Na Live desta quarta-feira nós falamos sobre as diferenças entre hipersexualização feminina, hipermasculinização masculina e sobre a falsa simetria ao comparar hipersexualização feminina e masculina.

Caso você queira ler, aqui está o nosso guia para a Live! 😉

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Pra falarmos sobre isso tem algumas coisas que precisam ser estabelecidas:

1) MALE GASE – É o Olhar Masculino sobre uma personagem feminina, corriqueiramente isso termina nela sendo desenvolvida dentro de padrões de comportamento e de estética que são fetichizantes e objetificantes, determinando a existência dessa personagem apenas como um objeto criado para agradar a punhetice masculina. Elas também são desenvolvidas para não ofuscarem o personagem masculino e, assim, não parecerem mais importantes do que o leitor em si.

2) FEMALE GASE – É o olhar Feminina sobre um personagem masculino. Esse tipo de olhar é raro, e ainda mais raro é quando ele tende à sexualizar o personagem feminino em questão. Se formos falar sobre ele ser diminuído à um objeto eu realmente não sei se a gente consegue encontrar um único exemplo. Filmes e quadrinhos com um olhar feminino tendem a ser muito mais simpáticos com personagens masculinos do que o contrário.

2) FALSA SIMETRIA – É quando você tenta equiparar duas coisas que estão em situações diferentes. Por exemplo, a hipersexualização de personagens masculinos e femininos, a opressão sofrida por pessoas brancas e negras, etc.

Dito tudo isso, vamos às perguntas que não querem calar:

O Que é hipersexualização?

Quando uma personagem é diminuída e/ou objetificada.

Quando a sua sexualidade é utilizada para agradar o olhar do espectador, tirando dela qualquer humanidade ou senso de identidade. (Imagem Manara)

Quando se decide que um uniforme como esse (Imagem da Emma Frost) faz sentido – seja para lutar, seja em como diabos esse tecido funcionaria.

Quando se desenha uma personagem em uma posição ginecológica, que faz pouco ou nenhum sentido em uma cena de luta (ou em qualquer cena).

Quando todas as personagens femininas aparecem, em algum momento, com a bunda em evidência no pôster do filme – note que é quase contorcionismo ficar com peito e bunda no mesmo plano. (Viúva Negra)

Personagens Masculinos são hiperssexualizados?

Se permite sexualizar alguns poucos personagens femininos, mas nenhum deles é diminuído à isso. Gambit, Asa Noturna, Deadpool (?), Thor (nos filmes) e Amor são alguns dos poucos personagens cujas histórias e/ou imagens já os colocaram sob a female gaze, nenhum deles, no entanto, foi diminuído de sua humanidade, nenhum deles usa uniforme marcando as bolas, nenhum dos tecidos dos seus uniformes delinear o corpo deles como o tecido das personagens femininas o faz.

Eu tenho inclusive a teoria de que o Asa Noturno é eunuco, pq toda vez que ele aparece de perna aberta existe um vácuo no lugar de onde estariam as partes dele. (Imagem do Asa Noturna)

Não que eu queria ver as partes dele, mas as partes femininas né, tem gente que faz até sombra.

Mas e o Wolverine sem camisa? E o Sexy Ryu? E o Lobo? E o Thor dos quadrinhos?

É aqui que entra a diferença primordial quando se fala em personagens femininos e masculinos com pouca roupa: o público alvo.

Veja bem, Quando se desenha uma super-heroína com pouca roupa o público que o desenho quer atingir é o masculino – apela-se para a punhetagem desse público, vendendo sexo, vendendo o corpo feminino.

Quando se desenha um super-herói como o Wolverine, o Thor dos Quadrinhos, Batman e Superman sem camisa, com o corpo todo sarado, veias pulsando de todos os lugares, o público que esse desenho quer atingir é o masculino – apela-se para um ideal de masculinidade, um ideal de que homem é sinônimo de força física, de que masculinidade é sinônimo de violência. Não é no público feminino que se pensa quando Ben Affleck vira pneu em Batman vs Superman, é no carinha que vai olhar praquela cena e pensar “Fuck yeah macho man”.

Obviamente existem mulheres que gostam desse tipo de homem supersarado veias saltando, mas elas são um público acidental – elas não são a razão pela qual opta-se para mostrar esse tipo de físico masculino.

A hipersexualização feminina e a hipermasculinização do personagem masculino tem, no final, o mesmo público alvo: homens. E os dois ajudam a sustentar um sistema excludente e violento – tanto para as mulheres, quanto para os homens.

Do ponto de vista feminino, criar apenas esses tipos de padrões gera:

– Exclusão de uma porcentagem imensa de público. Pensando de maneira binária, homens e mulheres, esse tipo de construção pode gerar a exclusão de quase 50% de público que poderia estar pagando para consumir esses personages – é burrice editorial. Rebeca parou de comprar quadrinhos pq cansou. Voltou com a Thor.

– Cria padrões de beleza inaucansáveis – ninguém nunca vai ser a Vampira, ou a Mulher Maravilha. Isso afeta diretamente a auto-imagem que as mulheres tem delas, contribuindo para uma visão negativa que as mulheres tem dos seus próprios corpos.

– Segrega ainda mais a representação feminina: personagens não-brancas tendem a ser ainda mais hiperssexualizadas do que personagens brancas. Se elas tiverem origens africanas, nativo americanas ou asiáticas isso só piora, já que elas vão ser representadas sempre puxando para uma sexualidade fetichizante, que volta e meia cai em representações que incluem biquínis de oncinha.

Do ponto de vista masculino:

– Cria padrões de masculinidade que são tóxicos, pautados em violência e com corpos tão impossíveis quanto os femininos. Ao mesmo tempo que isso cria um ideal de masculinidade, esmaga a masculinidade dos caras que consomem essas imagens e histórias. Se você não é um homem forte e/ou violento, então não é homem.

– Diminui o seu público à um punhado de nerds punheteiros.

– Cria, na cabeça masculina, um ideal de mulher que é irreal e fetichizado. Isso não só contribui para a visão masculina de que mulheres são menos do que homens, como também para o comportamento violento masculino em relação à mulher.

Eu não estou dizendo, em hipótese alguma, que quadrinhos são culpados pela violência que o homem faz. Mas quadrinhos, assim como qualquer meio de comunicação e arte, não vive dentro de uma bolha onde seus consumidores não são afetados pelos sinais e pelos símbolos que eles ajudam a sustentar.

Como podemos mudar isso?

Mudanças já estão acontecendo, as editoras estão cada vez mais preocupadas com o modo como suas personagens femininas estão sendo retratadas, quais histórias e quais uniformes elas estão usando. Batgirl, MoonGirl, Kamala, a Thor e Miss Marvel são algumas dessas representações diferentes e mais positivas. Ainda existe muito chão pela frente, mas já estamos em um caminho interessante.

 

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