Bom, já passou um tempo da estréia da Jessica Jones e podemos falar daquilo, né? Assim, falar abertamente sobre abuso? Não ainda?
Com a proximidade do filme do Esquadrão Suicida, vamos recebendo fotos, reviews. Com a fama da personagem nos quadrinhos, tendo ganhado série própria e tudo o mais, ganhando ares de “Deadpool da DC”, ainda mais publicidade. Na CCXP de 2015 vi muitas meninas e mulheres de cosplay de Arlequina, também. Acho que foi nesse momento que comecei a pensar: “Mas vocês tão ligadas que ela é uma mulher que ficou louca de tanto ser abusada pelo Coringa, certo?”.

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Lá no começo da personagem, no desenho do Batman Animated Series, do Bruce Timm, já víamos várias cenas dela tentando receber afeto e sendo maltratada. Uma cena clássica dela de baby doll e o Coringa a empurrando de cima da mesa não sai da minha cabeça, além da vez que ele a deixou para morrer em seu lugar. Na série existe um desenvolvimento dessa relação, quando ela descobre que ficar com o Coringa a faz mal, através dos conselhos da sua grande amiga Hera Venenosa. E acaba assim se livrando da influência bizarra do cara com quem tinha um relacionamento abusivo. A ajuda e amizade de uma mulher, a sororidade, salvando a vida dela. Eu achei todo aquele arco muito foda, particularmente.

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Mas e depois, o que a DC fez com a Arlequina? Nos jogos da série Arkhan (City, Asylum, Origins) ela continua lá, do lado do Coringa, e cada vez mais sexualizada. Será que não rola falar do abuso que ela sofreu e continua sofrendo?

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“Ah, Ana, não seja chata! Não tem que politizar tudo!”, calma calma, não acho que vão escrever a Arlequina como uma vítima ou um roteiro onde ela lida com tudo que passou ao lado do Puddin. Mas precisa transformar a amizade dela em algo sexualizado também? Apenas para servir de fan service!

Ela não vira namorada da Hera pra falar sobre bissexualidade, elas ficam apenas sensualizando para marmanjo ver.

Não acho que todos os títulos com mulher tem que tratar de abuso, mas vamos lá, ela é a personagem símbolo disso. E se continuarmos a ver tudo isso e não falar nada, vamos continuar ignorando o abuso que é feito todo dia e pior, normalizando e chamando de amor. Abuso não é amor.

Um amigo falou nas redes sociais: “Você sabe que aquela cena final do Coringa, no trailer do Esquadrão, é ele torturando a Arlequina, né?”. Eu não sei se é mesmo, só depois de ver o filme saberei, mas a questão principal é: poderia ser. Nós não sabemos exatamente o que ele fez com ela. Além de abusar fisicamente (já vimos chutes, tentativas de assassinato, tapas) ele abusa psicologicamente dela, a ponto de transformar uma psicóloga em uma psicopata.

SUICIDE SQUAD

Todos nós amamos odiar o Coringa e a Arlequina é o exemplo mais clássico que temos da glamurização do abuso.

Espero que no filme do Esquadrão eles tratem dela se descobrindo independente do homem que a machuca e domina. Sei lá, custa nada sonhar.

  • Carol teodoro

    Pior de tudo é que, com um coringa Jared Leto, o abuso vai ficar ainda mais glamorizado. Consegue ver?

  • Me incomoda essa coisa de cosplays da arlequina pipocando muito em eventos recentemente, e ainda tem os dos mini coringas (esse vale um texto só para o caso pq pra mim um maníaco psicopata assassino não deveria ser inspiração ou espelho para ninguém). Entendo que a personagem é forte visualmente, que chama bastante atenção, mas é como você diz, é uma personagem sexualizada (no original do desenho não era e era legal assim) e com essa carga histórica de abuso que não é pensando pelas pessoas.

  • Natáli

    Não é que todos os títulos que tenham mulher precisem tratar de abuso, mas, se todas as mulheres são abusadas e assediadas em algum momento da vida, por que nos quadrinhos seria diferente?

    ter sido maltratada pelo coringa não faz da arlequina uma mulher fraca. vítima sim, mas não necessariamente fraca. precisamos levantar esse debate também 🙂

    • Concordo, Natáli!
      Ser vítima não é sinônimo de ser fraca.
      Vou matutar aqui sobre o tema! Quem sabe não sai um post sobre isso 😛

  • Junior

    Só que não se esqueça que o coringa é doente, psicopata, qualquer um é vitima e pode acabar morrendo ou enlouquecendo na mão do louco. Cosplay TEVE ATÉ DO CORINGA, ISSO É ARTE FEITA PELOS FÃS DE HQ, SEM ESSES PERSONAGENS NÃO EXISTIRIA CCXP, QUANTO A SENSUALIZAÇÃO DA PERSONAGEM JÁ VI DE OUTRAS MUITO PIORES E DIGO MAIS A MAIORIA DAS MULHERES E HOMENS GOSTAM DISSO.

    • Verdade, teve cosplay do Coringa tb. Vários. Mas no caso o post fala da Arlequina, só isso.
      Eu amo a arte do Cosplay, muito mesmo. Acho que todos devem se vestir dos personagens que quiserem. Esse fato só me acendeu aquela luz em cima da cabeça, saca?
      O meu questionamento é apenas que, a gente tem que falar que a personagem foi vítima de abusos severos. Coisa que quase nunca falamos no caso da Arlequina.
      Agora, sobre a sexualização é outro tema, acho que até um que renderia vários posts bacanas sobre o tema.

      • Haley

        A personagem desenvolveu através desses abusos um quadro sério de sindrome de estocolmo, quanto ao fato dela ter se “tornado” psicopata:
        ela não se tornou uma psicopata, ela já era, só não manifestava comportamento violento,os traços de psicopatia já eram notaveis na adolescencia dela. Vamos falar de abusos sem incorrer no erro lugar-comum de sermos preconceituosos em relação a transtornos mentais ok?

        • Não tinha lido nada sobre as psicopatias dela na adolescência, Haley.
          Obrigada por esclarecer 🙂

  • Gustavo

    A Arlequina já deu sopapos no coringa em algumas histórias, inclusive dormiu com outros caras (por exemplo com o pistoleiro), demonstrando não ser uma bonequinha totalmente viciada no coringa.

    No iria ser bacana o coringa ficar com ciúmes dela com o pistoleiro, mas não creio que vá acontecer tão cedo.

  • Isabela

    Olá, Ana!
    Sou muito fã da Arlequina e do coringa e já fui fã do casal a antes de problematizar a relação e até cheguei a desgostar da hera.Permaneço gostando das personagens,apesar de rejeitar o casal, porque eles me geraram muitas reflexões e são personagens bem complexos.A arlequina por exemplo tem seis quadrinhos próprios dos novos 52 e durante suas histórias alterna entre a docilidade e a brutalidade com muita frequência, por exemplo ajudando os animais que abriga em um andar do prédio onde vive ou uma garotinha que perdeu a mãe a compreender a dor do pai e na mesma história explodindo policiais e batendo em um cara com sua marreta. Achei o comentário da moça lá em cima sobre a arlequina ser mais que uma vitíma e não ser fraca bem pertinente, espero muito que explorem mais dela do que seu relacionamento abusivo e tempestuoso com o coringa, nem que seja a maneira como ela vai superando isso, com as recaídas e apoio do grupo de amigas, sendo a principal a hera mas existem outras.

  • Luciano Pinheiro

    Pode ser que minha memoria esteja falha, mas lembro de que na serie animada A transformação da Arlequina parecia mais uma libertação
    Que um abuso,é como se ela libertasse o lado louco dela, sem se importar mais com amarras sociais. Depois disso, a serie Arkhan nunca desenvolveu ela muito BEM (assim como tantos outros personagens),ela nunca passou de um vilão MENOr a mando do CORINGa.Se tem uma coisa que da para creditar a serie Arkhan é introduzir essas roupas minúsculas. De resto, acho que os quadrinhos estão ajudando bastante em formar uma personalidade para ela mais distante do coringa.

    • Luciano Pinheiro

      Corta aquele “que um abuso” hehehehehe.

  • Marcelo

    A DC não sabe tratar de abuso, muito menos de pontos de vista diferentes no cinema. Vale lembrar de todos os filmes produzidos por eles e ponderar: Quantos negros existem nos filmes? Quantos filmes passam no teste de Bechdel? Quantas minorias são retradas como vilões, ou bandidos? E pior: Quantos chefões dos criminosos são negros, mulheres, asiáticos ou qualquer outra coisa que não: Brancos Cis Heteros ?

    É como se a DC fosse a caracterização de todo o patricarcado e capital presente no mundo.
    Eu digo isso, porque até no exemplo que a autora cita, da sororidade da Harley com a Eva, cai no ~~fanservice~~ logo de cara.

  • Natacha Borges Iurassek

    Então, sei que pode soar arrogante, mas falar da arlequina baseando-se apenas na série animada não rola. aliás, apesar de ser criação paul dini/bruce timm é evidente pra quem acompanha o desenvolvimento da personagem que mesmo na época seus criadores não tinham ideia do porque a personagem ficou tão popular, e quando decidiram lhe dar uma origem esta ficou sexista e rasa – aliás sempre que ambos tem dedo em uma história dela é fácil apontar como a personagem torna-se uma sonsa/capacho de quem está do lado. esses dois simplesmente não sabem lidar com a personagem sem que esta esteja de sidekick de outra pessoa. Nos quadrinhos por um tempo foi o mesmo, com ela sendo tratada como “namorada do coringa” apenas, até que no vol.1 de 2000 da revista solo da mulher-gato fizeram um arco protagonizado por ela que mudou tudo (revistas 81-84 “The Lesser of Two Evils”). Depois veio a revista solo dela de 2000 em que realmente houve foco na personagem (finalmente), recomendo a leitura da edição de origem dela Harley Quinn #5 (2001): “The Somewhat Secret Origin of Harley Quinn”. ao se lidar com personagem dos quadrinhos é bom deixar evidente que cada edição contém uma interpretação diferente, no caso da arlequina vê-la como capacho sem cérebro do coringa é o que faz muita gente feliz, mas simplesmente não é verdade. sua fama não vem disso e sim do fato de não ser mais outra femme fatale, e sim alguém inteligente e manipuladora que vê na loucura algo libertador, e que nessa liberdade passou a encarar a violência mais ou menos com os olhos de uma criança sem moral. não sei o que fizeram com ela nos novos 52, já que estou lendo desde sua criação e não alcancei ainda, mas não me surpreenderia se colocassem toda a culpa no coringa e que a tornassem alguém passível de dó, uma vítima de quem rimos apenas. aliás, mesmo na série animada ela também bate no coringa – vale lembrar. então a meu ver tanto quem curte a personagem porque é apenas “namorada do coringa” como quem vê a relação dos dois apenas como abuso precisaria consumir mais coisas com ela. acho que é isso.

    • Verdade, Natacha.
      Vale sempre lembrar que quando falamos de personagens de quadrinhos é complicado traçar apenas uma linha. Temos roteiristas boas/bons e ruins, pessoas que tratarão a Arlequina de forma rasa e de forma mais complexa. Talvez por isso mesmo eu goste tanto de quadrinhos, ao lado da literatura, é uma das artes que eu acho possível um desenvolvimento muito bacana das personagens. Enfim, realmente depende bastante do tipo de história. Como você mesmo disse, nos novos 52 eles podem ter mudado coisas que tinham feito antes.
      Obrigada pelo seu comentário mais profundo sobre a questão.

  • Então xD Eu nunca fui muito ligada em DC, tinha pouco conhecimento em relação à Harley…Já tinha visto ela no TAS, mas eu era criança e nem lembrava das situações de abuso. Recentemente eu comprei o jogo de luta da DC, o Injustice, e comecei a jogar no modo história. Estou lá tranquila assistindo as cenas entre as lutas e aí do nada o Joker solta uma bofetada na cara da Harley. Eu fiquei em choque. Sabia que havia algo de abusivo na relação entre os dois, mas até aquele momento eu não tinha enxergado que era essa coisa bem escancarada e violenta mesmo, sabe? Acho que eu não tinha parado pra pensar nos dois depois de ter saído do armário feminista.

    Eu fiquei tão chocada que pensei: GENTE!!! Mas por que que todos amam essa personagem? Por que que tem mil cosplayers de Harley por aí? Coloquei no google termos como “Harley e Joker violência doméstica” e talz, e encontrei um texto que esclareceu tudo pra mim. O texto falava que a Harley, assim como qualquer mulher que sofre violência doméstica, é uma VÍTIMA. Ela representa muito bem todas essas mulheres que estão presas a relacionamentos do tipo, reproduzindo comportamentos reais de pessoas reais. Mas é curioso que, apesar de isso estar bem na cara, quem que a gente critica? A Harley. Como se ter muitas cosplayers de Harley fosse algo ruim porque ela é saco de pancada do Joker. Mas pera, por que que ela é a culpada por ser vítima? Por que que não nos indignamos com os cosplays de Joker, e sim com as milhões de Harleys? Foi nesse momento que eu tive esse clique e me apaixonei perdidamente por ela. Queria cuidar dela, queria ver ela empoderada, queria ver ela livre do Joker. Queria fazer cosplay dela também, porque naquele momento vi que ela era mais uma de nós que sofre com um problema que afeta muitas de nós.

    Gente, a Harley não é o problema. As trocentas cosplayers de Harley NÃO são o problema. O relacionamento abusivo é, a glamurização da violência contra mulheres é, o Joker é. A falta de uma problematização mais profunda desse relacionamento pelos roteiristas é.

    Aí já me perguntaram várias vezes: Mas o que todas as meninas vêem na Harley pra todo mundo gostar nela? Bom, no meu caso foi um lance meio de empatia e sororidade, mas é interessante ver o contexto no qual a personagem nasceu. Eu encontrei esse texto muito bom que entra nesse assunto de forma bem interessante: http://www.vulture.com/2014/12/harley-quinn-dc-comics-suicide-squad.html

    Enfim, escrevi textão XD É só que eu realmente acho MUITO injusta a forma pela qual as pessoas tendem a culpar a Harley, as roupas da Harley, a sexualidade da Harley, sendo que ela é a grande vítima de tudo isso. Depois da bofetada que citei lá em cima, eu adquiri um asco do Joker que vocês não têm ideia. Ele é um excelente vilão e cumpre perfeitamente seu papel…Que é o de assustar, de deixar o estômago embrulhado. Queria que as pessoas enxergassem ele por esse viés, não só do “OMFG, O JOKER É O MÁXIMO, HARLEY&JOKER FOREVER”.

    Mas enfim XD O que eu quero dizer com isso tudo é: Harley é amorzinho. Não vamos botar a culpa do que ela sofre nela mesma. Vamos pedir mais Harleys empoderadas, livres, sobreviventes, por favor! =)

    PS: Eu adoro ela no quadrinho solo dos Novos 52. É divertidíssima, livre do Joker, feliz e tem um relacionamento muito positivo com a Ivy. Não li tudo ainda, mas até onde li (acho que até a issue 4 ou 5), achei muito fofo e nada sexualizado. Shipei fortemente xD

    • Ah, sim! E lendo os ótimos comentários já feitos, também ressalto essas situações nas quais a Harley se mostra mais do que a vítima do abuso do Joker. Nos Novos 52 ela se mostra bem forte e resolvida, mesmo com algumas recaídas, e recebe apoio a Ivy. Além disso, ela quer fazer uma atividade diferente e entra num time de roller derby. Fica bem claro que ela se volta mais pras mina, pras amizades, pras coisas que dão mais prazer a ela. =) Eu quero que a Harley do filme de SS siga essa linha de libertação no final. Tô com medo deles não explorarem o assunto de forma responsável, mas a esperança é a última que morre xD

      • Oi, Juliana, caramba, concordo contigo. E eu tive meio que o choque que vc teve tb quando olhei ao lado na CCXP, e pensei que era hora de levantar a questão. E achei perfeito quando você diz: “Gente, a Harley não é o problema. As trocentas cosplayers de Harley NÃO são o problema. O relacionamento abusivo é, a glamurização da violência contra mulheres é, o Joker é.”

        Gostaria que a gente pudesse sempre pensar criticamente sobre as coisas que passamos e vemos em volta, entende? Problematizar. E o fato da personagem ter se popularizado, eu entendo como um gancho importante pra levantar essa questão.

        Acho que tem apenas um ponto que não sou de acordo completamente (hehehe, nada é perfeito), ainda não vejo a Harley como uma personagem capaz de empoderar a mim. Como vítima de relacionamentos abusivos, e cada vez mais descubro que mais mulheres em volta de mim o são, eu fico com uma sensação ruim ao ver a Harley e a forma como ela é tratada por quem a escreve. Teve um comentário bem legal aí em cima falando sobre a origem dela e o fato dela ser doente também, que me fez pensar. Ela não desenvolveu uma psicopatia depois do abuso, e que isso é um lugar comum ao tratar de transtornos mentais. E é mesmo. No final do dia, a Harley é uma mulher capaz de matar e seria assim mesmo se nunca tivesse conhecido o Joker. E quando a tratam como alívio cômico me incomoda um pouco também. Eu sinto a empatia da sororidade e acho muito bom quando retratam ela e a Hera se ajudando e se apoiando, mas não sai da minha cabeça o fato dela ser uma vilã e ser capaz de atos de extrema violência também.

        MAS, talvez seja só eu pensando demais, hehhehe… faço muito isso.

        • Entendi o que você quis dizer xD Hehehe! Realmente, você está certa…Ela é uma vilã…Acho que o fato de tratarem ela com esse ar mais cômico faz com que a gente se esqueça disso, ou aceite coisas que ela faz que não poderiam ser aceitas. =)

  • Hinaroid

    caso alguem não tenha visto, pq passa muito rapido no trailer: http://4.bp.blogspot.com/-eFwWRcDnw7o/VaR57We0GHI/AAAAAAAAhmI/aZQ9bbWDK0w/s1600/ssq011.png

    espero q abordem esse tema como deve ser abordado….

  • Eu já tinha me colocado a pensar sobre a Harley várias vezes sobre esse tema… e sabe qual é a grande merda? Quando vc levanta a lebre ainda tem gente que diz “ah mas ela é apaixonada por ele, apanha mas volta, ela gosta”… e isso é revoltante de ouvir, porq para quem nunca sofreu qualquer tipo de abuso, não entende as implicações psicológicas de quem foi abusado… tem uma sequência que li recentemente, mas não vou lembrar agora onde, em que no meio de uma luta com a canário, ela descobre que a harley está grávida… e ai segue uma sequência em que ela se emociona falando da relação com o coringa… como que alguém pode achar isso legal ou simplesmente “ok”?

  • JollyDante

    Entendo seu ponto e consigo ver de onde vem a necessidade de problematizar isso, mas do jeito que eu vejo, o Coringa não é um cara, ele é uma força da natureza. Ele é o caos encarnado. A Arlequina surgiu mais ou menos do mesmo lugar de onde Nietzsche tirou o “quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. Como existem muitos criadores de conteúdo diferentes, acaba que vários personagens desviam sim da sua personalidade canônica. O único controle de qualidade pra isso é o público. E daí eu não vejo a problematização da arlequina sendo o centro do problema, tanto quanto a mentalidade do público que quer sim ver a hipersexualização da Hera com a Arlequina, momento onde, como eu disse, eu entendo a crítica. Mas como personagem, acho que se fosse diferente isso machucaria o que o Coringa é.

    • Collant Sem Decote

      E porque sacrificar o desenvolvimento e a representação da Harley é ok só para não “machucar” o que o Coringa é? Nessa nova fase nos quadrinhos ela está afastada do Coringa, entende o seu relacionamento com ele como abusivo e tá cada vez mais independente. Tantos vilões começaram em equipes e se separaram, continuando os personagens icônico que sem foram.
      Não entendo como desenvolver uma personagem feminina pode afetar a representação do Coringa que, inclusive, existia muito antes da Harley. Ou seja, se ele pode ficar sem ela, porque ela não pode ficar sem ele?

      • JollyDante

        O Coringa existia antes da Harley, sim, mas o Coringa “força da natureza” não, e ela nasceu como uma muleta narrativa pra ele. De qualquer forma, eu não disse que ela não pode ser desenvolvida, mas dependendo da forma que isso for feito, se for representatividade por ela mesma, pode sim machucar o Coringa. Não vai ser fatal, mas não vai ser bonito. E de fato o Coringa é muito maior que a Arlequina, ele é muito maior inclusive que o Batman. E o Superman. Juntos. Se nessa nova fase eles conseguirem realmente fazê-la independente, ótimo. O meu ponto, porém, é exatamente que tudo não tem que ser perfeito ou certo no cinema, senão a gente acaba caindo numa ditadura do bem, e do jeito que eu vejo a vida, isso seria bastante prejudicial. Mas tenho que admitir que a partir daqui sou só eu e meu achismo.

        • Rafael Sanges

          Coringa é um vilão popular. Mas falar que ele é mais popular que o Batman e Super-Homem juntos é muita viagem. Não é nem o personagem mais popular da DC. Não sei dá onde veio isso de força da natureza e caos. O Grant Morrisson não tratou ele assim, o Scott Snyder não tratou ele assim. E foram os autores que trabalharam mais ele nos últimos tempos. Ele é o oposto do Batman, assusta os heróis como o Batman assusta os vilões, mas no final ele é só um homem, como ficou claro nos arcos rip, morte em família, ou endgame.

          • JollyDante

            Não falei que o Coringa era mais popular, falei que era mais importante. O Batman é basicamente a história de um cara normal lutando contra deuses, ele é uma grande analogia à pessoa comum e seus sentimentos mais subterrâneos. E não, o Coringa não é um cara normal também. Ele é um conceito. Ele não é um vilão, ele não tem propostas vilanescas. Ele não é um ponto cautelar. Ele não se preocupa, ele não deseja. Ele faz. Ele causa. Ele significa que o caos existe, e age como encarnação do mesmo. Em alguns momentos as histórias até sugere que talvez ele seja um delírio do Wayne. E sem ele, a dicotomia do Nietzsche sobre a qual o morcego ficou tão famoso some. Tanto o Coringa não é só um malvado que a identidade dele é desimportante na maioria das histórias. O Jason Todd pode ser o Coringa do Jared Leto até onde a gente sabe… Enfim.

          • Rafael Sanges

            Rapaz, sem ofensa, mas acho esse Coringa que você imagina fica tb só no delírio, talvez em elseworlds. O “mais importante” aí é claramente relativo a tua pessoa. Ele não se preocupa? Não tem propostas vilanescas? Ele não deseja? Pode-se afirmar que ele não liga para coisas materiais. Mas ele é um narcisista showman que adora fama e chamar atenção, oq nao falta são planos vilanescos exemplificando isso. E chiliques e ataques de raiva, lipo quando ele mata o Alexander Luthor pq ele não foi incluído na Crise Infinita. Ele é obcecado pelo Batman, logo ele deseja, só ver o discurso dele em Batman RIP. Na real, já foi estabelecido que ele tem personas, que vão se alterando, mas o narcisismo, a obsessão, o sadismo são constantes.

        • Collant Sem Decote

          Continua não fazendo sentido cortar o desenvolvimento da Arlequina, ainda mais se for porque ela parece, de alguma maneira, “uma muleta”.
          Que eles desenvolvam o Coringa para além da Arlequina, da mesma maneira que estão fazendo com ela na nova fase dos novos 52.
          E desculpa, Coringa ser mais famoso que Batman e Superman é um pouco demais.
          ~Ditadura do bem~ – nesse ponto, colega, só tenho a te desejar mais leitura sobre a importância da representatividade. Não é sobre cortar a vilania do personagem, é sobre fazer isso de outra maneira.

  • Ingred Rose

    No reboot da DC (novos 52), nos quadrinhos do Esquadrão Suicida, Harley se liberta sim do Coringa. Ele tenta machucá-la e aproximar do caixão do Floyd (Deadshot) e ela toma uma iniciativa quanto à isso. Ele também a machucou na revista do Batman por ter descoberto que ela ficou com o Floyd, mas a questão é… Eles estão se baseando nos novos 52 para os filmes. Tanto que a Harley só fez parte do esquadrão nesta versão. E sem dúvida ela vai ser mais independente, se não agora no próximo filme. Vão só dar um feedback de como ela se tornou Arlequina e por isso é muito importante que o passado com o Coringa apareça. Gosto bastante da postura dela pós reboot. Não é atoa que tem uma revista solo e faz muito sucesso.

    • Collant Sem Decote

      Estamos na esperança de que a Arlequina do filme seja muito parecida com o dos novos 52, o trailer parece indicar esse caminho! o/
      Mas isso não quer dizer que não é importante ressaltar que o relacionamento é abusivo, já que ainda tem muita gente que “shippa” os dois, como se fosse fofo.

  • Ricardo

    Sou leitor de quadrinhos mais “old school” e entendo perfeitamente que os quadrinhos e filmes atuais passem a retratar os anseios da velha guarda mas adaptem-se ao(s) público(s) mais novo(s).

    Não vejo problema nenhum em filmes e quadrinhos terem protagonistas mulheres (vide o sucesso da Rey no novo Star Wars e da série da Jessica Jones, que achei demais), mas acho uma merda quando essas mesmas protagonistas ficam meio “gratuitas”, ou só pra satisfazer marmanjo, tipo a Arlequina aqui (sensualizando, lambendo grade, empinando a bunda sem necessidade pra pegar um troço da vitrine).

    Outro exemplo é a Mística nos filmes dos X-Men. Antes era só Wolverine, Wolverine, Wolverine… agora só dá ela. Mas aí já não sei se é pelo hype da Jennifer Lawrence ou se eles realmente têm a intenção de prestigiar uma protagonista feminina.

  • Rafael Sanges

    Existe uma coisa, a Arlequina original (não a dos novos 52) era uma vilã, com leves toque de anti-heroina. Antes de encontrar o Coringa, ela já era extremamente problemática, glamorizava os vilões de Gotham e achava que o verdadeiro vilão era o Batman. Ela não é, nem nunca foi um exemplo a ser seguido, e sim um conto cautelar. Além da relação doentio, ela é uma assassina sociopata, sem remorso. O abuso que ela sofre foi sempre explícito, doentio, louco… Oq o Coringa faz com ela é vigente pq ser pra causar nojo e como ela responde tb. De novo, não é um exemplo a ser seguido, mas ser evitado. Os dois juntos participam de genocídio, assassinato em massa, infanticídio… Ninguém tem que se inspirar neles, não é o papel. Falar dela se livrar do Coringa, é como falar que do próprio Coringa se arrepender dos seus crimes. Até pode rolar uma transformação do personagem, já que ela cresceu muito em popularidade, mas isso é outra questão.

  • Dou uma corridinha pela timeline:

    Textão problematizando a Laura do Street Fighter
    Textão problematizando a Arlequina
    Textão problematizando a Rey

    PQP, se fosse desenvolvedor eu voltava a fazer só personagem homem pra não ter encheção de saco. Pelo menos não vai ter “uiuiui o Kratos é muito pelado e tem um corpo idealizado snif snif”

    • Pedro

      Tinha que ser o Clarion de novo…

      • Collant Sem Decote

        Quem é Clarion na fila da HQ?

        • Pedro

          Clarion é aquele cara que lê Jessica Jones e fica indignado porque a história não abordou violência contra os homens, e depois faz vídeo dizendo que os homens também são oprimidos, e que por isso, machismo não existe.

  • vertigini

    Não sei se você sabe: O Coringa é um psicopata, ele abusa de todo mundo. Ele abusou de Jason Todd e assassinou-o. Use um padrão mais abrangente de análise, sem padrão duplo ou indignação seletiva. Não há nada de sexista no Coringa. Ele não se importa com valores, ele não se importa com nada. É um maníaco.

    • flávia fernandes

      Em nenhum momento o texto fala que o Coringa é um sexista abusador de mulheres. O texto é sobre a Arlequina, sobre o abuso sofrido pela Arlequina, sobre como ele é retratado – ou não retratado. Mania de vocês de acharem que é tudo sobre homem.

  • Jaqueline

    Não sei se você leu os quadrinhos do Esquadrão, mas existe toda uma evolução da personagem dentro deles. No início do Esquadrão ela realmente está num estado ainda totalmente obsessivo e dependente do Coringa. Tanto que quando ela descreve como ela foi presa ela diz que a própria Canário Negro parecia triste quando levou ela, porque ela estava num estado deplorável por ter sido abandonada pelo Coringa.
    Mas com o passar das edições ela vai crescendo, tanto que culmina naquela épica cena de termino dela com o Coringa e quando ela volta ela também da um pau no Pistoleiro (com quem ela havia se envolvido e também tratava ela extremamente mau).
    Mas tudo isso foi uma questão de evolução.
    Esse é o primeiro filme do Esquadrão, e pelas expectativas que ele está gerando é provável que venham mais e eu realmente espero que aja uma evolução dela entre esses filmes assim como aconteceu nos quadrinhos. Mas para existir evolução primeiro precisa haver um estado inicial, então já era meio obvio que no inicio ela seria tão dependente do Coringa quanto ela era nos quadrinhos.
    E sobre a criação da Harley depende de qual versão estamos falando, da versão dos Novos52 ela enlouquece depois de ser jogada no tanque de químicos, mas como o Coringa insinua para ela, aquela loucura sempre esteve dentro dela, tanto que ela se apaixona por ele e tem um surto onde quase mata uma colega de trabalho e um guarda e ajuda ele a escapar quando ainda estava em “plena consciência”.
    Enfim, a Harley foi criada como uma personagem totalmente objetificada e sexualizada, tanto que em algumas HQs ela não tem nem fala e só serve como ornamento do Coringa. Levando isso em conta a evolução da personagem até agora é realmente notável, tanto na HQ dela, onde ela finalmente conseguiu superar o relacionamento deles, quanto nas HQs do Esquadrão, quando ela finalmente notou que ela não precisava dele, que por mais que ela o tivesse amado ela era muito mais do que um brinquedo criado por ele.
    Eu realmente espero que eles também façam esse processo de evolução com ela também nos filmes.
    Porque mesmo com a sexualização que é trazida no filme, e que eu espero que eles se toquem e melhorem depois de verem as críticas, o filme do Esquadrão veem trazendo alguns pontos positivos, como o fato de mais da metade do grupo ser formado por atores não brancos (o que também acontece com o grupo da Liga), e sobre eles terem incluído mais personagens femininas, o que tirou aquele aspecto de Smurfette da Harley, já que tirando a Amanda ela é normalmente a única personagem feminina fixa nos quadrinhos.

    • Rebeca Puig

      Só uma correção, a Harley foi criada como uma psicóloga que se apaixona pelo Coringa e se torna sua sidequick. Ela não tinha nada de sexualizada ela era, na verdade, uma personagem completamente vestida e que lembrava muito as Arlequinas. https://i.ytimg.com/vi/-kZIN_BiWA4/maxresdefault.jpg

      Sobre a diversidade étinica do filme, uma coisa não substitui a outra. E sim, há três personagens femininas na equipe, todas sexualizadas à sua maneira, entre seis homens. Tem duas vezes mais homens do que mulheres nesse filme.

    • Jaqueline

      Sim, mas adiantava ela estar vestida dos pés a cabeça e ainda ser uma personagem completamente submissa ao Coringa? Ou ser representada apenas como um ornamento dele?
      Quando a Harley foi criada no desenho eles não tinham intenção de manter ela como personagem, na verdade ela só foi para as HQs porque ficou bastante popular e nas primeiras representações dela era totalmente objetificadas, tanto que como eu falei, tem HQs que ela nem tem falas ou é citada pelo nome.
      Eu não acompanho todas as HQs do universo do Batman, mas pelo que e conheço as HQs do Esquadrão foram as primeiras onde a personagem realmente ganhou um papel independente do Coringa, criando uma evolução que a levou a finalmente ter um termino com ele em uma cena onde ela deixa bem claro que não quer mais ser vista como um brinquedinho pra ele e depois também se desvincula do Pistoleiro, que embora não a tratasse tão mal quanto o Coringa também era um baita de um babaca.
      E eu acho bom lembrar como ela era no início das HQs do Esquadrão quando fizer relação com o filme, porque o filme também é o início da trajetória da equipe e dos personagens no cinema, e todos personagens precisam de um ponto inicial para que possam ter uma evolução. O que vai me decepcionar mesmo é se essa evolução não existir.
      E eu não falei que o fato do filme dos Esquadrão ter coisas boas exclui a sexualização da personagem, eu só falei que apesar disso ele também trás coisas boas, como a formação do elenco.
      E não sei se você já leu as HQs do Esquadrão, mas nelas tem bem menos personagens femininas que no filme, então eu considerei um ponto positivo eles terem se preocupado em acrescentar mais personagens femininas no filme. É claro que realmente o número é bem desproporcional ao número de homens, mas isso acontece em todos os filmes de super Heróis (na equipe dos Vingadores tem ainda menos mulheres em comparação ao número de homens e na da Liga da Justiça tem só a Mulher Maravilha).
      Então ter três mulheres na equipe e uma mulher como líder do grupo já é um avanço comparado a outros filmes de super-heróis até agora.
      E eu realmente não vejo onde a Katana está sendo sexualizada, aquele pedaço de barriga a mostra? Sério? Porque eu não consigo ver isso como sexualização, não no ocidente pelo menos. Eu vejo como uma versão mais moderna do uniforme dela, porque essa é a premissa do filme, deixar todos eles com ar de vilão “cool” moderninho.
      Eu ainda não gosto daquele uniforme da Enchantress, não entendi bem a concepção dele na verdade, mas como eu ainda não vi nada usando o uniforme ou ela de uma forma sexualizada prefiro me abster de opiniões sobre isso até o filme.

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