Esse texto foi escrito para a Pós de Jornalismo Cultural e, depois de re-assistir Homem de Ferro II neste fim de semana (parte da minha preparação para Os Vigadores 2), resolvi publicá-lo.

Atenção, o texto é polêmico e têm spoilers, mas faz sete anos que o primeiro filme do Tony “Downey” Stark saiu, então se você não viu até agora acho que já passou da hora, né? 😉

Iron Man internation movie poster

Homem de Ferro chegou aos cinemas em 2008 e serviu de pontapé inicial para o universo que a editora Marvel começaria a construir nos cinemas. Os filmes de super-heróis já estavam rodando as salas de cinema há quase dez anos, mas Homem de Ferro foi o primeiro deles a se permitir questionar alguns dos conceitos básicos do ideal americano e da posição norte-americana de salvador mundial.

Tony Stark, o homem por trás da armadura, é um playboy inteligente com o mundo aos seus pés, que acredita estar fazendo algo positivo com sua indústria de armas, mas não tem ideia do que realmente está acontecendo à sua volta – e com o seu império. Ele é chamado de Mercador da Morte e se diverte com isso, diz preferir a arma que você só precisa disparar uma vez e, numa fala muito simbólica, diz que foi assim que seu pai fez (ele trabalhou no projeto Manhattan), é assim que a América faz e tem funcionado muito bem até então. Há no comportamento de Stark um paralelo a ser estabelecido com o cidadão médio estadunidense que estava tão imerso dentro do seu sonho americano que, apesar do Vietnã e da primeira Guerra do Golfo, não consegue e não quer perceber os problemas do comportamento de seu país perante o mundo. Seja por vaidade (se achar o herói do mundo soa muito legal), seja por ignorância ou por falta de interesse, Tony Stark e esse cidadão dividem essa cegueira útil.

Em 2008, a poeira dos acontecimentos de onze de setembro de 2001 já começava a se assentar, as guerras do Afeganistão e do Iraque já vinham sendo questionadas há um bom tempo e a figura de Obama começava a aparecer como uma opção viável de mudança e progresso. Foi sob esse contexto que Homem de Ferro saiu e está entre os primeiros filmes pós 11 de Setembro que começaram a trabalhar ação e destruição sem utilizar a queda das duas torres como base para o desenvolvimento do plot. O que leva Stark a passar pela experiência de ser preso e torturado é o fato de ele ser esse ideal americano – rico, alienado e poderoso. Antes desse evento, Stark adora a ideia de ser herói do mundo porque isso é divertido, mas passado pelo momento de redenção, seu objetivo se torna pagar a dívida que ele tem com um mundo que pensava proteger.

O Cavaleiro das Trevas, segundo filme da atual trilogia do Batman, saiu neste mesmo ano. Ao meu ver, no entanto, este filme possui uma mensagem muito mais retrógrada que a de Homem de Ferro. O filme funciona dentro do conceito de que a população não pode saber como as coisas são feitas, como o governo funciona, ou toda a sociedade cairia no caos (a conclusão da história nos diz Harvey Dent precisa ser apresentado como o herói e Batman como vilão, para que as pessoas não saibam a verdade). Numa época em que cada vez mais se questiona os segredos de estado, não só americanos, em que o WikiLeaks começava a dar seus primeiros passos, essa visão de proteção sustentada pelo segredo já estava desatualizada e, talvez por isso mesmo, Homem de Ferro termine com Tony Stark revelando sua verdadeira identidade como o herói.

Historicamente, a Marvel (Homem de Ferro), como editora, sempre esteve à frente da DC (Batman) quando se trata de abordar as questões sociais em seus produtos. No início da década de sessenta, o cenário independente de quadrinhos norte-americanos, principalmente em São Francisco, já discutia a questão racial, a posição da mulher na sociedade e, ao final da década, a guerra do Vietnã. Na Marvel, Stan Lee, com X-Men e seus outros personagens, já iniciava também essa discussão, que a DC só iria abordar mais a fundo no começo da década de 70. O único produto da DC que abordou esse momento histórico foi a antiga série de televisão Batman ’66, que até hoje é renegada por uma boa parcela dos fãs e encarada como uma piada. Ainda que O Cavaleiro das Trevas seja um filme melhor na opinião da maioria, e que fale sobre a Era Bush com mais profundidade, ele encontra nessa discussão um ideal reacionário que defende soluções republicanas para problemas de segurança pública. Na série da década de 60, o personagem era muitas vezes reacionário, mas a série em si problematizava esse posicionamento retrógrado – algo que o filme de 2008, no fundo, se desvia de fazer (não há dúvidas de que Batman sabe o que está fazendo).

Hoje, nos cinemas, o cenário se repete. Além dessa diferença de discurso entre Homem de Ferro e Batman, mais recentemente a DC produziu Homem de Aço com um discurso fortemente amparado pelo idealismo militar disseminado no pós-onze de setembro, em contraposição a uma posição de questionamento desse militarismo com o segundo filme do Capitão América, Capitão América – O Soldado Invernal. Homem de Ferro também questiona esse militarismo, mas ao mesmo tempo não consegue fugir do peso da ideologia norte-americana.

Stark não confia no governo e, por isso, se recusa a dividir com ele o design de sua armadura. No entanto, ele apresenta um comportamento muito similar ao de seu país – é a narrativa do colonizador que é também salvador. Ser o salvador é difícil, mas alguém precisa fazê-lo e, no caso, esse alguém é Tony Stark. Essa narrativa é muito similar à perspectiva eurocêntrica sobre o resto do mundo. Em determinado momento do filme o vilão, Obediah, vai até o Afeganistão para colocar as mãos na primeira armadura de Tony. Lá, durante uma conversa com o outro vilão, ele diz que a fraqueza do Oriente Médio sempre foi a falta de tecnologia. Esse discurso, por mais que saia da boca do vilão, condiz com o resto do filme, já que a região é apresentada dentro de três estereótipos muito comuns de representação: vilã, vítima ou sábio místico – este último no personagem de Yinsen, companheiro de aprisionamento de Tony.

Aliás, o modo como o filme trabalhar seus vilões é muito interessante e também estabelece um paralelo com o comportamento norte-americano perante o mundo. Esse mecanismo se estende para os outros dois filmes da franquia. Somos apresentados a um vilão que vem de fora dos Estados Unidos – nesse primeiro filme, o grupo terrorista 10 Anéis –, mas, na verdade, o grande vilão é um cidadão norte-americano (Obediah). Essa discussão tem a ver com o modo como o país lida com seus problemas de violência interna, ou como não consegue dar a ela a atenção que dedica ao terrorismo internacional. O foco está tão grande num perigo que vem de fora, que o país se torna cego para os seus problemas internos.

Homem de Ferro falha também ao não questionar mais profundamente a maneira como Tony fez sua fortuna. A personagem da jornalista, apesar de aparecer nos três atos do filme, não é forte o suficiente para colocar na história esse peso – o que Stark, no começo do filme, vê como heroísmo, ela apresenta como tirar lucro com a Guerra. Por mais que todo o arco do personagem se baseie em redimir-se dos seus erros em relação à manufatura e venda de armas, no final o que pesa de verdade é o heroísmo e altruísmo do herói.

Filmes blockbusters baseados em quadrinhos, de maneira geral, são constantemente considerados menores e muitas vezes vistos apenas como disseminadores da ideologia americana conservadora e dominante. Essa visão é superficial, já que se recusa a analisar mais a fundo o enredo e os temas abordados por tais produtos culturais. É óbvio que, em um filme como Homem de Ferro, que se propõe acima de tudo a entreter e a fornecer um espetáculo visual para o espectador, a discussão acerca de problemas sociais, raciais ou de questionamento do status quo tem um limite de profundidade. No entanto, sendo esses filmes aqueles que possuem o maior alcance dentro de todas as camadas sociais (mesmo no Brasil, cujo mercado segue sendo dominado por esses produtos), não limitando-se às classes intelectualizadas, as discussões que Homem de Ferro se propõe a levantar funcionam como uma espécie de mitologia pop contemporânea servindo como mecanismo para incentivar o pensamento e o questionamento da população em geral.

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