O texto contém SPOILERS

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Todo mundo da minha idade teve a época adolescente em que embarcou nos filmes que tratavam do universo das drogas e das experimentações estéticas. A gente viu Laranja Mecânica, Irreversível, Réquiem Para Um Sonho e Trainspotting. Pra gente, acostumado com um cinema adolescente, esses filmes eram a melhor coisa que a gente já tinha visto. Mas muitos desses filmes tinham ficado na minha memória adolescente e eu não tinha revisto desde então. Trainspotting era um deles.

Quando eu soube que ia ver T2, fui rever Trainspotting. E eu adorei. Ele é melhor do que eu lembrava em muitos aspectos. Mesmo tendo sido feito em 1996, ele não é um filme datado, aliás, ele é muito atual. Além disso, ele é sensorial – como grande parte dos filmes de  Danny Boyle – e descontrolado. As personagens são ótimas e os diálogos também. Até a voice-off, que normalmente é um recurso que eu tenho resistência porque costumo achar excessivamente didático, é muito bem usado. Trainspotting é revolucionário. T2 não é. Mas isso não é ruim.

T2 mostra as personagens que a gente já conhecia como homens de meia idade, que vivem questões e problemas que não são ligados necessariamente ao abuso de drogas. Mark Renton, que termina o primeiro filme tentando dar um novo rumo a sua vida, parece estabilizado, mas se encontra no meio de um processo de divórcio, trazendo a frustração de nunca ter tido filhos; Daniel “Spud” Murphy continua lutando contra o vício, pulando entre empregos rápidos e grupos de apoio, com uma relação distante da família; Frank Begbie, preso há vinte anos, foge da prisão e precisa entender sua relação com seu filho e retomar sua vida sexual depois de tanto tempo longe; e Simon “Sick Boy” é um chantagista dono de um bar vagabundo que pode falir a qualquer momento. Então a heroína não está mais estragando seus dias nem guiando suas ações, mas onde eles estão afinal? Esse movimento é interessante porque em alguma medida ele deixa claro que uma leitura óbvia e moralizante do primeiro filme não é possível. Se aquelas personagens sofriam, a droga não era a única coisa que causava esse sofrimento. E é quase melancólico.

E há, claro, Veronika. A personagem é uma prostituta búlgara, que tem um relacionamento estranho – entre amoroso e comercial – com Simon.  Explorada comercialmente, exposta a riscos, dividida entre continuar a tentar a vida em Edimburgo e voltar para casa sem nada conquistado. E além disso, incentivadora de Spud para que ele se descubra como o narrador das histórias dos quatro amigos e a arquiteta do plano para roubar o dinheiro que Mark e Simon, reproduzindo a traição do passado, mas dessa vez, com a expectativa de dar uma vida melhor a sua familia e a ajudar Spud a se redimir do passado de pai omisso. E nós não percebemos isso ao longo do filme. Nós ficamos tão fixados no quarteto e seus problemas que não reparamos na profundidade de Veronika. Ela tira vantagem disso e engana o espectador nostálgico e os personagens que não a levavam a sério. E se vocês querem saber, roubar 100.000 libras parece be melhor que 16.000.

Subestima mesmo, vai 😉

Mas T2 ganha principalmente por estar no lugar certo e na hora certa. O que torna o filme bom é justamente o entreato de vinte anos. Diante de uma indústria cinematográfica que se acelera, o tempo é um privilégio de poucos. Hoje o que se vê é uma absoluta rapidez nas produções, principalmente quando o assunto é adaptações literárias: Crepúsculo e 50 tons de cinza levaram menos de quatro anos para serem adaptados, talvez apostando numa efemeridade do fenômeno e buscando não perder aquele público; Game of Thrones já ultrapassou os livros, pois foi impossível escrever no mesmo ritmo que filmar a série. Quando se fala em eventos reais, o cinema parece estar ainda mais rápido: se antes nós nos perguntamos se dez anos era tempo suficiente para começar a fazer filmes sobre o atentado de 11 de setembro, hoje se encontra em produção um filme sobre a Operação Lava-Jato, que ainda não está terminada. E sabemos que isso é uma questão de mercado, de lucro, mas as  consequências éticas disso são bem discutíveis.

Se T2 tivesse sido feito cinco ou até dez aos depois do primeiro filme, nós não veríamos as personagens lidando com as questões que elas lidam aqui. Talvez nós as víssemos tendo recaídas no uso de drogas, mas seria apenas um pastiche, uma imitação sem a potencia do primeiro filme. Porém vinte anos depois, essas personagens não são mais os mesmos – inclusive eles sequer conseguem se tratar pelos apelidos e chamam uns aos outros pelo nome próprio. Elas já não querem mais as mesmas coisas e não querem reviver o passado de maneira nostálgica. Em um dos melhores momentos do filme, Sick Boy faz um comentário que não deixa de expressar o medo que todos sentimos ao saber que Trainspotting ganharia uma sequencia: “Você é um turista de sua própria memória”. Mas a memória daquelas pessoas não é confortável; na verdade, eles se encontram numa imobilidade desconfortável, como se suas angútias do passado ainda não estivessem resolvidas.

Há obviamente muitas referências a momentos do primeiro filme, principalmente estéticas: planos recriados (meu favorito foi o da mesa da casa de Mark), frases ressignificadas em novos contextos e músicas reutilizadas em momentos distintos. A sequencia final, inclusive, se utiliza muito bem desses recursos, deixando claro que aquelas personagens estão na mesma espiral que os levou a tudo o que ocorreu no primeiro filme. Se Trainspotting abre o filme com Lust  for life, T2 fecha o filme com a música. Além disso, paralelos com cenas icônicas mostram a passagem do  tempo (alguém falou em pior banheiro da Escócia?) e como mesmo em situações diferentes, a insatisfação das personagens consigo mesmas e com a sociedade não mudaram.

O filme tem a grandeza de Trainspotting? Não. Mas T2 escapa a uma maldição incômoda de sequências que desapontam. É um filme muito bom justamente porque não se esforça pra ser tão icônico quanto o filme que o precedeu. Ele não pretende criar um grande evento que una o grupo de amigos e os redima de seus erros. T2 é sobre o tempo e a vida passando. E ela passa até para quem vivia pelo momento sem pensar nas consequências.

No fim, a questão que fica é: será que aquilo que nós traçamos pra nós hoje, aos 20 e poucos anos, vão nos definir pra sempre? Ou será que a sociedade não mudou tanto assim desde que Mark Renton decidiu “not to choose life”?

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