Nos textos que escrevo, sempre toco na questão do privilégio branco. Eu sei que muita gente não se sente confortável com esse conceito, já que parte do princípio de que eles têm algum tipo de vantagem sobre outras pessoas. Mas, mesmo dentro do feminismo, é importante ter a noção de que, por mais que nós, como mulheres, sejamos todas oprimidas, a mulher não-branca (negra, ameríndia, arabe, asiática…) precisa superar, além de outras coisas, o racismo e a hipersexualização (aqui no Brasil, por exemplo, a imagem da mulher negra que samba de biki é usada para atrair turistas).

No mundo do cinema e da televisão, olhamos para a tonelada de protagonistas brancos com normalidade porque essa é a norma das produções – a história de personagens brancos é o “padrão”. Atores não-caucasianos possuem uma lista muito pequena de tipos de personagens, muitas vezes estereótipos, da qual escolher. E se o papel é de protagonista, então é possivelmente uma biografia (Malcom X, 12 Anos de Escravidão, Duelo de Titãs), ou filmes de ação (Chamas da Vingança, Bad Boys e Um Tira da Pesada). Há muita pouca ficção em que os protagonistas não são homens brancos.

Mas manter esse “padrão” branco é incrivelmente prejudicial, já que exclui uma parcela gigante da população de se verem representados na tela. Isso acarreta um sistema de dominação branca e, dentre outros fatores, a manutenção de um ideal de beleza feminina, e masculina, que prejudica e oprime meninas e meninos mundo afora.

O pior dessa tendência, no entanto, é quando se muda a etnia de um personagem ao escalar um ator branco para um papel não-caucasiano.

Nas últimas semanas, a discussão sobre o embranquecimento (whitewashing) das produções hollywoodianas chamou a atenção da mídia especializada. Esse é um assunto que abrange desde a mudança de etnia de personagens, até o uso do chamado “blackface”, quando um ator branco passa por uma mudança estética para parecer de outra etnia. Desde a sua formação, Hollywood vem usando desses mecanismos em suas produções, então vamos analisar um pouco os casos mais recentes e por que eles são prejudiciais.

PAN, do diretor Jon Wright, se propõe a ser um novo olhar sobre a história de Peter Pan, a sua origem. Para os fãs de releituras de contos clássicos, isso poderia ser um filme muito esperado, uma visão talvez mais moderna. Infelizmente, o casting parece ter saído direto de 1950: a atriz branca, Rooney Mara, vive a princesa nativo-americana, Tiger Lily. ¬¬

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Tente não encontrar o erro.

Escalar uma atriz branca para uma personagem originalmente ameríndia acarreta uma enxurrada de problemas – todos decorrentes de racismo. Embranquecer uma das únicas personagens infantis com origem nativo-americana da literatura tira a oportunidade de atrizes não-brancas de conseguirem o papel, numa Hollywood em que quase não há personagens ameríndios, além de diminuir a já ridiculamente pequena representação dos povos nativo-americanos na mídia. Além disso tudo, esse embranquecimento é um baita retrocesso para os filmes de Peter Pan. Tiger Lily, como descrita no livro original, é uma personagem muito estereotipada, mas a adaptação de 2003 conseguiu ao menos escalar uma atriz da mesma etnia da personagem; até o tão criticado Hook – A Volta do Capitão Gancho conseguiu inserir muito mais diversidade do que a adaptação de 2014 parece ter tentado.

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Outro caso que está em evidência no momento é o do último filme de Ridley Scott, Êxodo – Deuses e Homens. O filme conta a história de Moisés e Ramsés desde a amizade de infância até seu confronto final, como inimigos. Êxodo se passa no Egito Antigo e, no entanto, mais uma vez vemos uma tonelada de atores brancos em papéis que deveriam ser de atores negros ou de origem árabe. Christian Bale é Moisés, e Joel Edgerton é Ramsés. Pode parecer incrivelmente comum que atores brancos interpretem figuras histórias porque é assim que tem sido desde sempre. Elizabeth Taylor foi Cleópatra e, mais recentemente, o nome de Angelina Jolie estava circulando no remake do filme – apesar de teorias mais recentes provarem que Cleópatra era, na realidade, negra.

Esse embranquecimento é prejudicial não apenas por tirar a oportunidade de atores negros e árabes, mas porque ajuda na manutenção da crença de que foram os homens brancos que criaram o mundo. Apesar do homem, como conhecemos hoje, ter dado os primeiros sinais na África, continuamos voltando nossos olhos para a Grécia, e imaginando deuses brancos de olhos azuis como os criadores das primeiras civilizações. A escrita foi inventada na região da Mesopotâmia, hoje conhecida como Iraque e Síria. Essa manutenção de uma história baseada numa visão eurocentrista nos impede de realmente compreender a história da humanidade, além de fortalecer uma visão de poder do homem branco em relação aos outros povos.

Nos últimos anos, aconteceu um verdadeiro festival de embranquecimento. Os personagens principais da adaptação de Avatar – O Último Mestre do Ar embranqueceu todos seus protagonistas heróis, deixando apenas o vilão com um ator indiano. Em Wolverine – A Origem, além de todos os erros do filme, eles embranqueceram a personagem Raposa Prateada. Originalmente uma nativo-americana canadense, Lynn teve seu nome mudado para Kayla, e foi interpretada por uma atriz branca. Por mais que eu goste da ação e da diversão em O Cavaleiro Solitário, Johnny Depp interpretou o icônico personagem Tonto, originalmente interpretado por um ator Moicano. Além desses, ainda houve Jake Gillenhal em O Príncipe da Pérsia (em que vários outros atores brancos assumiram personagens árabes), Angelina Jolie encarou o “blackface” para interpretar a jornalista Mariane Pearl em O Preço da Coragem. Até o meu tão querido Jogos Vorazes embranqueceu a protagonista, Katniss, que nos livros é descrita como tendo a pele com tom de oliva.

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Joe Wright tem se mantido em silêncio sobre as críticas que o filme vem sofrendo, assim como Rooney Mara. Por mais que eu ache esse silêncio deprimente, a equipe por trás de Êxodo talvez devesse ter optado por simplesmente não falar sobre o assunto. As declarações que Ridley Scott e Christian Bale deram sobre o as críticas de embranquecimento dos personagens são deprimentes e mostram que Hollywood além de não conseguir perceber o diversidade étnica e cultural da sociedade de que faz parte, muitas vezes não sabe nem mesmo lidar com a diversidade e prefere simplesmente ignorá-la.

Ridley Scott sobre escalar atores não-caucasianos:

“Eu não posso criar um filme com esse orçamento, em que eu preciso me apoiar em isenção fiscal na Espanha, e dizer que o meu ator principal é Mohammad-Qualquer de Tal-e-Tal lugar. Eu não vou conseguir financiamento. Então a pergunta nem aparece.”

Christian Bale sobre o backlash que o filme vêm sofrendo:

“O ponto que Ridley levanta, e que eu acho ser um bom ponto, é com quem um egípcio se parece? Especialmente naquela época, quando era um Império que se estendia pela Europa, Oriente Médio e Africa – então ele fez o casting de acordo com isso. Eu não sei porque o fato de eu ter nascido em Wales e sofrer com uma pele que não pode lidar com o sol deveria decidir que Ridley deveria dizer ‘Neste caso ele não é o homem certo para o papel’. Eu fiz o melhor que eu pude. Eu com certeza não vou passar o papel, é um personagem incrível”.

Christian Bale levantou uma das questões mais tocadas sobre o embranquecimento, uma que as pessoas que não se dão conta da existência dele, ou que simplesmente preferem atacar ao invés de evoluir usam como contra-argumento: se um ator é perfeito para o papel, porque ele não pode pegar o trabalho? Como eu já disse antes, as oportunidades para atores brancos e não-caucasianos não são as mesmas. O micro-universo que é Hollywood é apenas uma representação da confusão toda que acontece aqui fora. Sim, Christian. Moisés é um puta personagem. Um papel que poderia ter sido de um ator de origem árabe.

Mas então é uma questão de cotas? Talvez, mas esse não é o assunto aqui. Então não seria a mesma coisa que transformar personagens brancos em personagens negros/latinos? Personagens heteros em gays? Não, porque essas mudanças são feitas pela necessidade de aumentar a representatividade dos nossos meios culturais. Eu já falei sobre isso em outros textos.

Como pessoas brancas, nós estamos acostumadas a caminhar pela rua, ler revistas, quadrinhos, assistir filmes, propagandas e programas de televisão e ver a nossa etnia em diferentes personagens, em diferentes contextos. Nós nos vemos em todo lugar, temos muito mais espaços de expressão e representação do que o resto das etnias. E é, infelizmente, comum tomarmos essa presença branca como algo natural. Eu sei que é difícil lidar com a consciência de que, por mais que você não se sinta diferente, por mais que você não veja diferença, ela está lá. Mesmo eu, que discuto constantemente o privilégio branco, ainda preciso me cuidar e muitas vezes me dar conta da minha posição de privilégio. Ninguém quer assumir que possui um privilégio em detrimento do outro, principalmente um que é normalizado pela sociedade – mas é isso que acontece. E tirar as já poucas oportunidades de representação que negros, ameríndios, árabes, asiáticos e todas as outras etnias possuem em pró de atores brancos é segregar ao invés de abrir mais espaços, é retroceder – é racismo.

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