[ALERTA PRA SPOILERS MUCHOLOCOS]

Resposta curta? Não.

A sexta temporada de Game of Thrones recebeu muitos elogios dirigidos ao modo como retratou as suas personagens femininas – a maioria deles foram merecidos. Nós tivemos não uma mas praticamente todas as personagens traçando um caminho interessante, completando uma parcela importante de seus arcos de personagens e ainda ganhamos a incrível Lady Mourmout. Mas isso não quer dizer que Game of Thrones agora é feminista.

sansa-sleep well

A série, baseada nos livros de George RR Martin, de fato abordou temas feministas nessa temporada. A intenção aqui não é desmerecer o quão satisfatório foi ver Sansa colocar o irmão no chinelo quando jogou em sua cara dentro da cabana que ela deveria ter sido consultada, pois era ela quem conhecia o inimigo. E quando Jon se deixou levar por Ramsay Bolton, vê-la chegar junto ao exército de seu primo foi incrivelmente satisfatório, mas como esquecer que essa foi a série que sentiu a necessidade de fazer Sansa passar por um estupro, que não existe nos livros, para fazer a personagem se reerguer? Sansa não foi vitimada uma vez pela série, mas diversas.

Existem histórias de estupros que vão ser contadas do ponto de vista da vítima, que abordarão o tema com a profundidade que ele precisa ser abordado, que lidarão com os traumas e a recuperação (ou não) da vítima de maneira a se tornar uma história necessária. Essas histórias serão histórias contadas com a intenção de discutir e problematizar ao máximo um ato tão violento. Game of Thrones não é uma dessas histórias. Os estupros de Daenerys, Cersei e Sansa não são essas histórias. No caso da Cersei eles nem se deram conta de que tinham colocado um estupro na cena.

Sansa salvou o dia e o Norte com sua estratégia, mas no final de tudo foi Jon , o cara que matou quase seu exército inteiro por não ouvir os conselhos da irmã, que foi coroado o Rei do Norte.

Daenerys-and-Yara-join-forces-574493

Daenerys parece finalmente estar caminhando para completar o seu destino e ser rainha de toda Westeros. Raptada pelos Dothrakis, a Khaleesi se recusa a ser salva pelos cavaleiros em cavalo branco que vem para salvá-la, queima todos os homens que a queriam submeter e sai de lá chefe poderosa de todo exército. Por mais cansativo que o arco de Daenerys as vezes pareça ser, já que ela até então parecia que nunca chegaria de fato à King’s Landing, vê-la voando nos dragões e queimando aqueles navios foi incrível. A aliança dela à Yara Greyjoy deixou o mundo do shipps eufórico e forneceu talvez uma das primeiras interações entre mulheres (que não sejam da mesma família) realmente baseada em apoio mútuo.

Mas, além da ameaça constante de estupro que Daenerys sofreu com seus raptores, mulheres nuas continuam sendo moeda de troca enquanto duas pessoas conversam sobre assuntos diferentes. Se nas temporadas anteriores isso acontecia enquanto dois homens conversavam, hoje a mulher nua e prostituta senta no colo Yara enquanto ela fala com seu Theon. É positivo ver a representação de uma mulher abertamente lésbica exercendo sua sexualidade abertamente num seriado de tanto alcance? Sim. Mas usar mulher como objeto de cena, mesmo quando ela está interagindo com outra mulher, continua sendo machista. Continua sendo a objetificação feminina. Continua sendo um dos grandes problemas da série.

Cersei Rainha

Cersei é talvez, ao meu ver, uma das vilãs mais interessantes que a televisão atual ofereceu às mulheres. É realmente incrível ver o modo como a agora Rainha de Westeros passou de vilã maquiavélica, para mulher atormentada, para mãe desesperada e finalmente para Rainha louca. Cerrei desperta um tipo de admiração assustada exatamente porque a série trabalhou tão bem as nuances da personagem, o que só deixa o estupro dela por Jaime ao lado do corpo do filho dos dois tão imbecil. Isso afetou, inclusive, o modo como Jaime era representado. O personagem também passou por talvez os mesmos momentos de personagem que Cersei, mas à ele foi oferecido a possibilidade de redenção… Que os roteiristas jogaram fora com aquela uma cena de estupro. Hoje eu vejo Brienne se despedir de Jaime com aquele olhar pesado e me pergunto se seriam os mesmos olhos soubesse ela que transformaram Jaime em um estuprador.

Quando Cersei consegue separar o estado laico da igreja, matando assim todos os seus sacerdotes da fé dos sete, é para sua algoz feminina que ela guarda a pior das torturas. Acredite, eu também sentia um odiozinho por aquela personagem, mas é difícil não ver Cersei a deixando na sala com o agora “zumbizento” Montanha, jurando que ela vai sofrer antes de morrer, e não sentir que o que a série promete é violência sexual contra a personagem. Não sou eu que imagino isso, é a série que me mostra um padrão desse tipo de violência e insinuação. Cersei sofreu a vida inteira na mão de homens, mas é incrível como sua violência tão frequentemente se volta contra mulheres.

Brienne, que também já foi assediada sexualmente na série, também teve uma temporada muito legal, apesar de razoavelmente parada. Se os primeiros episódios mostraram ela salvando Sansa dos Boltons, é um pouco frustrante vê-la correr de um lado para o outro ao invés de entrar na guerra junto dos outros cavaleiros. A admiração de Tormund por Brienne fez muita gente ter sentimentos conflituosos sobre esse possível desenvolvimento da personagem. Particularmente, eu sou contra. Brienne não precisa se apaixonar por um homem para ser feliz, a felicidade da personagem está em ser uma cavaleira – e isso é maravilhoso. Assim como espero que Rey não tenha um arco romântico em Star Wars (CHOQUE: Nem toda mulher precisa se apaixonar para ser completamente feliz), espero que o caminho de Brienne até a realização completa de seu arco seja aquela de um cavaleiro tradicional: ele tem um amor platônico ou não, que nunca vai se concretizar completamente por causa das circunstâncias, mas ele vai continuar lutando e seguindo nas suas aventuras. Há algo de inovador e incrivelmente feminista em levar uma personagem como Brienne ir até o final sem que ela precise estar atrelada romanticamente à um homem.

Vingança-Arya

Arya, que nessa temporada teve inclusive seu momento Identidade Bourne, talvez seja a personagem feminina que menos sofreu com o machismo e a misoginia da série. Seu arco, apesar de soar muito apressado, como o resto da temporada diga-se de passagem, nos deu algo muito difícil de se ver em qualquer gênero do cinema, televisão, literatura ou video games: uma mulher vingando a sua família. E por essa pequena mas importante ruptura com os padrões, eu fico grata.

Sobre as Sand Snakes, eu honestamente não saberia nem o que dizer, já que elas mal apareceram e, quando apareceram, foram para suprir a fantasia de “feministas violentas loucas”, matando o rei adoecido enquanto discursavam frases de efeito.

Game of Thrones está cinto temporadas inteiras longe de poder se considerar uma série feminista. Com o final da sexta temporada a série bate a marca de sessenta episódios. Desses sessenta, apenas quatro foram dirigidos por uma mulher (Michelle McLaren), e também apenas quatro foram escritos por mulheres (Jane Espenson e Vanessa Taylor). Dez episódios tiveram direção de fotografia feita por uma mulher (Anette Haellmigk). Como pode uma série com tão poucas mulheres envolvidas no processo criativo receber o crédito de feminista?

Game of Thrones abordou temas feministas, desenvolveu personagens femininas para além de donzelas em perigo e pareceu construir uma tentativa de redenção dos seus erros do passado (se é que isso foi realmente consciente) – e todos esses elementos são muito, muito importantes. Todos os temas e representações que a sexta temporada trouxe são essenciais para construirmos histórias cada vez mais interessantes do ponto de vista feminino.

Mas o Norte, e as mulheres, se lembram.

The-North-Remembers-gif

PS: Se você insistir na “fidelidade histórica” da série, aconselho a leitura desse texto. 

  • Toda vez que tem um post novo eu corro pra ler e adorei esse.
    Essa foi uma otima temporada, mas isso não apaga os erros do passado, é bom ver a série evoluindo, mas ainda temos que ficar de olho para que o discurso machista se fortaleça.

    Beijão!
    Debb
    http://www.gatoqueflutua.com.br

  • Alicia

    Sobre a Brienne, o que eu achei interessante no Tormund ter esse crush nela (mesmo que não seja mútuo), é que é aquilo de se for pra alguém gostar de você, que seja por quem você é mesmo. Ela não precisou por nenhum vestido ou se tornar uma “lady” pra alguém se interessasse nela. Não que ela estivesse procurando por isso. Mas a gente quase nunca vê isso nas histórias, então foi legal.

  • Sobre a Cersei ter seu ódio voltado mais para mulheres, eu discordo. Ela odeia qualquer um que chega perto dos filhos ou que ameace seu poder. Estarei aqui pra defender tudo que a personagem é/representa sempre. Eu amo a Cersei!
    Bem, o ódio dela é bem claro, pelo menos nos livros e um pouco na série, contra Pycelle, Tyrion, Ned, Robert, Mindinho, Kevan, Lancel, Alto Pardal, etc. Ela odeia qualquer homem que já fez mal para ela ou para os filhos, mas o maior problema é que não temos muita nitidez nos pensamentos dos personagens na série, né?
    O único ódio sem precedentes nem motivos sólidos da Cersei para uma mulher é o contra a Margie (.>
    E a Asha está longe de ser uma boa representação. Ela é uma personagem bi/lésbica que faz o máximo de piadinhas machistas/ridículas que pode, personalidade IGUALZINHA a do Bronn.
    Eu odiei todo esse arco da Arya. A ideia foi boa, mas a execução deixou MUITO a desejar.
    Nem fala das Sand Snakes que eu choro e grito pela Arianne ;-;

    E, sinceramente, fidelidade história é a minha mão na cara de quem fala isso. A série se passa num mundo de fantasia. Material base do fim do anos 90. Não. Tem. Essa. Desculpinha.
    MUITO BOM O TEXTO. Adorei. 10/10

  • Eu amei ver o Grande Septo de Baelor explodindo e a trilha desta cena. Sobre a vingança da Cersei contra a sua algoz feminina, acho que o que pesou mais foi o fato dela ter sido a “torturadora” dela. Mas, concordo contigo e acrescento que acho que ela (a algoz que esqueci o nome, infelizmente) devia ter ficado no Grande Septo e o Alto Pardal que devia ser torturado, afinal, ele que era o manda-chuva da religião. Sobre o Tormund, achei fofo o crush dele pela a Brienne pelo o mesmo motivo que a Alicia, mas com certeza ela não vai corresponder. Ela já demonstra isso, sei disto por conhecimento de causa (de levar fora). Sobre a Arya, apesar de muitos não terem gostado do arco dela, amei o fato dela estar se tornando uma “self made woman” e, como você disse, estar vingando a família dela. Sobre a Sansa, há boatos que ela vai ter um desentendimento com o Jon e, talvez, até lutar pelo o trono do Norte. Mas, infelizmente, tudo isso será por influência do Mindinho. Sim sou um dos que shipa a Daenerys com a Yara, mesmo essa última tendo alguns defeitos (já citados aqui por você e por Miquéias) de construção de personagem. Estou ansioso para ver o embate entre Daenerys e Cersei e como isso vai repercutir em Westeros. Para finalizar, essa foi a única temporada que consegui acompanhar inteira pois, com exceção da citada cena da Yara no bordel, não teve cenas de sexo e nem de estupro. Sei que estupro não é sexo, mas até as cenas de sexo nessa série são violentas para mim. Mesmo com consenso, ainda havia abuso de poder e submissão em relação dos homens com as mulheres.

  • Já faz algum tempo que acompanho o Collant e essa é a primeira vez que comenta. Quero começar dizendo que amo as postagens (apesar de, algumas vezes, não poder acompanhá-las com a frequência que eu gostaria). Quanto a essa temporada de GOT, fiquei com a impressão de que eles exageraram no fan service para tentar compensar pelos erros (sendo o estupro da Sansa o pior deles) da 5ª – o que não faz com que esses erros desapareçam. Não curti muito o episódio final por causa daquela cena da Cersei com a Septã Unella. Eu preferia que a Unella tivesse morrido no Septo a ser entregue nas mãos do Montanha – que é, tanto nos livros quanto na série, um estuprador. Aquilo me deixou muito agoniada. E também a cena em que o Jon foi declarado rei (nada contra o Jon ou ele ser um filho ilegítimo – porque, a menos que o Raegar e a Lyanna tenham arranjado um Septão e se casado, o Jon continua sendo um Snow ou um Blackfyre). Em um reino tão preconceituoso em relação a crianças nascidas fora do matrimônio, preferir um bastardo a uma mulher no poder (especialmente uma mulher que foi fundamental para a vitória deles)… Por mais que a Sansa tenha parecido satisfeita com a nomeação do irmão pra rei, isso me chateou. Não vou nem comentar sobre Dorne ou sobre o sistema de teletransporte que alguns personagens usaram, porque já desisti de entender a lógica por trás disso. Enfim, amei o texto.

  • Chester

    Ver o Jon sendo coroado rei do norte depois de quase matar quase todo seu exército (e detalhe que esse cara nem queria lutar guerra nenhuma, se não fosse a Sansa o norte ainda seria dos Boltons) foi uma das coisas mais ridículas dos últimos tempos. Desde início foi ELA quem quis recuperar sua casa, ELA que salvou todo mundo ali com o exército do Vale. Esse moleque insuportável tem sorte de ser querido pelo autor.

    A moral feminista que o plot da sansa padsou foi: vc vai salvar todo mundo e no fim um bastardo burro ainda vai ser coroado no seu lugar.

    Ps: antes que venham falar que ele não é bastardo por ser filho da irmã do ned: o lixo humano do rhaegar ainda era casado quando engravidou ela, então ele continua bastardo. E é Jon Sand, visto que a Torre da Alegria fica em Dorne.

  • Tem algo que fiquei pensado sobre os episódios 9 e 10, no 6×09 Sansa diz para Jon que ela devia ter sido consultado sobre quem é realmente Ramsay, interessante no primeiro momento, mas depois me deixou chateada (essa fala será reproduzida de novo na próxima temporada). Digo isso porque me pareceu que Sansa só se manifestara quando perguntada caso o contrário ela não o faz, aí no episódio 6×10 mais uma vez coisas importantes na vida de Jon e Sansa ocorre e mais uma vez Jon não quer saber da opinião dela e ela tão pouco se manifesta verbalmente. Meu fiquei puta demais com que fizeram com a personagem, desde quando ela precisa que Jon ou qualquer outra pessoa vire para ela e diga, “Então, esse é um assunto de seu interesse vc está autorizada a falar! Sério que mais uma vez D&D e Bryan Cogman tiveram essa audácia, Iara/Asha, Danny, Lyanna Mormont quando querem falar na frente de um bando de marmanjo falam e não esperam que nenhum deles vire para elas e perguntem o que vc acha? Elas não só ganham uma voz ativa, como também tem seus pontos de vista sobre o assunto respeitado (né, Jon !). Bom, talvez seja viajem minha, mas Sansa precisa e merece mais , quero o direito de fala de uma Stark do sexo feminino respeitado.
    PS: talvez isso seja reflexo do que vc disse a maioria dos roteiros eram escritos por homens e esse se quer fizeram uma consulta de uma mulher.

  • Jéssica

    A série tem machismo sim, não quero negar isso, mas discordo em muito do que vocês e muitos outros falam do assunto.
    Primeiro sobre a questão da fidelidade histórica. Já li o o outro texto de vocês e sinceramente… a história é retratada num mundo de fantasia sim, mas a intenção não é passar uma realidade paralela ideal onde as pessoas vivem igualmente. Por mais ficcional que seja, tem a intenção de mostrar a humanidade sim, será que é tão difícil de entender isso?
    Já vi tanta gente revoltada falando que transformaram a primeira vez de Daenerys e Drogo em um estupro, mas parece que não lembram que no livro, depois do casamento ela era estuprada por Drogo todos os dias até começar o romance. Sobre sansa, o problema principal foi terem mudado pra ela casar com Ramsay, depois disso, só esperar o pior. Vocês esperavam o que de um sádico daqueles? E isso, infelizmente era o que acontecia com muitas mulheres.
    Será que foi Jon que matou sozinho o exército? Será que se ele soubesse que tinha algum reforço não poderia ter mudado a estrategia e poupado a morte de tantos? Jon foi coroado rei por motivos de machismo, mas também pelo fato de ser um comandante. Ganhou respeito por todos e de outras batalhas que saiu a frente, infelizmente era mais lógico que ele assumisse do que uma moça sem nenhuma experiencia em governança e estratégia de guerra.
    Também gosto muito da Asha mas odiei esse plot homem machão mulherengo que colocaram pra ela.
    A série tem sim muita nudez e objetificação, mas fazem isso porque simplesmente é o que vende, a trama já ficou famosa pela “putaria”. Não estou satisfeita com isso, mas eles sabem que vende.

    A série não é feminista, mas sou bem relutante em pensar que tudo que colocam de ruim para as mulheres é porque querem mostrar como certo.

    “Cersei sofreu a vida inteira na mão de homens, mas é incrível como sua violência tão frequentemente se volta contra mulheres.”. Cersei é um monstro. Simples. Você pode defende-la porque é uma vilãmassademais, mas…

%d blogueiros gostam disto: