Nesta semana da mulher, de 1º a 8 de março, portais nerds feministas se juntaram em uma ação coletiva para discutir de temas pertinentes à data e à cultura pop, trazendo análises, resenhas, entrevistas e críticas que tragam novas e instigantes reflexões e visões. São eles: Collant Sem Decote, Delirium Nerd, Ideias em Roxo, Momentum Saga, Nó de Oito , Preta, Nerd & Burning Hell, Prosa Livre, Psicologia&CulturaPop, Valkirias, Kaol Porfírio#wecannerdit 

Não é muita novidade para ninguém que o meio gamer costuma ter muito preconceito, incluindo o machismo. Mulheres não são tratadas da mesma forma em competições online, assim como o número de homens desenvolvendo jogos ainda é maior. Anita Sarkeesian está aí para mostrar que fazer críticas aos estereótipos das mulheres em jogos também não é tão simples assim. Quando um homem padrão faz um comentário, a opinião dele é respeitada, enquanto uma mulher é acusada de tudo antes de ter sua opinião levada a sério.

Eu mesma ainda recebo comentários ofensivos de textos que fiz falando sobre falta de representatividade em jogos, sempre que comento sobre estereótipos em que personagens mulheres são colocadas, entre comentários ofensivos, leio algum do tipo “nem todo o jogo precisa ser sobre preconceito!”. E isso é fato, nem todo o jogo precisa mesmo.

Quando falamos de representatividade na ficção, em geral há duas formas que ela pode acontecer: A história pode sim usar os seus personagens para construir críticas ao preconceito da nossa sociedade, ou pode simplesmente colocar personagens bem construídos lá, sem necessariamente falar sobre os preconceitos que essas minorias passam na vida real. Ambas são representatividades válidas. É importante que a mídia de entretenimento use sua influência para fazer críticas, contando histórias que discutam o preconceito, como no recente Estrelas Além do Tempo (que é ótimo), mas há outras formas também. Eu sou mulher, mas nem por isso meus únicos problemas na vida são relacionados ao meu gênero. Alguns são, mas eu e outras mulheres lidamos com outras questões também.

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Horizon: Zero Dawn é um exemplo da segunda forma que apontei lá em cima: uma história com mulheres onde elas possuem conflitos que não necessariamente são relacionados ao seu gênero. A mensagem do jogo não é sobre o preconceito contra a mulher, por mais que a personagem principal seja uma mulher e outras apareçam no meio do caminho.

Vamos começar pelo óbvio: Aloy. Na minha crítica do jogo eu comentei que ela é uma personagem muito bem construída. Por mais que o jogador possa escolher certos aspectos de sua personalidade, a Aloy nunca é uma personagem plana. Ela quer fazer parte da tribo dos Nora para não ser mais exilada, mas ela também não é muito lá fã dos costumes deles, afinal são estes que a colocaram como exilada para começo de conversa. Aloy está segura em certos momentos, mas com alguns eventos ela começa a duvidar de si mesma, perder a paciência, etc. E em momento nenhum ninguém duvida de Aloy por ser mulher, alguns duvidam dela por ser uma exilada, mas nunca pelo seu gênero.

Além de seu desenvolvimento, Aloy também é uma heroína de ação/rpg. Na mão de muitas outras desenvolvedoras, Horizon poderia muito bem ser a história de um homem branco padrão. A maioria dos grandes nomes dos jogos são protagonizados por esse tipo de personagem. E já que a história não é sobre o preconceito, muitos pensariam: “Então por que uma mulher?” quando a pergunta deveria ser “Por que não?”. Eu já vi inúmeros jogos com um cara padrão como protagonista, principalmente nesses gêneros de videogame, eu quero ver outras coisas. Inclusive teria sido mais significativo se a personagem não fosse branca.

Aloy nunca precisa ser salva, ela que resolve os seus problemas. Obviamente ela não faz tudo sozinha, mas ter ajuda e “ser resgatada” são coisas diferentes. O jogo também não deu nenhum interesse romântico para ela e, por mais que meu coração shipper quisesse, é legal que ela também não precise de um romance, a busca dela é outra, os laços que ela faz com os personagens são outros, e tudo bem. Funciona porque a Aloy é uma personagem bem construída, independente do gênero, e aqui isso é ainda mais importante porque personagens homens conseguem ter um desenvolvimento bom, mas as mulheres acabam caindo muito em estereótipos.

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Outro ponto que chama a atenção é o fato da tribo Nora ser matriarcal. Um grupo de mulheres mais velhas que tomam conta daquelas pessoas e inclusive uma das figuras de “mestre” que Aloy tem é uma mulher, um papel que geralmente fica para homens. Não devia ser tão surpreendente, afinal o jogo acontece em um futuro em que tudo está diferente, então não é tão absurdo que exista uma tribo sem patriarcado, mas infelizmente, mesmo em mundos fantásticos ou futuros distantes, a equipe criativa dos jogos muitas vezes insiste em fazer mais do mesmo em prol de uma suposta “fidelidade histórica” ou qualquer coisa que na real não faz sentido.

Na tribo dos Nora, a chefe dos Valente, Sona, é uma mulher negra, que é a personagem mais habilidosa para liderar aquele grupo. Entre os guerreiros dos Nora, não há em momento algum qualquer diferença no tratamento que mulheres recebem, elas lutam, chefiam e competem igual, inclusive o jogo mostra essas mulheres nessas posições.

Há outros momentos no jogo que podem ser usados de exemplo, mas a questão é: Por que não uma sociedade matriarcal? Por que não uma protagonista mulher? Por que não mulheres guerreiras? Nada impede jogos como Horizon de construir essas coisas, tanto que isso não afeta em nada o resto do jogo, na realidade ele torna o universo de Horizon ainda mais interessante. O problema são desenvolvedoras insistindo em personagens padrão e aspectos tradicionais da narrativa para montar seus jogos. Nós queremos mais opções, tanto que, com uma semana de lançamento, Horizon foi o jogo mais vendido, passando inclusive do novo Zelda, com notas altíssimas em todas as críticas até agora. E mesmo assim ainda há quem ache que protagonistas mulheres não tragam lucro e que elas não são importantes.

Ninguém falou que Horizon é perfeito, inclusive o The Mary Sue postou um texto sobre a apropriação cultural no jogo, que também dever ser levada em consideração. Apesar de termos muitas mulheres interessantes no jogo, e que podem virar aliadas de Aloy, a maioria dos personagens ainda são homens (ponto positivo por não serem só homens brancos). A mídia de entretenimento deve usar a representatividade para falar de preconceito sim, isso amplia as discussões e é muito importante, mas às vezes nós também só queremos ver personagens fora do “homem padrão” que possuem outros conflitos e que são incríveis. Há espaço para isso sim, inclusive na indústria de jogos.

Agora vou fazer mais alguns comentários sobre esses pontos, mas com spoilers do jogo.

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Em certo momento, Aloy vai para a grande cidade de Meridian, que apesar de não ter uma mulher no poder (na realidade é um homem negro), ninguém se mostra machista com ela em momento algum. Inclusive, um dos grandes nomes da guarda de Meridian é uma mulher, Ersa. Eu gostaria de ter visto mais dela, porque nós ouvimos como ela é muito forte, mas só a encontramos quando a personagem está para morrer. Ersa foi sequestrada e Aloy precisa ajudar seu irmão, Erend, a encontrá-la. A todo o momento o jogo te diz que Ersa é melhor que o irmão, mas é ela que morre para Erend desenvolver seu personagem. Eu acho legal quando um personagem que nem sempre foi a primeira escolha consegue avançar assim, mas eu queria ao menos ter visto Ersa em combate ou que houvesse alguma forma dela não morrer.

Além de outras aliadas que Aloy pode conseguir, como Vanasha e Talanah, e outras mulheres mencionadas como guerreiras (há alguns personagens que falam sobre como a mãe ou a esposa lutam), há uma figura muito interessante e de peso para a história toda: Elisabet Sobeck, que a princípio acreditamos que pode ser a mãe da Aloy, mas na verdade, de certa forma, é a própria Aloy.

Elisabet Sobeck é, basicamente, a pessoa responsável pela raça humana ter sobrevivido. Depois de um problema com as máquinas que estavam sendo construídas no passado (que seria um futuro próximo para nós), Elisabet cria um sistema muito avançado para que a vida na terra possa continuar, mesmo que a sociedade como conhecemos seja destruída pelas máquinas. Isso é melhor explicado no jogo, mas basicamente ela cria uma inteligência artificial chamada Gaia, que será responsável por manter a raça humana viva, com várias outras inteligências para ajudá-la, cada uma responsável por uma coisa. Apollo, por exemplo, era a parte que guardaria todo o conhecimento da humanidade, mas foi destruído no meio do processo e por isso as pessoas do mundo de Horizon sabem tão pouco sobre as civilizações anteriores. O jogo pontua muito bem: Sem Elisabet, uma mulher, a raça humana inteira teria caído. Inclusive é legal notar, através dos arquivos antigos, que existiam outras mulheres trabalhando no projeto que ia salvar o mundo.

Muitas pessoas estranharam o fato de Aloy ser uma exilada por “não ter mãe”, mas a realidade é que as líderes da tribo Nora encontram Aloy bebê do lado de fora de um dos laboratórios, que ninguém nunca conseguiu entrar, e temem a ligação da menina com as máquinas, já que os robôs estão atacando os humanos cada vez mais. Na verdade, Gaia usa o material genético de Elisabet para trazê-la de volta, pois quando parte do sistema, Hades, começa a colocar a raça humana em risco de novo, Gaia acredita que Elisabet é a única que pode pará-lo, então ela volta como Aloy.

Esse papel poderia ser um homem salvando o mundo? Com certeza, mas isso seria só um pouco mais do mesmo, enquanto ter uma mulher nessa posição pode significar mais, principalmente para os gamers que, como eu, estão um pouco cansados dos mesmos personagens o tempo todo.

Originalmente postado em Ideias em Roxo

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