Quando você acha que a comunidade gamer não pode piorar, ela vai lá e te surpreende mais uma vez (ou não). É chover no molhado falar que comunidades gamers não são seguras. Jogadoras são assediadas, mulheres da indústria são perseguidas, jogos estão recheados de estereótipos ruins e por aí vai. Porém, esse final de semana, ganhamos um item a mais para provar isso.

Allie Rose-Marie Leost, uma ex-funcionária do EA Labs, sofreu assédio na internet por parte de gamers preconceituosos, com todo tipo de mensagem misógina que você pode imaginar. O “crime” dela foi ser a animadora chefe de Mass Effect: Andromeda, que está sendo muito criticado pelos problemas das animações faciais. As informações vieram de um site chamado Ralph Retort, ligado ao GamerGate (nenhuma surpresa, não é?), que também dizia que Leost só tinha conseguido seu cargo porque teria feito sexo com alguém de dentro da empresa. Não demorou muito para que Leost recebesse uma chuva de comentários horríveis.

Ontem, a Bioware postou um comunicado escrito por Aaryn Flynn, o gerente geral da empresa:

Recentemente, uma ex-funcionária da EA foi erroneamente identificada como chefe do time de desenvolvimento de Mass Effect: Andromeda. Essas informações são falsas.

Nós respeitamos as opiniões dos nossos jogadores e da comunidade, agradecemos o feedback dos nossos jogos, mas atacar indivíduos, independente do seu envolvimento no jogo, nunca é aceitável

Não sabemos ao certo qual o envolvimento de Leost na EA, mas isso é o que menos importa aqui. Não é a primeira vez que uma mulher que trabalha na Bioware foi perseguida dessa forma. Jennifer Hepler, uma das roteiristas da empresa (Dragon Age Origins, Dragon Age 2, Star Wars: The Old Republic e Mass Effect 3) também sofreu ataques ao dizer em uma entrevista (de 2006, sendo que os ataques aconteceram em 2012) que era melhor priorizar a história do que a gameplay do jogo. Ontem mesmo a Fryda Wolff desabafou no twitter que desde que foi anunciada como a voz da Sara Ryder, protagonista de ME:A:, ela tem recebido comentários de ódio por suas ideias feministas.

Bom, precisa dizer mais? Não me interessa qual o cargo que Leost tinha, nem se as animações são terríveis, muito menos a sua vida sexual. Nada disso é justificativa para perseguições e comentários de ódio contra uma pessoa na internet. Perceba que há vários homens envolvidos na produção de Mass Effect: Andromeda, mas obviamente o alvo é uma mulher, já que estamos cansados de saber que a comunidade gamer ainda é muito machista.

É óbvio que essas ações são movidas pelo ódio. Ninguém está dizendo que as animações ruins não devam ser criticadas, mas dar um feedback e perseguir uma mulher com informações falsas são coisas completamente diferentes. Isso não teria acontecido se o autor do texto do Ralph Retort tivesse só encontrado nomes de homens na produção do jogo. Ou talvez teria, esse tipo de gente não precisa de motivo, eles inventam se eles quiserem. O GamerGate já provou que passa longe da ética, tanto com informações falsas como por ser muito machista.

Quem segue alguns dos produtores da Bioware sabe muito bem que eles estão sempre ouvindo as críticas. Michael Gamble e Ian Soon Frazier já pediram por feedback algumas vezes nos últimos dias pelo twitter, inclusive responderam vários questionamentos, até de jogadores que já chegavam na grosseria. Eu jogo Bioware desde 2010, acompanho mais ativamente desde 2012 e sempre existe pessoas na equipe dispostas a ouvir os feedbacks. Então esses comentários não podem nem ser encarados como uma frustração por parte dos fãs por não serem ouvidos, porque não é verdade e, mesmo se fosse, não seria justificativa. Veja também que, esses dois que obviamente trabalharam na produção de ME:A não sofreram essa chuva de ódio. Óbvio que não, são homens, né? O GamerGate mira em mulheres com uma agenda muito bem defenida: a machista mesmo.

E ainda tem gente que tem coragem de dizer que as nossas reclamações sobre a comunidade gamer são besteiras e “vontade de aparecer”.

Via Kotaku

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