Yoshiaki Nishimura, produtor do Studio Ghibli, empresa responsável por alguns dos maiores clássicos da animação mundial e que conta com inúmeras personagens femininas importantíssimas, foi extremamente infeliz ao responder se o estúdio iria, um dia, contratar uma mulher para dirigir.

Depende do filme que seria. (…) Diferente de Live Action, em animação n´øs temos que implicar o mundo real. Mulheres tendem a ser mais realistas e a controlar melhor o dia-a-dia. Homens tendem a ser mais idealistas, e filmes de fantasia precisam dessa visão idealista. Eu não acho que é uma coincidência que homens são escolhidos.

Eu também não acho que é uma coincidência, na verdade acho que está diretamente ligado ao machismo que existe dentro do meio artístico. Apesar de estúdios com Clamp, formado apenas por mulheres, terem um destaque muito importante dentro da indústria de mangás e animes, mulheres ainda enfrentam um preconceito muito grande quando vão tentar evoluir em suas carreiras, algumas inclusive optam por nomes artísticos mais masculinos para que possam desenvolver trabalhos além dos considerados “para meninas”.

Seja porque são consideradas menos capazes, seja porque precisa fazer jornadas duplas e triplas. Toda a sociedade japonesa trabalha muito, mas não dá para negar que das mulheres é esperado um padrão de comportamento que simplesmente não cabe dentro de um mercado de trabalho competitivo.

Vale lembrar que o estúdio não é exatamente conhecido por empregar mulheres em cargos importantes. Reiko Yoshida, roteirista de “The Cat Returns” e a animadora Makiko Futaki são as únicas a ja terem ocupado um papel de destaque dentro da empresa.

 

É uma pena ver o produtor de um dos meus estúdios de animação favoritos falar tanta besteira. Se essa realmente é a posição do estúdio quanto à não contratação de mulheres então fica muito difícil continuar a apoiar o trabalho deles, de certa forma mancha um pouco todo o trabalho incrível que eles fizeram até aqui. Se mulheres só podem ser o que elas quiserem dentro das fantasias criadas por homens, então o Studio Ghibli tem muito a aprender com as suas próprias obras.

O que Mononoke pensaria disso?

Mononoke

via The Guardian

 

*Este texto foi alterado para adicionar as informações do penúltimo parágrafo.

  • Maravilhosa análise, Rebeca. Infelizmente, Mononoke Hime não vai pensar nada a respeito, pois ela está no lugar seguro que esse tipo de homem (e o mercado) determina – bem longe da realidade palpável e sem questioná-los, claro. Uma grande pena… Qual é o nosso lugar nesse mundo? 🙁

    • Rebeca Puig

      É onde a gente quiser, <3 Não vamos parar de lutar.

      • Sim, a gente está na luta, mas essas portas batendo na cara são de doer… 🙁 Seu texto me lembrou o livro da Pixar “Criatividade S.A.” – não há uma diretora em uma animação deles e a que tentou ser foi “auxiliada” no meio da produção por um dos diretores, em Brave.

        • Rebeca Puig

          Eu super te entendo =\
          A disney tb possuía uma cartilha de onde mulheres podiam ou não trabalhar, hoje eles não a usam mais!

  • Bakuman era um mangá que todo mundo me recomendava. Fui ler e já no primeiro número tinha uma série de situações bobas salpicadas de frases como “a boa mulher sabe que deve ser submissa à seu marido”. Achei um lixo. As pessoas falavam que eu me importava demais com detalhes e não estava apreciando a beleza do mangá. Mas no fim era só mais uma história protagonizada por um moleque que queria ser melhor que os outros.
    Conheço muito pouco da cultura japonesa pra falar, mas acho que uma tradição que pede que a mulher ande dois passos atrás do marido é um bocado machista.

    • Mas obata e ohba sempre diminuiram a participação de mulheres em seus conteúdos, pode ver que em bakuman e death note que são as maiores séries da dupla, as mulheres sempre são secundaristas fracas, sem personalidade e à mercê dos protagonistas.

  • Júlia

    Tipo, eu sei que tem todo um contexto cultural específico do Japão para eles pensarem assim. Machismo nas terras nipônicas é muito mais forte do que por aqui, tanto que muitas ativistas japonesas que eu seguia no tumblr criticavam severamente as feministas ocidentais por tentarem abordar o machismo de lá com a perspectiva daqui.
    Mas porra, que comentário desgraçado de infeliz! “Mulheres são mais pé no chão”? Como assim, cara?? Curiosamente, estudo animação, e o que eu vejo é justamente o contrário. As mulheres do meu curso são as que fazem as histórias mais viajadas, e eu estou incluida nessa. Ninguém na minha turma acredita que eu não uso drogas (nem beber eu bebo) porque elementos de fantasia vem naturalmente para mim.
    ENFIM. Decepcionada com o estúdio depois dessa :/

  • Inacreditável como ele pôde ter dito isso, considerando as protagonistas FABULOSAS dos filmes do Ghibli!

  • c@v@lo

    tenho curiosidade de saber o que os outros cabeças pensam sobre isso, em especial o Miyazaki

  • Enraçado pq sempre falam é o contrário, mulheres são sonhadoras e homens racionais, quando convém. Agora mudaram pq pra dirigir uma produção artística convém ser o sonhador né, o negócio parece que é sempre colocar os homens na descrição que interessa e descartar as mulheres

  • Júlia

    Navegando no Tumblr, vi um comentário que realmente só torna essa notícia pior.
    Ele diz que mulheres são realistas e não podem dirigir filmes de fantasia, mas a maioria dos filmes deles são adaptações de livros escritos por mulheres! O Castelo Animado, As Memórias de Marnie, O Mundo dos Pequeninos… Tudo adaptação de livros de fantasia escritos por mulheres.
    Então, uh… Esse “argumento” é invalido

  • Eu amo o trabalho que eles fazem, mas fica difícil continuar a consumir sua arte quando o pensamento da empresa é tão machista. Se já deixei de falar com amigos por conta disso, o que dirá deixar de ver os filmes deles. O boicote é uma arma de resistência.

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