Ontem eu fiz uma Live no Facebook pra falar sobre essa questão da Marvel ter perdido dinheiro por causa da diversidade. Acabou que fiz toda uma pesquisa antes, então o vídeo está meio-que delineado/roteirizado em texto também.

Se não quiser assistir, pode ler o roteirinho – mas tá meio bagunçado!

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A pergunta que não quer calar: O Excesso de Diversidade Fez as Vendas da Marvel Cair?

A resposta:

Não. 😀

Esse fim de semana o rolê dos quadrinhos veio a baixo com a notícia FALSA de que a Marvel estava perdendo dinheiro por causa da diversidade. A primeira coisa que eu pensei quando li isso foi que a Miss Marvel esteve diversas semanas consecutivas na lista de livros mais vendidos do New York Times.

Retrospectiva do que aconteceu:

– Em entrevista ao site ICv2 (se existe um jeito correto de falar esse nome eu não sei e não me importo) o Vice Presidente de Vendas da Marvel Comics disse o seguinte:

“O que nós escutamos foi que as pessoas não queriam mais diversidade. Eles não queriam mais personagens femininas. Isso foi o que nós escutamos, acreditemos ou não. Eu não sei se isso é a verdade, mas foi isso que nós vimos nas vendas.

Nós vimos a venda de qualquer personagem que era diverso, qualquer personagem que era novo, nossas personagens femininas, qualquer coisa que não era um personagem de origem da Marvel, as pessoas estavam virando o nariz para eles. Isso foi difícil porque nós tivemos muitas idéias novas e animadoras que estávamos tentando colocar no mundo e nada realmente funcionou.”

Isso bateu diretamente de frente com o que o que Editor Chefe, Alex Alonso, falou em uma entrevista liberada dois dias antes. Lá Alonso disse que a busca por diversidade tem mais a ver com negócios/dinheiro do que com política. Ele ainda falou sobre como o backlash que possa existir à diversidade tende a sumir assim que as revistas chegam às prateleiras. Para completar, o moço até contou sobre a história de como o seu sobrinho, que é americano de origem coreana, se identificou com a nova versão do Hulk, Amadeus Cho. De acordo com ele, mais audiências estão se conectando com a Marvel – visceralmente.

Depois que a polêmica se instaurou, Gabriel soltou uma nota diferente. Nela, ele disse que jolistas e fãs continuam felizes com os novos personagens e que Squirrel Girl, Ms Marvel, The Mighty Thor, Spider-Gwen, Miles Morales e Moon Girl continuam a provar isso. Disse que a Marvel tem orgulho em continuar introduzindo personagens que conversem com novas vozes e experiências, que se conectem com os seus heróis icônicos. Eles também escutaram o outro lado, pros lojistas que querem que a Marvel volte a dar mais espaço para os seus personagens de base, e eles estão trabalhando nisso também.

Antes da gente voltar nos problemas da fala do Gabriel, eu quero falar um pouco sobre polêmica.

POLEMICA

– Não é a primeira e não será a última vez que tiram uma informação e aumentam ela pra gerar click bati. Aconteceu lá fora, aconteceu aqui dentro.

– Eu tento ficar longe dessas polêmicas pq elas acabam gerando mais publicidade negativa do que positiva para a “causa da diversidade”, mas quando sites grandes começam a falar sobre isso eu me sinto obrigada a também discutir.

– Nunca imaginei que ia ter que escrever sobre o suvaco da Mulher Maravilha, mas né. Está aí, tive que fazer isso

– Quem é contra diversidade nunca vai perder a oportunidade de tentar criar intriga.  é um atraso pro mercado de maneira geral, porque ao invés de nós estarmos conversando e discutindo a qualidade das histórias nós precisamos perder tempo explicando pq diversidade é importante.

Mas vamos tentar destrinchar quais são os problemas da fala do Gabriel, VP de Vendas da Marvel.

SOBRE SAGAS, EVENTOS E TODAS ESSAS MIL REVISTAS

A Marvel teve 90 eventos, 350 cross-overs e mil revistas lançadas em dois anos. Aí você tá lá acompanhando o seu personagem favorito e do nada entra uma outra história no meio, dele POR ALGUMA RAZAO brigando contra o amiguinho, e a história do personagem mesmo fica em hold, esperando o evento acabar. Aí quando o evento acaba o personagem tá de outra maneira, descaracterizado e jesus sabe o que mais.

É difícil. É preciso resistência pra aguentar 20 eventos acontecendo ao mesmo tempo. É preciso dinheiro pra comprar todas essas revistas.

E mesmo que você compre todas essas revistas, você vai cair em histórias escritas por roteiristas que não conhecem o personagem e que vão descaracterizá-lo totalmente. Seja ele um personagem classificado como “diverso” seja ele o Capitão América – Olá Nick Spencer 😉

Se para os fãs mais antigos já é difícil acompanhar, pros novos fãs, que a Marvel tanto se esforçou pra trazer é mais ainda.

Essa quantidade de sagas, eventos e cross over também não atesta par aa qualidade das histórias. Sim, existem pérolas no meio disso tudo “Infinite Gautlet, por exemplo”, mas a grande maioria é uma sopa de letrinhas pasteurizada e confusa.

Digamos que você tenha a grana para as 27 revistas que o evento tá juntando. Beleza. Nem a pau que metade dessas 27 revistas vão ter histórias realmente boas. Você pode amar Guerra Civil, mas nem todas as revistas que aquele evento englobou foram boas.

Isso tudo assumindo que você deu sorte de estar acompanhando um dos protagonistas do evento. Pq se você tá acompanhando Justiceiro ou Amadeus Cho, tanto faz, e o Drax caiu na Terra e por alguma razão ele é o centro do rolê – ferrou. Seu personagem não tá no centro da história, mas pra entender a história do personagem que você tá acompanhando, você precisa ler sobre o Drax ou sobre o Dr. Estranho plantando flor na Austrália pq essa flor vai ser vital para o Drax no futuro.

É inviável.

SOBRE PESSOAS NAO QUEREREM MAIS DIVERSIDADE

-“Nós escutamos que pessoas não querem mais diversidade” – Eu escuto isso TODO SANTO DIA. E todo santo dia eu escuto o exato oposto também.

– Se tem uma coisa que o público de quadrinhos consegue ser é conservador. É um público que fica preso à forma original de personagens que foram criados há mais de 40, 50 ou 60 anos e que, muitas vezes, quer que os personagens inclusive regridam à algo que eles nunca foram.

X-Men – foram criados como representantes de minorias, era um monte de personagem para discutir o modo como a sociedade tratava minorias. Tem todo o rolê Professor X – Martin Luther King e Magneto – MAlcom X (que em si já é um absurdo). Os personagens de origem, no entanto, eram todos brancos e belos. Lá em 1950 talvez essa fosse a melhor maneira de apelar para um consumidor branco e botar um pouco de senso dentro das cabeças racistas, mas hoje os X-Men precisam melhorar muito no que tange diversidade étnica e de sexualidade se quiserem continuar fiéis à sua origem. Ainda assim tem fã de X-Men que fica irritado quando os personagens discutem diversidade, racismo, homofobia ou machismo.

– Gente sem noção sempre vai ter. Próximo.

SOBRE A VENDA DE PERSONAGENS DIVERSOS ESTAR RUIM

As vendas não estão lá essas coisas e ponto. Pra personagem nenhum da Marvel. Ano passado ela deixou de ser editora com maiores vendas, perdeu pra DC, algo que não acontecia fazia alguns anos já. E existem muitas razões pra isso.

– O número de lançamentos que ela jogou no mercado nos últimos dois anos. Foram muitos títulos novos, muitos que acabaram cancelados no meio do caminho, e muitos deles com narrativas que simplesmente não convenceram.

– All-New All-Different Marvel Now foi lançado em 2015 com todo um rolê de “Olha só toda essa mudança que a gente tá fazendo, olha só toda essa diversidade”. E eu não quero tirar o mérito da Marvel, pq ela realmente vem fazendo um trabalho de inclusão que talvez não tenha precedentes, com autores e personagens que a gente não tinha visto antes, mexendo com personagens clássicos e tudo mais. Mas All-New All-Different também manteve MUITAS das equipes criativas, e muitas delas eram formadas principalmente por caras brancos que, inevitavelmente, vão colocar a visão deles dentro do que eles escrevem. Ou seja, o all new não foi todo tão diferente assim.

– Ontem eu soltei um texto discutindo exatamente isso, como Nick Spencer, responsável por Capitão América: Sam Wilson conta a história do ponto de vista dele, e como isso acaba enfraquecendo o personagem e a narrativa, pq Sam não é Steve, e eu honestamente acho que Spencer não sabe que Steve é de verdade também.

O Comic Book Ressaouses fez um texto muito bom mostrando os dados dessa queda de vendas – e esses dados estão abertos na internet pra todo mundo que quiser comprovar. O que eles acharam foi que o problema não está só nos quadrinhos com diversidade, mas na Marvel inteira.

– Em fevereiro de 2017 só duas séries de super-heróis venderam mais do que 40.000 edições. The Amazing Spider-Man e  The Mighty Thor, e ainda assim é quase a metade do que na época pré-Secret Wars, em 2015. Só pra fazer o note: nessa época já era A Thor, beleza?

Dos TOP 10 livros mais vendidos da Marvel apenas três são estrelados por minorias – The Mighty Thor, que vem sendo carro chefe de vendas da Marvel há anos, Invincible Iron Man, e Black Panther. Todos os outros, que também tiveram a queda brusca na venda, são estrelados por homens ou equipes primordialmente masculinas. Eles também estão sendo desenhados e escritos por equipes massivamente brancas e masculinas.

É aqui que entra aquela questão: Se nós formos olhar os números como um todo, homem branco perde muito dinheiro. Dos 20 filmes que mais tiveram prejuízo em Hollywood 20 foram dirigidos por homens e 19 tiveram como público alvo principal, o masculino.

Porque só se leva em consideração 3 dessas 10 revistas? Pq são essas três revistas que vão dar força pra falácia que é narrativa de que diversidade fez as vendas caírem. Enquanto as outras 7 não, elas são pequenos milagres de jesus. Um escorregãozinho.

A história do mercado de quadrinhos conta outra coisa.

SOBRE O MERCADO E O PUBLICO DE QUADRINHOS

Nos EUA você não encontra edições únicas em nenhum lugar senão em Comic Book Shops, lojas especializadas. Você não entra numa livraria e sai com Homem-Aranha #20. Lá também só há um distribuidor, a Diamond, que é responsável pelo mercado americano, canadense e inglês. Ou seja, ou você está dentro da área de alcance dessas comic books, ou não está.

Quem já foi em uma Comic Book sabe o quão incríveis esses lugares podem ser, mas eles também são ambientes que ainda são extremamente excludentes. O que não faltam são histórias de garotas e outras minorias se sentindo excluídas e mal tratadas dentro desses espaços. Se aqui no brasil, que eu posso comprar meu gibi na banca, a comic shop ou na livraria, eu já tive que aguentar vendedor homem querendo me explicar sobre quadrinhos, imagina dentro de uma comic book americana? Quando a gente fala sobre homenxplicaação e o pedido de carteirinha nerd, muitas dessas histórias tem origens dentro desses ambientes.

Aí você tem livros que são destinados à essas minorias, que ou antes não habitavam esses ambientes, ou que ainda são excluídos dentro desses ambientes, e quer que elas vão até lá para comprar.

O mercado de quadrinhos nunca foi a coisa mais consistente do mundo – assim como nenhum mercado é.

Em 1993, quando o mercado de quadrinhos americano estava num momento de ascensão, Neil Gaiman foi convidado para falar num evento para lojistas, senão o mesmo, um muito similar ao que o VP da Marvel estava quando soltou a polêmica. Era um momento em que as Comic Shops explodiam, tudo estava aquecido e se viam as HQs como fonte infinita de dinheiro. Nesse discurso o Gaiman contou sobre a história da Holanda e as Tulipas, no século 17. Sobre como o país inteiro investiu loucamente em Tulipas, que pra eles era uma coisa muito importante, com o custo do kilo da Tulipa custando mais do que uma carruagem e, quando o resto do mundo não demonstrou o mesmo interesse, o país quebrou. Porque eles não se preocuparam em trabalhar a Tulipa, eles se preocuparam em fazer dinheiro.

Ninguém entende porra nenhuma. Alguns lojistas ficaram ofendidos com o que Gaiman disse mas, um ano depois, o mercado quebrou e com ele foram-se o sustendo e as lojas de diversas pessoas. O mercado levou quase dez anos pra se recuperar novamente.

Isso tudo pra dizer que não existe um tipo de quadrinho que vá vender bem 100% do tempo, ainda mais se você tiver expectativas irreais com o mercado.

O que Gaiman quis dizer ao contar essa história qfoi que não pode ser só sobre o valor do quilo da Tulipa, precisa ser sobre a qualidade dela. Ainda mais se você precisa concentrar as suas vendas em comic book shops.

No caso Tulipas são Quadrinhos. E quadrinhos com boas histórias, vendem. Porque as pessoas falam sobre elas, porque o vendedor vai ler e colocá-la no display em destaque. Mighty Thor taí pra provar. Muitas pessoas criticaram muito a revista por trazer uma mulher como Thor, mas a qualidade da história fez os leitores ficarem. O mesmo com Kampala Khan, Squirell Girl e Moon Girl.

PUBLICO NOVO FUNCIONA DE MANEIRA NOVA

O que a Marvel fez em todos esses últimos anos foi trazer um público diferente pra dentro da marca, mas ela ainda precisa aprender a entender os hábitos de consumo desse público. O que está acontecendo agora, como a autora da Kampala disse no post que ela fez durante o fim de semana, é o aumento dos quadrinhos para Jovens Adultos.

E esse é um público que vem dos livros, que segue os autores para onde eles vão – e alguns deles chegaram aos quadrinhos. Roxane Gay, que está escrevendo Wakanda, não é roteirista de quadrinhos originalmente. O Mesmo para o roteirista de Pantera Negra, que fez sucesso escrevendo sobre questões da comunidade negra, e a roteirista de América, que também é autora de livros YA com temática LGBT. A Marvel foi atrás de um público maior, e os alcançou.

Mas esse público ou não tem o costume de ir até uma comic book shop, ou não se sente confotável nesses espaços ou simplesmente acha melhor comprar os colecionáveis, as edições que compactam várias single issues.

Como eu disse lá no começo da Live a Miss Marvel ficou diversas semanas consecutivas no topo da lista de livros mais vendidos do New York Times – até que em novembro o jornal tirou os quadrinhos da contagem.

Mas esses colecionáveis não entram nesses números de queda ou aumento de venda – pq a Marvel ainda não aprendeu a lidar direito com eles, e nem com as vendas online se nós formos ser completamente sinceros aqui.

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