Semana passada, a minissérie “Ligações Perigosas”, exibida na Globo, mostrou uma cena de estupro. O que aconteceu naquele episódio foi uma cena de estupro. Eu vou insistir nisso ao longo do texto todo. Vou falar todas as vezes porque acho importante dar o nome certo às coisas.

Fonte: site gshow

O contexto é o seguinte: Isabel (Patricia Pillar) quer se vingar do ex-amante por ter decidido se casar com sua sobrinha, Cecília (Alice Wegmann). Assim, pede que Augusto seduza a sobrinha antes do casamento para que ela não seja “entregue” virgem ao futuro marido. Cecília tem por volta de 16 anos, viveu a vida inteira num colégio interno e religioso. Ele se aproxima da menina como amigo. Diz que vai entregar as cartas do menino por quem é apaixonada a ela sem que a mãe saiba. Ganha sua confiança e um dia, ao entrar a noite no seu quarto, a beija e a estupra.

Eu não queria ter que entrar em detalhes em uma cena tão forte, mas eu vou ter que fazer isso. Porque não é possível que a televisão esteja sendo tão irresponsável quando o assunto é a violência contra a mulher. A menina diz que não quer ficar com ele. A menina diz que vai gritar e chamar a mãe; ela, aliás, só não chama, porque ele diz que vai “estragar a sua reputação” ver um homem sozinho em seu quarto a noite. Ele a ameaça. Ele alisa as pernas da menina sem que ela queira. Ele coloca a mão na boca da menina para que seus gritos não sejam escutados. Eu não sei vocês, mas pra mim isso mostra que ela foi coagida a transar com ele.

Agora, por que diante dessa situação, eu abro o site da minissérie e me deparo com as seguintes manchetes:

Fonte: site gshow

Fonte: site gshow

Eu já perdi a conta de quantas vezes batemos na mesma tecla. Estupro não é sedução, não é envolvimento, não é “ceder às investidas”. Estupro é abuso, é violência. Todos esses eufemismos servem apenas para romantizar situações de violência de gênero cotidianas. Uma mulher é estuprada a cada quatro minutos no Brasil – que temos registro – e ainda assim insistimos em negar o abuso tanto quanto for possível (alguém aí já reparou que nas manchetes dos jornais a mulher sempre “diz que” foi abusada?). Enquanto não chamarmos as coisas pelo nome certo, vamos negar a realidade que nos grita todos os dias.

Depois da sequencia de Ligações Perigosas, choveram comentários criticando e outros tantos defendendo na internet. Apesar de, UFA!, a grande maioria dos comentários demonstrar revolta com a cena, houve outros bem preocupantes. Li comentários de que “ela se arriscou demais deixando que ele entrasse no quarto dela”, que “ela sabia da fama e sedutor dele e mesmo assim ficou sozinha com ele”, que “ela tava com cara de quem estava gostando”. É assim que a Cultura do Estupro trabalha. A violência sexual vai se tornando tão usual que acaba sendo desculpável. Ninguém é culpado pelo abuso, exceto a mulher, claro. A que queria, que estava pedindo, que gostou. O Lugar de Mulher tem um texto bem didático pra quem quer entender melhor sobre Cultura do Estupro no Brasil.

Fonte: site gshow

No ano passado tivemos essa discussão diversas vezes. Na minissérie “Verdades Secretas” vimos uma personagem violentada que, assim como a Sansa em Game of Thrones, também vive uma espécie de redenção e ponto de virada depois do estupro, porque afinal, a importância que damos à integridade física das mulheres é tão grande que a violência contra elas nada mais é que um degrau para torna-las pessoas melhores. Na mesma minissérie, um menino dá boa noite cinderela para uma menina para “deixa-la mais solta” e transar com ela. Ela se apaixona pelo menino e acaba namorando com ele. Esse “estupro romântico” que a televisão não se cansa de mostrar é um desrespeito às mulheres que já sofreram violência e assédio (aliás, alô, tv, que tal começar a usar suas redes sociais para o bem e avisar quando vai ter cenas como essa para poupar as vítimas de reviver seus traumas?).

Queria deixar bem claro aqui que não acho que esse tipo de sequencia não deva existir na televisão. A questão não é essa. O que eu quero é que seja mostrado como aquilo que é: uma violência de gênero. O que eu quero é que parem de tratar romanticamente uma situação que destrói mulheres todos os dias. Que parem de retratar relacionamentos abusivos como se fossem normais, que parem de tratar a agressão contra a mulher como “culpa dela que não quer denunciar”, que parem de tratar estupro como se fosse “sedução”. E que, por tudo que é mais sagrado, PAREM de ficar reforçando essa ideia absurda de que o NÃO de uma mulher não significa exatamente aquilo que ele é: um não. Quando uma mulher diz não, amigão, adivinha só! Ela tá querendo dizer não mesmo.

Fonte: O Gato e o Diabo (facebook)

Fonte: O Gato e o Diabo (facebook)

Por que tudo isso importa, afinal? Porque nós, daqui do nosso mundinho de Netflix, torrent e tv a cabo, às vezes esquecemos, mas mais da metade da população brasileira só tem acesso à tv aberta. É dela que vem o entretenimento que todas essas pessoas consomem e seria de um elitismo sem fim pensarmos que o que a tv aberta transmite não tem importância. O entretenimento ensina e, pelo jeito, ele está nos ensinando a não dar a devida importância à violência contra a mulher.

 

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