A premiação do Globo de Ouro deste ano ficou marcada pelo poderoso discurso de Meryl Streep ao aceitar o prêmio Cecil B. DeMille, em reconhecimento ao seu trabalho e carreira em Hollywood. A atriz usou seu tempo no palco para condenar o comportamento de Donald Trump, que imitou um repórter com deficiência durante sua campanha presidencial, e falou sobre como a atitude de alguém tão poderoso influencia outros a fazerem o mesmo.

De fato, não só em cargos políticos, mas em cargos de grande apelo popular, como é o caso de atores e celebridades, as atitudes ficam em foco e acabam “dando permissão” para outros fazerem o mesmo.

O discurso de Meryl Streep pode ser facilmente usado em outra direção quando ela fala sobre o “exemplo” de pessoas e cargos poderosos: Hollywood.

Hollywood é o maior centro de cinema e entretenimento do mundo, mas como “exemplo”, não tem feito um bom trabalho. A “indústria das estrelas”, na verdade, tem feito um ótimo trabalho em esconder os “podres” de suas celebridades e, ainda assim, mantê-las na mídia com trabalhos grandiosos.

Vamos dar dois exemplos com nomes: Johnny Depp e Casey Affleck. O primeiro acusado por agressão física pela ex-mulher, Amber Heard, e o segundo acusado de assédio e estupro por mais de uma pessoa. Ambos mantêm seu prestígio inabalado no cinema, conseguindo papeis importantes – como Depp em “Animais Fantásticos e Onde Habitam” – e, até ganhando Globo de Ouro –, como Affleck por melhor ator em “Manchester À Beira-Mar”.

Johnny Depp foi acusado e condenado por ter agredido fisicamente a atriz Amber Heard enquanto os dois estavam casados. O caso do ator foi grandiosa e minuciosamente noticiado por grandes veículos da imprensa americana. No entanto, isso não comprometeu sua carreira, nem sequer chegou a ameaçá-la. Ele conseguiu um dos papeis principais de “Animais Fantásticos e Onde Habitam” e todos o aplaudiram por sua excelência como ator. Por mais bom ator que ele possa ser, o fato de ter agredido fisicamente uma mulher não o atrapalhou. Depp está protegido.

No Globo de Ouro, Casey Affleck recebeu seu prêmio de Melhor Ator das mãos de Brie Larson, ganhadora do Globo de Ouro de Melhor Atriz em 2016 por “O Quarto de Jack”, onde interpreta, justamente, uma personagem abusada sexualmente por seu sequestrador.

A expressão da atriz ao ler o nome de Casey Affleck como ganhador do prêmio reflete o que deveria ser o pensamento “comum”: como a Academia está premiando um suposto estuprador?

Como Hollywood pode ignorar essas acusações? Isso é o que Hollywood faz. Na verdade, Hollywood escolhe quem denunciar, como Bill Cosby, e quem proteger, como Johnny Depp, Casey Affleck, Michael Fassbender, Woody Allen e Cristian Bale, todos acusados de assédio por diversas mulheres.

No caso de Casey Affleck, o próprio ator chegou a fazer menção às acusações quando subiu ao palco do Globo de Ouro para receber seu prêmio. “São meus filhos que me dão permissão de fazer isso porque eles conseguem manter distante todos os ‘ruídos’ que algumas vezes perseguem as pessoas que vivem de forma pública”, disse.

Os “ruídos” são acusações de assédio verbal e físico de duas mulheres que trabalharam com Affleck no filme “I’m Still Here”, de 2010. Uma das produtoras do longa, Amanda White, e a diretora de fotografia, Magdalena Gorka.

Amanda White afirmou que recebeu repetidos assédios e intimidações físicas de Affleck, incluindo um incidente em que ele pediu a um membro da equipe para mostrar seu pênis para ela. A produtora diz que durante as filmagens, Affleck tentou coagi-lá a dividir um quarto de hotel com ele e quando ela protestou, ele a agarrou numa tentativa de assustá-la. O ator ainda teria mandado várias mensagens de texto abusivas depois que ela se negou a passar a noite com ele.

A diretora de fotografia do filme, Magdalena Gorka descreveu Affleck como “a coisa mais traumatizante de sua carreira”. O ator teria falado abertamente sobre se ter relações sexuais com ela e sugeriu que ela deveria transar com um assistente de câmera. Durante as filmagens,uma noite, Gorka teria acordado e encontrado Affleck deitado na cama ao lado dela, usando cueca e uma camiseta, enquanto a abraçava. Quando pediu para que ele parasse, ele reagiu raivosamente.

Duas mulheres que, como outras, foram a público falar do assédio sofrido por grandes nomes do cinema e foram ignoradas. As alegações de Amanda White e Magdalena Gorka, como de outras, foram varridas para baixo do tapete.

Hollywood prefere não falar sobre esses casos e fingir que eles não existem. Os deixa para serem esquecidos e, de fato, muitas vezes, eles são.

Porque Hollywood faz isso? The show must go on.

 


Júlia Paolieri

Jornalista dividida entre maratonas de séries e filmes. Mergulhou na cultura pop, se deu conta da falta de representatividade e assiste tudo em busca do empoderamento na tela

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