Um dos filmes que eu assisti para o meu TCC é Madame Butterfly, de David Cronenberg (1993). Mas antes de falar do filme, queria falar sobre um trope do cinema americano: a relação romântica entre um homem branco e uma mulher de outra etnia.

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Madame Butterly — a ópera, não o filme — é uma das histórias mais emblemáticas dessa relação. Resumidamente, a ópera é sobre um marinheiro americano que se apaixona por uma mulher japonesa, se casa com ela, e depois tem de voltar aos Estados Unidos. Passados três anos, Madame Butterly descobre que seu amante não só não pretende mais voltar para o Japão, como também se casou com uma mulher branca. Destruída e desonrada, sua única forma de escape é o seppuku — uma forma de suicídio que visa “restaurar” a dignidade da pessoa.

A regra parece ser a seguinte: um homem branco penetra um ambiente distinto, diferente daquele com que está acostumado (um país diferente, ou mesmo uma comunidade diferente dentro do próprio país), se apaixona por uma mulher não-branca, e enquanto essa relação é retratada como sendo mais intensa do que as relações que ele teve, no passado, com mulheres brancas (além de ser, normalmente, o primeiro contato da mulher com um homem), ele acaba por deixá-la e voltar para o seu país/comunidade de origem, criando lá uma relação legítima com uma mulher branca.

Apesar das mulheres asiáticas serem o par mais comum dentro desse trope, mulheres negras, latinas e nativas também aparecem dentro dessas relações (alô, Pocahontas?). O elemento de base do trope é a relação intensa, mas curta, com uma mulher de origem diferente, que traz um momento de aprendizado para o protagonista branco, mas que, em última instância, é vista apenas como uma experiência, algo que não é esquecido tão logo o homem volta ao seu ambiente de origem.

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Te amo tanto que vou ali voltar pra Inglaterra, casar e ter filhos e provavelmente nunca mais pensar em você, beijos!

Bell Hooks fala dessa relação em seu livro Black Looks, em um artigo entitulado “Eating the Other”. Ela explica que essas relações têm uma base racista, onde a relação com a a mulher não-branca (ou com o homem não-branco, no caso de uma mulher branca) é uma espécie de rito de passagem para o herói branco. Ele sai de seu mundo comum, experimenta o “outro”, que é invariavelmente pintado como essencialmente diferente, com base em estereótipos — e esses estereótipos são levados para dentro da relação: uma mulher asiática, por exemplo, é sempre uma figura trágica, submissa, dolorosamente fiel, enquanto uma mulher negra ou latina, por outro exemplo, é sempre hipersexualizada, mais “livre” e “selvagem” do que uma mulher branca — e depois volta para o seu mundo de origem para, lá, ter uma relação legitimada pela sociedade, com uma mulher branca.

Dentro desse trope, mulheres de outras etnias não podem ser verdadeiramente amadas. Elas são algo a ser consumido e depois rejeitado pelo protagonista. O que usualmente acontece é que, depois dessa relação, essas mulheres são rejeitadas pela sua comunidade, consideradas impuras/traidoras por terem se relacionado com um homem branco, e o que lhes resta é o suicídio, a vergonha, a perda de um status.

Rachel Rostad escreveu um poema incrível sobre o assunto, chamado “Para J.K. Rowling, de Cho Chang”, escrito do ponto de vista da personagem Cho Chang, da série Harry Potter. Para quem não sabe, Cho Chang é o primeiro interesse romântico de Harry, que ele depois rejeita para ficar com Ginny Weasley.

“Senhora Rowling, eu sei que você é apenas a última participante numa longa tradição que consiste em transformar mulheres asiáticas num fetiche trágico.
Madame Butterfly. Mulher japonesa se apaixona por soldado americano, é abandonada, se mata.
Miss Saigon. Mulher vietnamita se apaixona por soldado americano, é abandonada, se mata.
Memórias de uma Gueixa. Lucy Liu numa roupa de couro. Pornô de meninas colegiais.
Então me faça chorar por garotos mais do que eu falo.
Me deixe suprir sua cota de diversidade.
Apenas mais uma garota marrom chorando por seu herói branco.
Não é uma surpresa que Harry Potter tenha febre amarela*,
nós damos risadinhas por trás de mãos pequeninas
e “não fala ingrês”.
O que mais um homem poderia ver em mim?
O que mais eu poderia ser além do que você me fez?
Subordinada. Submissa. Sub-enredo.
(…)
No verão passado,
eu conheci um garoto que falava como a chuva contra uma janela.
Ele tinha os olhos azuis de seu pai.
Ele colocava seu pulso contra o meu e dizia que ele era pálido demais,
que a minha pele era tão mais bonita.
Para ele, eu era o pôr-do-sol no Pacífico,
leite de amêndoas, uma xícara de porcelana.
Quando ele me deixou, eu disse a mim mesma que devia ter antecipado isso.
Eu não sabia se estava triste, mas eu chorei mesmo assim.
Garotas com a minha aparência são feitas para chorar por garotos com a aparência dele.
Eu vi todos os filmes, eu li todos os livros:
nós só estávamos seguindo a narrativa.”

*Febre amarela (yellow fever) é um termo (extremamente racista) usado nos Estados Unidos que significa a atração de homens brancos por mulheres asiáticas.

Sabendo desse trope, quando eu fui assistir Madame Butterly, de Cronenberg, eu achei que já sabia o que esperar. Nos primeiros 10 minutos, eu parei o filme e fiquei falando sozinha sobre como eu nem precisava ver o resto pra saber o que ia acontecer: é óbvio que René Gallimard (Jeremy Irons – um contador trabalhando na Embaixada Francesa na China nos anos 1950/1960) iria se apaixonar pela cantora de ópera chinesa e depois largá-la. É lógico.

Mas não.

~A partir daqui, tem spoilers, muitos spoilers, todos os spoilers do mundo, então cuidado aí~

O filme na verdade reverte o trope. Song Liling, a cantora de ópera, não é a mulher trágica que vai se apaixonar se perder dentro de um amor impossível. Song Liling não é nem mesmo uma mulher.

No começo do filme, eu achei que Cronenberg havia simplesmente trocado uma Miss Butterfly cis por uma Miss Butterfly trans, e que esse seria o motivo de seu abandono. Gallimard descobriria a transexualidade de sua amante e a deixaria, pronto. Nenhuma novidade até aí.

Mas Liling não é trans — ela é, de fato, um homem. Um membro do partido de Mao Tse Tung que se aproveita do interesse de Gallimard para tirar dele informações sobre as estratégias políticas dos franceses e dos americanos.

A primeira parte do filme segue as regras do trope: Gallimard é casado com uma mulher branca, inicia uma relação extra-conjugal com Liling, e — lembrando muito o Humbert Humbert que Jeremy Irons retrataria na versão de 1997 de Lolita — progressivamente se torna tão obcecado com sua amante a ponto de destruí-la e destruir-se. René Gallimard é, no início, um homem tímido, que não desperta o mínimo interesse nem em sua esposa e nem em seus colegas da Embaixada Francesa. É seu amor por Song Liling — que, por outro lado, é uma artista, culta e inteligentíssima, totalmente consciente de que envolver-se com Gallimard é tornar-se a Madame Butterfly que ela despreza — que o constrói. A obsessão que ela demonstra por ele (e que ela chama de “minha vergonha”) através das cartas que ela envia faz com que ele se sinta potente, importante. Como resultado, ele é promovido no trabalho e resolve finalmente assumir o caso com Liling (sua esposa praticamente desaparece do filme).

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Porém, Liling descobre que está grávida. Nesse ponto, já é claro, para o espectador, que Liling é um membro do partido, e que é um homem. Mas Gallimard não tem a mínima idéia — as relações sexuais que eles têm se fazem de forma que ele nunca veja seu corpo por inteiro, que ele nunca a toque de forma a descobrir seu segredo. Quando Gallimard, bêbado, e após ter dormido com uma francesa aleatória (numa festa da embaixada), vai até a casa de Liling e ordena que ela mostre seu corpo, ela diz que está grávida e que deve voltar para a casa de seus pais para dar a luz “conforme a tradição chinesa”, segundo ela.

É nesse ponto que a segunda parte começa: com a partida de Liling e o início da Revolução Cultural na China. Quando ela volta, trazendo uma criança (“emprestada” pelo Partido), ela diz a Gallimard que eles não podem ficar juntos porque ela é uma artista, e já que toda forma de arte é proibida, todos os artistas serão enviados aos campos de trabalho do partido. Gallimard, assim como todos os trabalhadores da embaixada, é enviado de volta à França, divorciado e desempregado.

Depois de muitos anos, Liling bate à sua porta, pedindo perdão. Eles voltam a ficar juntos, ele volta a trabalhar para o governo, transportando documentos, e tudo parece ficar bem. Porém, um dia, ele é interceptado e levado a julgamento. Lá, ele descobre tudo de uma só vez: Liling é um homem, um espião do governo chinês. Ambos são presos: Liling por espionagem e Gallimard por colaboração.

Dentro do camburão onde os dois são transportados para a cadeia, Gallimard mal consegue olhar para Liling: agressivo, de cabelos curtos e terno, ele não é mais sua Madame Butterly. De sua própria iniciativa, ele fica nu pela primeira vez diante de Gallimard, que, de um lado, se recusa a olhá-lo, e do outro, mal consegue conter sua paixão pelo homem diante de si.

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Na última sequência, um guarda leva uma peruca a uma cela. Mãos com as unhas pintadas de vermelho a recebem, dizendo “hoje será minha melhor apresentação”. Diante de um público de guardas e prisioneiros, Gallimard assume a sua própria “vergonha”: ele é um pária, ridicularizado por toda a França. Conforme seu discurso segue, ele se maquia como uma gueixa tradicional, face branca, uma pequena boca vermelha, um kimono improvisado. Enquanto isso, num avião de volta para a China, Liling chora. O ciclo se completa: Gallimard é a própria Madame Butterfly, que amou um homem cruel, que foi usada e abandonada. Ele reconhece isso e assume totalmente esse papel, se suicidando diante de todos logo em seguida.

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Eu gostei muito desse filme, exatamente porque ele te entrega o contrário do que você espera. Dentro do próprio filme, personagens trocam de lugar: no fim, o “homem cruel” (termo usado pela própria Liling para falar do marinheiro americano da ópera Madame Butterfly) não é mais o ambicioso Gallimard, mas Liling; e a figura trágica, o amante desesperado, não é mais a pobre cantora de ópera chinesa, mas Gallimard. O filme constrói o clichê para destruí-lo logo em seguida, criando uma espécie de justiça impiedosa.

No primeiro encontro entre Gallimard e Song Liling, ela está performando o último ato de Madame Butterfly. Na conversa que se segue, ela diz “tente imaginar se a história fosse o contrário: uma jovem loira, branca, se apaixona por um japonês baixinho, e quando ele volta pra o Japão e se casa com uma mulher japonesa, ela se suicida. Qualquer pessoa acharia que ela foi burra. Mas quando é uma japonesa que se mata por um americano, vocês acham que é uma história linda, trágica”. A tragédia de René Gallimard, no fim das contas, é menos a perda do amor de sua vida do que sua transformação na mulher não-branca enganada e abandonada.

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