Hoje começo uma série de textos sobre animes e Mangás, a secção vai se chamar Kaiju – Animes e Mangás e, assim como faço com textos de cinema e quadrinhos, vai ter um olhar feminista.

Animes e Mangás foram presença marcante durante a minha infância, adolescência e o começo da minha vida adulta. Meu primeiro anime foi Cavaleiros do Zoodíaco, na TV Manchete, e meu primeiro mangá – que nem é considerado mangá mesmo – foi Fushigi Yuugi, a história de uma garota que era transportada para o mundo dentro de um livro. Era um dos poucos que chegava direto na banca em Coqueiral e foi a única coleção que consegui fechar de mangás. A partir daí

Fiquei uns anos sem realmente assistir ou ler mangás e animes, mas depois de Attack on Titan este ano acabei voltando. Vou falar desse anime lindo-traumático-da depressão-foda-desesperador em outra ocasião. Para começar o Kaiju escolhi uma recente obsessão/guilty pleasure:

Ao Haru Ride (Blue Spring Ride), de Sakisaka Io.

ao haru 1

Aviso que o texto possui alguns leves/médios spoilers. 🙂

Eu queria assistir algo leve, tirar a cabeça dos problemas de adultos, das pressões do dia-a-dia, do mundo de maneira geral. Ao haru (ou Ao Haraido, como algumas pessoas falam pela internet), começou a ser lançado como Mangá em 2011 (a última edição sai no próximo mês lá no Japão) e este ano ganhou uma versão Anime de 12 episódios.

futaba

A história acompanha Yoshioka Futaba, uma estudante do ensino médio (High School) que reencontra um antigo amor, Tanaka Kou, e precisa aprender que nem tudo pode ser como antes já que Kou – e ela mesma – mudaram. Futaba é uma heroína que foge um pouco dos pontos mais clássicos das heroínas de Shojo Mangá, ela não é necessariamente desastrada, e nem ruim na escola, ela não é super fofa e nem especialmente delicada. O caminho de Futaba durante a série é interessante, há um desenvolvimento da personagem – e uma aceitação dela sobre quem ela é – bem claro, e que reflete no relacionamento dela com Kou. Vale mencionar que ela passa a questionar o quão positivo é o relacionamento conturbado dos dois é, mostrando de uma maneira interessante para as jovens leitoras que nem sempre aquele que você acha ser perfeito é um cara 100% legal.

kou

De muitas maneiras Kou divide o protagonismo como Futaba, já que nos aprofundamos muito no background do personagem, mas é de Futaba que vêm os beats mais interessantes na representação feminina no mangá/anime. Kou é um personagem muito interessante que caminha numa linha tênue entre o clássico “galã boderline abusivo” dos mangás e um personagem realmente bem construído. Na minha opinião, a escritora consegue acertar os pontos certos na maioria das vezes, tornando o personagem mais positivo que negativo.

ao haru 2

A história bate em pontos muito comuns dos animes shojo, o contexto da história não é exatamente inovador e mesmo os romances e personagens se encaixam de alguma maneira no padrão para esse tipo de história. Mas ainda sim a autora consegue alguns avanços muito importantes no modo como conta a história, e nos temas que busca abordar. Não quero falar demais para que vocês assistam/leiam!! 🙂

yuri futaba

Sororidade é algo que não se vê com muita frequência quando um dos plots, seja de qualquer produto cultural que for, envolve duas garotas se apaixonando pelo mesmo cara. Em Ao Haru Ride, sororidade escorre pelas páginas do mangá. A melhor amiga de Futaba é Yuri Makita, garota fofa, sempre arrumadinha e delicada – o extremo oposto da protagonista. Logo no começo da série, quando Futaba ainda está tentando entender o que o reencontro com Kou significa, Yuri se apaixona por Kou e conta para a amiga. O caminho de Futaba e Yuri torna-se então tentar equilibrar os sentimentos de cada uma e manter a amizade. É tão incrível ver uma amizade feminina retratada de maneira tão positiva, especialmente quando ela é cortada por um homem. Esse é um dos pontos altos da narrativa da série.

Mas o tema de competição feminina não para por aí. Futaba, durante o middle school (algo como nosso ensino fundamental), era como Yuri: fofa, sempre arrumadinha, delicada e todos os garotos a adoravam – mas todas as meninas a detestavam. A competição que nos impõem desde pequenas é um tema recorrente no mangá, e é tratado de maneira delicada e muito interessante. Futaba decide deixar os padrões de lado para que possa fazer amizades com meninas durante o Ensino Médio, e acaba descobrindo quem ela realmente é ao solta-se dessas amarras que a sociedade machista japonesa impõe às meninas – todas precisam ser Kawaii (fofas).

Esse tópico me lembrou deste texto, em que a autora fala sobre como mulheres japonesas estão pintando os cabelos como maneira de prevenir o assédio nas ruas. Triste, mas muito interessante.

dois ao haru

Nem só de acertos vive um mangá/animé, no entanto. Exite uma quantidade razoável de homenxplicação, mas nada que estrague a história. Em um momento complicado lá pela edição/episódio 9 que envolve Kou dizendo a Futaba que “ela precisa tomar cuidado por onde anda porque é uma garota” que é um tanto creepy, mais pela maneira como ele diz do que pela mensagem. Há também uma paixão platônica de aluna por um professor jovem que, apesar de sentir muito desnecessária, não é algo que me incomodou muito, talvez pelo modo como foi trabalhada.

Outra coisa que faz falta em Ao Haru, e na grande maioria dos animes em geral, são meninas com corpos diferentes. Todas as garotas – e para ser justa, neste caso, todos os homens também – são magrinhas e esguias, o padrão Anime/Mangá. Seria interessante ver um pouco mais de diversidade não só de corpos, mas de sexualidade também, Ao Haru é um dos poucos animes que assisti que não tem algum personagem que não faze parte de alguma minoria específica, seja homossexual ou transexual. Até Maid Sama! Coloca esse tópico em discussão.

Os desenhos do mangá são muito bonitos, e o anime mantém a mesmo traço, mas utiliza pintura em aquarela (ou que simula aquarela) os flashbacks, o que acrescenta detalhes muito bonitos e ajuda na narrativa da história. As doze primeiras edições e os doze primeiros episódios são muito similares, e a equipe de animação faz um trabalho incrível de transposição dos quadros para a animação.

Ao Haru Ride trata de temas adolescentes como primeiro amor, desilusões, autoconhecimento e da pressão social tanto para as garotas como para os garotos. É um anime/mangá romântico, dramático e com humor com temas interessantes retratados de maneiras positivos. Vale ler e assistir! 🙂

PS: O mangá e a primeira temporada do anime fizeram bastante sucesso no Japão, tanto que em meados de dezembro sai o longa Live Action baseado no mangá/anime.

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