No que diz respeito as minhas escolhas do que assistir no meu tempo livre 2015 foi um ano divisor de águas pra mim. Eu me peguei cada vez mais e mais cansada de ver os mesmos caras brancos heterossexuais cis na tela do cinema, cada vez menos disposta a sair de casa e pagar dinheiro para assistir aos tantos filmes estrelados por eles. Nem James Bond, que eu adoro, eu tive vontade o suficiente de ver para compensar o ingresso do cinema.

Tiveram algumas boas surpresas, como Perdido em Marte, mas de maneira geral eu simplesmente não me interessei, ou evitei, filmes em que o elenco principal não tivesse o mínimo de representatividade de raça, gênero ou sexualidade. A história dos homens brancos acabou se tornando cansativa e repetitiva.

Semana passada eu caí num post muito engraçado e interessante da crítica MaryAnn Johanson. No seu blog Flick Filosopher, MaryAnn faz um trabalho muito consistente de análise e discussão sobre representatividade feminina em Hollywood. O post em questão se chama “Mais homens que eu estou oficialmente cansada de me pedirem para simpatizar nos filmes”.

Foi como se eu visse o meu sentimento resumido em lista.

Film Review-The Big Short

Homens apostam contra a hipoteca de outras pessoas. Foto do filme A Grande Aposta.

MaryAnn tem uma lista de homens com quem Hollywood espera que nós criemos empatia, já que são deles a maior parte das histórias contadas. Eu traduzi uma parte da lista de 2015 para vocês, e a autora fez questão de ressaltar que apesar dos filmes estarem na lista isso não quer dizer que ela não gostou deles, apenas que o problema está na maioria dos filmes serem sobre homens.

Homens caminhando montanha acima
Homens caminhando pelas florestas
Homens caminhando em Marte
Homens caminhando por uma corda-bamba
Homens atravessando pontes
Homens caminhando por campos de batalhas
Homens comprando a hipoteca de outras pessoas
Homens apostando contra a hipoteca de outras pessoas
Homens vendendo computadores
Homens que construíram I.A. muito avançadas à sua própria imagem
Homens que construíram I.A. muito avançadas, para que pudessem transar com elas
Homens desafiando Hollywood
Homens desafiando a igreja
Homens desafiando a NFL
Homens desafiando suas próprias nações pelo bem maior, droga!
Homens sobrevivendo na fronteira
Homens sobrevivendo na periferia (in the ‘hood, no original)
Homens sobrevivendo quando estão basicamente presos dentro do seu próprio apartamento
Homens sobrevivendo o holocausto
Homens sobrevivendo no oceano
Homens sobrevivendo as suas próprias mentes brilhantes
Homens falando sobre eles mesmos
homens falando sobre jornalismo
Homens falando sobre assassinato
Homens falando sobre a banalidade do mau
Homens debatendo outros homens
Homens batendo em outros homens
Homens fotografando outros homens.
Homens fazendo o seu próprio nome,
Homens apenas tentando fazer musica, droga!
Homens indo atrás de Manic Pixie Dream Girls (garotas idealizadas)
Homens falando com dinossauros
Homens construindo dinossauros
Homens falando com dinossauros
Homens lutando contra monstros
Homens caçando monstros
Homens que são monstros
Homens que apoiam outros homens, car.
Homens que matam mulheres e acham que está tudo bem.

O genial dessa lista, que possui edições anteriores, é que mostra como homens, mesmo em um ano tão importante para a representação feminina como 2015, ainda possuem a maioria do espaço nos filmes. A histórias deles não se limitam nem à 4 ou 5 filmes, nem à um ou dois tipos de histórias. As histórias dos homens podem apenas falar sobre outros homens, ou criar e caçar dinossauros e monstros. As histórias femininas ainda são majoritariamente sobre relacionamentos amorosos, sobre ser/se descobrir mãe, sobre o que é o “feminino”.

Heart of the Sea

Homens sobrevivendo no oceano. Foto do filme No Coração do Mar.

Eu sei que alguns de vocês vão falar “Mas tivemos Furiosa, Rey e Katniss”, e sim. Tivemos esse número imenso de três personagens femininas centrais em filmes de amplo lançamento. Eu talvez esteja esquecendo duas ou três personagens, mas com certeza não enchemos duas mãos com o número dessas protagonistas. MaryAnn fala sobre isso, sobre como passamos trinta anos escutando “Mas e a Ripley?” quando reclamávamos da falta de representação feminina nesses filmes. Tivemos que esperar 35 anos para que Sandra Bullock fosse ao espaço para outra personagem feminina ser central num sci-fi espacial de amplo destaque.

Hoje temos Rey. Temos Furiosa nos filmes de ação, temos Katniss nas distopias. Mas é pouco, são todas brancas, e essa lista é interessante exatamente para nos darmos conta de que se você substituir “homens” por “mulheres” nenhum desses filmes perde a validade – talvez eles inclusive fiquem mais interessantes! Em 2016 eu planejo continuar assistindo todo e qualquer filme com protagonismo feminino que eu conseguir, e espero que o sucesso que as protagonistas femininas fizeram nas bilheterias em 2015 ajude Hollywood a se dar conta de que está pouco e de que queremos mais. 😉

*A foto de capa deste post é do filme O Regresso.

  • fefetor4

    Eu tbm passei por isso em 2015. E foi uma coisa natural que eu não forcei de forma alguma. Acabei sem querer me desinteressando pelas histórias por não conseguir mais me enxergar nelas, como antes conseguia sem me questionar. E eu não achei que as histórias eram ruins, como “Narcos” por exemplo, achei o que vi excelente, mas simplesmente não consegui continuar vendo uma série tão grande, com tantos personagens e sem NENHUMA representação feminina mais complexa. E eu não engulo essa de “mas é baseado na realidade…” A gente sabe muito bem que eles manipulam a realidade da maneira que for necessário se isso significar mais potencial de entretenimento. Ninguém se engana de que a história foi contada imparcialmente, como de fato aconteceu. Assim como “As Sufragistas”, que eu QUERO muito assistir ainda sim, mas que me incomoda pelo fato de só haver brancas no elenco. Mais uma vez, uma história fictícia criada com um pano de fundo baseado na realidade, não achou “conveniente” acrescentar mulheres não-brancas… É extremamente irônico. Eu gostei muito de saber que os maiores filmes de ação do ano, todos os 2!, são filmes protagonizados por mulheres, acho que isso manda um recado muito forte pra Hollywood, só não sei se eles vão entender..

    • Fabio Farro de Castro

      Sabe o que me parece? Preguiça de chamarem mulheres, pessoas negras, entre outras minorias para escreverem sua parte da história. Melhor dizendo, nem preguiça é, pois dizer que é preguiça seria bondade da minha parte. É evidente que estão silenciando as minorias há tempos para apenas temos a versão dos homens cis brancos e héteros. Tanto é que a mínima mudança no status quo (como em Mad Max Fury Road com a Furiosa) já rendeu reclamações de homens!

      • Paula Kerner

        Eu questiono muito se é proposital… acho que é mais uma falta de consideração mesmo porque não têm a mesma visão de uma minoria etnica ou de gênero. E a ideia de achar que a raça default é a branca. E que o personagem protagonista default é homem com seus valores da família tradicional republicana que vai salvar sua família e o seu país metendo porrada em todo mundo.

        Pra mim é um daltonismo cretino e tanto sabe? Achar que um bom personagem é branco e homem, porque supostamente se for mulher ela precisa ter uma função específica para mulheres (ser par amoroso, ser a mina que vai ser estuprada, ser prostituta, a mina a ser salva, a mina que sofre um trauma amoroso, a mina que é mãe, etc.), senão não é valido. Ou que toda homem negro deve ser das ruas ou ter a moral questionável. E mulheres negras… Qual o papel delas nesse machismo? Nunca vi um filme com mulher negra entre os papeis principais. Nem sei traçar um perfil psicologico das personagens negras dos block busters…

      • fefetor4

        E se a gente parar pra pensar o problema é muito mais embaixo, porque não seria apenas preguiça ou falta de consideração da parte dos produtores, diretores de elenco, escritores… Afinal eles tbm não são todos (em sua maioria esmagadora) homens brancos? Quantos diretores negros em destaque existem? E mulheres? E mulheres negras diretoras!!? Porque o que nós vemos no filme, no caso a história e os atores, é apenas a superfície… Eu quero por exemplo um Star Wars com uma mulher protagonista claro, mas dos 3 filmes (sem contar os spin-offs) quantos são dirigidos por mulheres? Quantas atrizes mulheres fazem parte dos figurantes? E protagonistas negras que não sejam aliens? As coisas estão melhorando, sim mas bem devagar… E não sem muita reclamação. Mas eu tenho esperança que esteja assim porque a gente está saindo de uma inércia do feminismo dos anos 90 e começo de 2000, e logo tomaremos uma ritmo mais rápido… Mas uma coisa não dá mais pra negar, personagens femininos fortes tbm podem protagonizar filmes de ação e render muito dinheiro, taí uma desculpa que esses caras não podem mais usar depois desse ano.

  • Fabiana Nascimento

    na hora que eu li o título desse texto, lembrei desse artigo aqui “The film is based on a true story of the American frontier from 1823 and I’ll summarise the plot for you: man seeks revenge, man gets revenge. ” http://www.theguardian.com/commentisfree/2016/jan/17/revenant-leonardo-dicaprio-violent-meaningless-glorification-pain

    • Rebeca Puig

      Esse texto é muito bom!

  • Isadora

    Outro ponto importante é que praticamente não há mulheres em hollywood que estão por tras das câmeras na parte de criação e desenvolvimento (não há diretoras, produtoras, roteristas, etc). No caso acho que acaba se tornando uma bola de neve porque se não há mulheres desenvolvendo projetos nunca vamos ter uma vasta representatividade feminina nas histórias (querendo ou não esses homens que estão no comando dos projetos vão passar a sua visão de mundo – masculina, branca, cis, hetero e classista – sem nem pensar sobre isso). Então no fim tudo é pior porque não há mulheres passando sua visão de mundo no cinema mainstream (não há mulheres falando sobre acontecimentos, homens, relacionamentos e especialmente elas mesmas) isso acaba sendo muito ruim para a audiencia porque ela só recebe uma informação. PS: eu sei tem mulheres que são diretoras, roteiristas e etc mas o numero é práticamente mínimo e é claro que homens podem criar personagens femininas fortes.

  • Catena’s Beauty Atelier

    Chorem mais, piranhas misândricas.
    Homens >>>>>>>> mulheres escrotas e choronas por previlégios

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