem que pode te matar são expostas na série. Talvez seja um dorama interessante para quem não compreende que o medo que as mulheres têm é real.

O olhar do outro sobre a vítima

O seriado mostra a dificuldade de entender os sentimentos de quem sofreu uma violência, mesmo com um julgamento breve sobre a vítima, há mais questionamentos do que certezas a respeito de sua conduta. Seol Ok nitidamente entra em conflito em um dos casos que envolve a cunhada (Kim Ho Soon). Ela não sabe exatamente o que ocorre na cabeça da outra (ao ponto de mentir e esconder algo da própria família), mas ao mesmo tempo busca cuidar bem de Ho Soon — diferente do outro caso da violência doméstica na série.

Seol não expõe essas questões para a cunhada e gosto de imaginar que ela está se desconstruindo quanto pessoa, até por conta de outros diálogos na série. Não espere um seriado 100% feminista, existem, como qualquer outro dorama, falas e representações bem toscas (assim como a produção ocidental). Fonte: Tumblr

A cunhada não escolheu um assassino, mal sabia quem o cara era. Seol Ok reproduz uma fala que ignora os fatos e acha que é simples de entender quem sofre uma violência. Eu gosto da conversa acima, porque evidencia que não é assim tão fácil de controlar um sentimento (a neurociência já deixa claro que não existe a racionalidade pura e a emoção faz parte de inúmeros processos cerebrais) e, claro, há dependências na relação.

Fonte: Artigo Os motivos que mantêm as mulheres vitimas de violência no relacionamento violento (2006)

São vínculos complexos para serem discutidos aqui no post. O drama aponta que, felizmente, em alguns casos, tem quem se importe com a vítima e vai fazer de tudo para protegê-la. É mais importante do que julgar a vítima. No caso da série, é mulher protegendo mulher.

O protagonista deixa claro que ela não está sozinha. “Aquela mulher arriscou a própria vida para salvar a sua. Sua vida não é tão ruim”. (Fonte: Tumblr)

Alguns dados gerais da Coréia do Sul

2010: De acordo com a pesquisa nacional sobre violência por parceiro íntimo (violência emocional, física e sexual) ocorreu em 53,8% em casais casados e, em 81,9% desses casos, as esposas foram abusadas pelos maridos (Fonte: Korea Women’s Hotline)

2011–2013: 20.500 pessoas foram presas por violência no namoro.

2012-2015: Casos de homicídios entre namorados vem aumentando na Coréia desde 2012, de 99 para 108 (2014). Em três anos, o número de vítimas totalizou 313. (Fonte: Korea Herald)

2014: 90% das mulheres entrevistadas foram abusadas fisicamente ou emocionalmente por seus namorados. (Fonte: Korea Women’s Hotline)

2016: O Supreme Prosecutor’s Office mostrou que 85% das vítimas de crimes violentos são mulheres — sendo que são casos considerados raros.

As mulheres sul coreanas correspondem mais de 50% das vítimas de homicídios. É o terceiro país da Ásia onde mata mais mulheres — atrás da China e do Japão. (Fonte: ONU, 2013)

Os protagonistas do dorama

Personagens: Ha Wan Seung (Kwon Sang Woo) e Yoo Seol Ok (Choi Kang Hee)

Seol Ok não se sujeita, mesmo quando todos a sua volta falam o que ela deve fazer (normalmente a reduzem a uma senhora casada e que deve ficar em casa), ela sempre dá um jeito. Ao longo da história vemos exatamente o que a colocou naquele espaço familiar e, consequentemente, como não foi em frente na carreira que gostaria — uma profile da polícia.

É uma pessoa que chama atenção, porque ela apenas considera ouvir os outros quando não se acha capaz para exercer a função que tem pra si: ser 100% justa e certa de quem é o culpado pelo crime. Criaram uma personagem que parece colocar o outro em primeiro lugar, mas na verdade ela tem empatia pelas pessoas e sabe o quanto que um erro pode prejudicar a vida de alguém que é suspeito de um crime. Seu senso de justiça a coloca em situações que levantam questões sobre violência e poder na série.

O personagem masculino, Ha Wan Seung, é aquele padrão que parece um bad boy, seguro de si, mas cheio de marcas tristes do passado e se importa com seus pares. Mesmo sendo um clichê, ele se torna um parceiro que Seol Ok precisa, um apoio que o marido não quer ser. Na verdade, ela não depende de Seung para resolver algum crime no primeiro momento, mas sim o contrário. Só ao longo da série o grupo de investigação vai se formar e a relação passa a ser de interdependência. É bem interessante o companheirismo que se desenvolve sem apelar para um romance piegas como motivação principal.

A discussão entre a protagonista e o marido sobre um caso não solucionado. Ela quer resolver e ele não.

O breve debate sobre “quem ama, agride”

Tem umas sutilezas no drama ao abordar questões naturalizadas. Há essa conversa entre três personagens que um questiona o porquê o Seung fica no pé de Seol, sendo que ela é uma pessoa legal:

O rapaz rompe com a ideia absurda de romantizar relações abusivas. Quem ama cuida.

Queen of Mystery e o final sem fim

Sim, a história principal fica em aberto, porque os produtores do dorama fizeram com a intenção de uma segunda temporada (mas isso não quer dizer que vai ter). Aí deu pra entender porque alguns arcos de personagens, como a da cunhada (que eu mais queria ver), não se fecharam.

Queen of Mystery se soma a outros doramas que estão mudando para melhor a representação feminina e expondo os discursos que agridem e matam mulheres diariamente.

Onde assistir? Viki e DramaFever


Links sobre violência contra a mulher sul-coreana

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