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Ficção Científica faz parte da minha vida desde muito pequena, mas eu tenho receio de qualquer filme de sci-fi que faz propagando sobre ser científica demais. Por mais animal que seja saber que aquilo que estou vendo na tela é baseado em pesquisas reais, sempre fico com o pé atrás, já que na discussão sobre o que é a ficção científica “de verdade” sempre há uma arrogância intrínseca.

Essa minha desconfiança apareceu com Interestelar logo no começo da divulgação do filme, e se acentuou por causa de Christopher Nolan. Apesar de achar que o trabalho dele não é o ápice de perfeição que tanta gente fala, acredito que ele é um diretor incrível e estou sempre interessada em saber qual vai ser o próximo passo. Mas Nolan e seus filmes me passam um ar de arrogância, como se o diretor estivesse vendo o público de cima e seus filmes querendo se mostrar mais inteligentes do que realmente são. Em Interestelar, no entanto, há um equilíbrio entre direção, ciência e humanidade que faz esse ar de arrogância se dissipar e, na minha opinião, o torna talvez o melhor filme de Nolan.

É uma experiência, e se você tiver a oportunidade de vê-lo em IMAX, faça isso. Na sala em que assisti o som era tão alto que fazia a cadeira reverberar, o que parecia complementar ainda mais a experiência de imersão.

Interestelar é um filme de fim do mundo, mas ele não perde tempo tentando te explicar porque o mundo vai acabar, o que o fez chegar até esse ponto. É um fato: o mundo vai acabar, a comida está acabando, a praga se espalhou pelas plantas e o fim é eminente e inevitável. O porque disso todos nós sabemos mesmo sem nunca ser mencionado no filme: nós matamos o planeta. Isso é fato e o filme se preocupa não em perguntar como consertar isso, e sim como vamos sobreviver a isso.

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A menssagem ecológica do filme É muito importante mas, ao meu ver, a força maior do filme vem das relações humanas que são estabelecidas, especialmente da relação entre o protagonista Cooper (Matthew McConaughey) e sua filha, Murphy. A personagem de Jessica Chastein, aliás, foi originalmente escrita como um menino, mas Nolan disse que talvez por sua relação com a filha mais velha ele resolveu fazer essa alteração – o que resultou em uma personagem muito legal.

Apesar da relação de pai e filho, o sci-fi nos cinemas já viu um outro filme em que o relacionamento entre pai e filha se tornou o impulso para uma personagem feminina. Em Contato, de Robert Zemeckis baseado no livro de carl Sagan, após a morte do pai, a personagem de Jodie Foster se joga ainda mais no mundo da ciência e na necessidade de estabelecer contato com alienígenas. Esses dois filmes, aliás, possuem mais uma coisa em comum: meninas interessadas em ciência e que são incentivadas a continuar a pesquisar, impulsionada pelos pais à atingir um potencial científico. Pode parecer banal, mas em um mundo onde somos taxadas apenas como princesas, ajudantes, donas de casa, mães e prostitutas, esse detalhe faz muita diferença.

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Para mim, Contato tem um lugar especial, já que foi uma das primeiros filmes que me fizeram pensar e questionar o meu lugar no mundo como mulher, e enxergar os primeiros sinais de machismo.

Cooper é um personagem muito interessante, ele decide aceitar a missão de procurar um planeta habitável para salvar a família, ele acredita que será capaz de voltar a Terra a tempo de encontrar os filhos e leva-los para a segurança. O filme deixa claro que não é só pela família que ele se joga no espaço de incertezas, há um egoísmo e uma amargura que o faz querer alcançar um potencial ao qual acredita estar destinado, mas que o foi negado até então. Esse egoísmo, quase um orgulho, vira de direção à medida que a realidade do filme muda, ele é bastante centrado em suas próprias necessidades. Cooper não foi ao espaço para salvar a humanidade, ele foi ao espaço para salvar sua família e, quando ele se dá conta que isso não vai ser possível, ele decide abandonar os companheiros e voltar para a Terra, morrer ao lado dos filhos. Claro, isso também não dá exatamente certo.

Um dos pontos interessantes do filme é como ele aborda a tecnologia. É tão comum vermos filmes em que a tecnologia se volta contra a humanidade que muitas vezes durante Interestelar temos a impressão que os robôs irão se voltar contra os companheiros de viagem, já que são portadores de inteligência artificial, e são feitos para que nós tenhamos algum afeto por eles. Mas é exatamente o contrário. Desde o começo do filme a tecnologia é exposta como algo positivo que os humanos torceram e transformaram em algo negativo, tornando essa tecnologia os vilões da destruição do planeta. Mas o único vilão que o filme apresenta é humano, e ele é vilão por ser humano. Há uma mensagem muito clara no filme.

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No futuro de Interestelar quase toda tecnologia parece ter sido desligada, os livros de história foram mudados para acomodar uma versão mais “segura” do passado, numa tentativa de garantir um futuro mais próspero. Murphy não acredita nessa versão, ela foi criada para questionar e perseguir aquilo que acredita – mesmo que isso seja um fantasma. O que move Murphy através do filme é uma mistura de raiva, inquietamento, curiosidade e esperança de que seu pai vai retornar – mesmo ela estando magoada como está. Ela não é paralisada pela dor e pelo medo, esses elementos a colocam em movimento, ela se torna a mulher que ela estava de fato destinada a se tornar.

Amelia, interpretada por Anne Hathaway, é a única mulher na expedição e, como Murphy, além de cientista e pesquisadora, possui sentimentos que não a paralisam, mas que a fazem seguir em frente. Vivemos numa sociedade que condena demonstrações de afeto, amor, medo e carinho, seja feminina ou masculina. Esse conceito é quebrado pelo filme. Durante toda a viagem até então Cooper trabalha escutando o chamado interior, o seu egoísmo, movido pelo amor aos filhos – o tal instinto de sobrevivência. Quando Amelia faz o mesmo, Cooper não só a expõe, mas também a condena por deixar os sentimentos transparecerem.

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O discurso de Amelia nessa cena é algo que, mais para frente, não só se revela verdadeiro como é parte da sobrevivência de Cooper e, por consequência, da humanidade.

O amor, assim como a gravidade, consegue atravessar o tempo e o espaço. É o que nos motiva como pessoas, é a variável que serve de combustível. A mensagem é que não importa o momento, sentimentos devem ser levados em consideração, são eles que nos motivam, são eles que nos tornam humanos. É essa mensagem de Amelia que permite que Cooper consiga entender e alcançar a resolução final para o problema de como salvar a humanidade. Cooper acaba se dando conta que Amelia estava certa e o filme, ao invés de condenar Amélia e Murphy por aceitar os sentimentos e fazer deles combustível, as condecora. Essa talvez seja a mensagem mais sutil, mas mais importante do filme. Em Interestelar mulheres são cientistas desbravadoras corajosas e com sentimentos – elas são a conclusão perfeita de personagens femininas fortes.

Por mais que eu tenha adorado o filme, ele não é perfeito e existem pontos que precisam ser tocados. Interestelar é mais um filme em que um homem branco salva a humanidade, mas os personagens periféricos são tão bem estabelecidos que você quase não percebe que falta diversidade. Dos personagens “centrais”, aqueles que estão envolvidos na trama de uma maneira mais ativa, temos seis homens, dois robôs – ambos masculinos – e duas mulheres. De todos esses, apenas um deles é negro e, junto como rapaz que recebe Cooper na colônia, essa é toda a diversidade do filme.

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Romily (David Gyasi), o único personagem negro, é membro da equipe de exploração e, sejamos justos, é um personagem muito legal. Ele passa anos acordado sozinho, acompanhado apenas por um robô, coletando dados do buraco negro que acabam sendo vitais para o salvamento da humanidade. Mas é isso, ele é o único. Eu adoro Anne Hathaway, mas Amelia não poderia ter sido interpretada por uma atriz não-caucasiana? Mesmo Cooper não precisava ser Matthew McConaughey. Há uma cartela de atores e atrizes que poderiam estar em qualquer um dos papéis. E eu sei, a escolha do elenco vem do diretor, e se ele estava a fim de trabalhar com esses atores ele tem o direito. Mas será que não está na hora de muda isso? Não existe realmente nenhum outro ator de outra etnia que não seria perfeito para o papel? Que não pudesse somar ao elenco? Eu sei que bato constantemente nessa tecla, mas é algo que realmente tem me cansado ver um monte de cara branca, masculina ou feminina, em papéis que não possuem nenhum tipo de necessidade em serem caucasianos.

Talvez por ter gostado tanto do filme eu ainda não tenha conseguido explorar os problemas mais estruturais do filme, que são tão comuns nas tramas de Christopher Nolan e que podem ou me atrapalhar, como em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, ou não importar, como em A Origem. O melhor é deixar o filme realmente se resolver na minha cabeça para depois tentar enxerga-los e estuda-los.

Pra terminar o que talvez seja o maior texto do mundo sobre Interestelar, (em que estou deixando de falar de um monte de coisas por razões de páginas), se você ficou até este último parágrafo digo que, aos meus olhos, apesar do filme ser todo muito bom e interessante, o que realmente dá a obra o aspecto mais forte, e que, novamente, aos meus olhos, o faz o filme mais interessante de Nolan é o final. A conclusão é o que absolve diretor e filme de qualquer possível arrogância, é aquilo que o firma como um filme sobre a humanidade e aquilo que a motiva a sobreviver.

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