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Eu acho especialmente interessante e engraçado assistir aos lançamentos das adaptações dos Young Adults na data do lançamento – ou o mais perto disso que eu puder. Os adolescentes têm um tipo de conexão que pra gente, que já passou dessa idade, é mais difícil de fazer ou de se deixar sentir. É uma ligação quase física com o que está passando na tela. As interações variam e, por mais que seja chato assistir a um filme com burburinhos constantes, eu acho que esse tipo de envolvimento eleva o filme a um nível mais alto.

Hoje, às 12:30, fui assistir ao Jogos Vorazes – A Esperança Parte I. Queria uma sala com adolescentes, mas sem a horda que se forma nos horários mais normais. Foi isso que consegui. E a cada virada do filme, ou momento icônico do livro, o grupo de adolescentes – composto de garotas e garotos, devo dizer – reagia de uma maneira divertida ou emocionada.

Histórias divididas em duas, três ou sete partes sempre procuram nos deixar segurando o ar no final do filme. Pra mim, o maior exemplo disso é A Sociedade do Anel – lembro até hoje dos meus amigos sentados na sala depois do fim dos créditos, dizendo que só iam sair de lá quando o filme terminasse. Acho até que essa foi minha primeira experiência com esse tipo de linguagem, o filme termina – só que não. É o que eu chamo carinhosamente de final “da porra”, quando o diretor e o editor estão tomando uma breja e rachando de rir do nosso desespero.

Em determinado momento de Jogos Vorazes – A Esperança, o roteiro nos dá a sensação de que vamos terminar num cliffhanger muito grande, a cena corta para o preto e nós ficamos lá por uns cinco segundos. Todos que estavam à minha volta no cinema seguraram o ar. Alguém soltou um pequeno “eles não vão fazer isso comigo”. Assim que a próxima cena começou, os suspiros de alívio e as risadinhas nervosas me fizeram gargalhar. Essa experiência é realmente muito divertida.

KATNISS

Jogos Vorazes tem um tipo diferente de imersão dos outros filmes do gênero que assisti. Diferentemente de Crepúsculo (assisti todos no cinema, e os quatro últimos em pre-estréia – não perguntem) e Instrumentos Mortais: Cidade dos Ossos, que procuram focar essa imersão nos beats românticos, Jogos Vorazes trata o triângulo amoroso como subplot; o que importa é que o público sinta os personagens pelo que eles são – pessoas. As mortes, as vitórias e as derrotas são coisas que importam mais do que se Katniss vai ficar com Peeta ou com Gale. (Gale, por favor.¬¬) A história da protagonista não é movida pelo amor incontrolável ou impossível que ela sente, mas pela necessidade de sobrevivência, e pela necessidade de proteção.

A partir do segundo filme, Katniss passa a se preocupar em manter Peeta vivo, já que, aos olhos dela, ele é o verdadeiro símbolo de esperança no meio de tanta tragédia e desespero. Por mais que Katniss transforme a luta contra a Capital numa maneira de conseguir resgatar o “namorado” (sério, nem eles sabem se eles são isso mesmo), sua história não é reduzida ao relacionamento – muito pelo contrário, essa é uma decisão egoísta. Em meio a toda merda, em meio a toda dor e desespero pelos quais os distritos estão passando, a primeira preocupação de Katniss é um desejo seu. Heroínas que são egoístas é um dos tipos mais escassos de personagens femininas, e ela não é Han Solo e nem deveria ser, mas só nesse pequena escolha a escritora já dá um grande passo. Katniss é uma personagem forjada na dor, apoiada por sua força física, ancorada numa realidade violenta e cruel. Ainda assim, ela se sobressai por sua empatia.

effie

Mesmo personagens como Effie, famosa pela superficialidade, ganham algum tipo de desenvolvimento na história.

Em determinado momento, Haimitch pergunta para uma sala cheia de militares em qual momento Katniss realmente comoveu eles, não por causa de Peeta, mas por ela mesmo. Só Effie responde, a mina louca da moda superficial da ostentação, só ela consegue realmente ver que Katniss é mais do que um símbolo, ela é uma pessoa. A inspiração deve vir dos seus atos, não de uma publicidade qualquer. É isso que a personagem representa, a liberdade de ser você mesma, de saber se encaixar no que o momento necessita, mas de saber ir além disso. Lutar pelo que é certo, pelo que você considera certo, mas com compaixão pelo próximo.

Se Katniss não é um exemplo para nossas meninas e meninos, eu não sei quem é.

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Tenho uma relação engraçada com as adaptações desta série de livros para o cinema, e polêmica também. Acho que os filmes são melhores que os livros. Não estou, de maneira nenhuma, tirando o crédito de Suzane Collins e dos livros. Meu ponto aqui é que os filmes, por saírem do ponto de vista de Katniss, conseguem dar uma amplitude maior do que é viver nesse universo, do que são os Jogos Vorazes e, neste filme, do que é a guerra. Acho, de verdade, que a adaptação desta série de livros é uma das mais bem feitas, conseguindo passar os principais pontos da história e expandindo o mundo em volta dos protagonistas.

O segundo e o terceiro livros têm um aspecto que acho problemático: a primeira parte da história se arrasta, deixando poucas páginas para um fechamento mais satisfatório e um desenvolvimento de ação e plot que façam mais sentido. A viagem de Katniss e Peeta pareceu se arrastar em Em Chamas, e toda a primeira parte de A Esperança me fez querer pular páginas para chegar logo à ação. Não estou dizendo que desenvolvimento de personagens não seja importante, mas que o ritmo lento prejudicou a minha experiência de leitura. As adaptações, no entanto, conseguiram tornar essa espera mais dinâmica, exatamente porque, ao mesmo tempo em que nos mostram Katniss, nos mostram o que acontece com os outros personagens. Seguir Gale enquanto eles resgatam Peeta dá uma sensação de completude à história que só favorece o plot e a imersão do espectador.

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Um dos meus elementos favoritos nos livros e nos filmes é o modo como Suzanne faz uma crítica, as vezes quase velada, ao modo como a publicidade controla o que queremos e até mesmo quem nós somos. Por mais que ache que o tema está sendo bem trabalhado no filme, e entenda que em uma adaptação algo sempre acaba se perdendo, eu gostaria de ter visto essa crítica de maneira mais forte no filme. A maior parte dessa parte da história acontece através de Cressilda (outro ponto positivo de usar a perspectiva de outros personagens no filme), o modo como ela percebe os atos de Katniss e de Gale. Presidente Coin e Plutarch também representam bem essa manipulação, eles precisam que Katniss seja mais do que uma pessoa, e é através da publicidade que eles vão conseguir isso. Mesmo entre seus aliados, Katniss precisa ser controlada e manipulada. Aliás, Phillip Saymor Hoffman trás muito para seu personagem através de pequenos gestos, é incrível ver como com muito pouco ele consegue transparecer e dar força a essa denúncia. É uma pena que tenhamos perdido tanto talento, e estou curiosa para saber como a produção vai lidar com essa perda no próximo filme.

Como obra cinematográfica, o filme é muito bem executado, com uma direção que sabe dar a fluidez que a história precisa, que usa a crítica à publicidade como linguagem, e que não pesa a mão a ponto de apagar o trabalho dos roteiristas. Como já disse, o roteiro do filme consegue contar uma história interessante sem comprometer aspectos importantes do livro, como o trauma pessoal de Katniss.

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O personagem que eu mais senti falta de ver um desenvolvimento foi Gale. Eu queria mais Gale.

De maneira geral Jogos Vorazes – A Esperança é um blockbuster sci-fi de ação que consegue atingir muitos pontos altos, muitos elementos positivos. Ele não é uma obra de arte, mas faz aquilo que é o mais importante, ao meu ver, para um filme: fazer o espectador se importar e submergir na história. Mesmo aqueles que não são o público-alvo do filme. Talvez uma segunda ida ao cinema me deixe mais alerta aos erros do filme, ainda não consegui refletir bem sobre a diversidade neste filme específico. Mas se você está procurando um filme muito bom para o final de semana, e tiver assistido a todos os outros, Jogos Vorazes – A Esperança é definitivamente uma boa pedida. E se você ainda não viu todos, relaxa, ele vai ficar em cartaz por tempo suficiente para uma maratona Netflix.

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Agora é esperar até 2015 para assistir Peeta enlouquecido, Johanna espalhar seu ódio pela Capital e para vermos Presidente Snow queimar na flecha de fogo do Tordo.

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