O Collant Sem Decote assistiu ao novo filme “Mãe Só Há Uma” e conversou com a diretora Anna Muylaert. Saiba o que achamos do filme e o que Anna tem a dizer sobre a juventude e sobre o machismo no cinema.

O protagonista de “Mãe Só Há Uma”, novo filme de Anna Muylaert, é o retrato de uma nova juventude que não cabe em rótulos fáceis e que não se cala em situações de opressão. Pierre, personagem criado por Anna, poderia muito bem estar na luta dos secundaristas, ocupando escolas. Quem sabe, numa Marcha das Mulheres, reivindicando o direito do corpo feminino que, porque não, poderia ser seu corpo também.

Pierre (Naomi Nero) poderia estar em muitos lugares. É um personagem múltiplo. Flui entre o gênero masculino e feminino e possui uma ânsia pela autonomia e liberdade.

Aos 17 anos, esse adolescente de classe média baixa vive uma vida estável, com sua mãe (Naomi Nero) e irmã. Ao mesmo passo que consegue usufruir de sua liberdade, encontra em sua família um ambiente de conforto e aceitação.

A vida de Pierre muda radicalmente quando descobre que fora roubado na maternidade e que aquela que sempre pensara ser sua mãe é a responsável pelo crime. Pierre se vê, então, tendo que conviver com seus pais biológicos.

No auge da adolescência, Pierre pode ainda não saber quem é, dentro das inúmeras possibilidades que se anunciam. Mas sabe que não abrirá concessões para ser aceito por sua nova família. Acostumado a viver em uma configuração matriarcal, agora Pierre se vê no meio de uma família patriarcal e burguesa, que insiste em chamá-lo de “Felipe”.

Seu pai biológico (Matheus Nachtergaele), não entende porquê seu recém-conhecido filho se recusa a agir como um “garoto normal”. Pierre pinta as unhas, usa vestido, não gosta de futebol. Pierre não corresponde à imagem esperada por seu pai. A mãe biológica (também interpretada por Dani Nefussi) tenta discutir com o marido. Quer se fazer escutar, mas não sabe como, nem o quê gritar.

O elo de ligação possível entre a “nova família” e Pierre, reside em Joca (Daniel Botelho), irmão biológico de 14 anos do protagonista. O garoto, ao mesmo tempo, é tudo aquilo que “se espera” de um rapaz, e também o único capaz de dialogar e construir um laço afetivo com Pierre.

“Mãe Só Há Uma” é um filme menor de Anna Muylaert, no melhor dos sentidos. Realizado por meio de um Edital de Baixo Orçamento, aponta para um caminho de inovação da cineasta.

É uma obra sobre desconstruções e rompimentos. Assim, há também uma desconstrução narrativa, com saltos significativos de tempo entre uma sequência e outra. Há um claro rompimento com a narrativa clássica de “Proibido Fumar” e “Que Horas Ela Volta.”

É pelo olhar da juventude que a narrativa de “Mãe Só Há Uma” se constrói. E é apenas na juventude que o filme – que não oferece saídas fáceis – parece encontrar uma possibilidade de conciliação. Assim, sem mais spoilers, “Mãe Só Há Uma” termina da melhor forma que poderia: olhando para o futuro.

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Entrevista com Anna Muylaert

Collant Sem Decote: Anna, queria que você falasse sobre a juventude. Tanto em seu último filme (“Que Horas Ela Volta”) quanto nesse, você constrói personagens jovens que não aceitam facilmente aquilo que se espera que eles sejam. Em “Que Horas Ela Volta”, víamos tudo pelo olhar da mãe. Agora, é o filho quem ocupa o centro da narrativa.

Anna: Se você pensar, tem uma similaridade com Durval Discos. Lá também existia a figura de uma mãe, que era uma dominadora, só que o Durval era um fraco. E aqui, de uma certa maneira, não. O Pierre não aceita. Talvez seja uma evolução minha, interna, de saber cada vez mais quem eu sou e ir me colocando. Acho que isso é uma luta sem fim. A gente tá eternamente tentando nascer, todo dia.

Agora, a Jessica é realmente um personagem muito forte, mas estamos ligadas na mãe, que é um personagem submisso e que será transformada pela Jessica. O Pierre é “parente” da Jéssica. E realmente, o filme é centrado nele. Por isso, é um filme mais explosivo. O Que Horas Ela Volta tem a rebeldia e a norma, a rebeldia e a norma… E aqui, é rebeldia, rebeldia, rebeldia…”

CSD: Você é diretora. É uma profissão que a gente enxerga como, via de regra, masculina.

Anna: Sim, todas as profissões de liderança a gente associa a homem. Seja no cinema, na fábrica, no jornal…

CSD: Hoje em dia, isso está sendo problematizado. Queria saber se você enxergou alguma mudança no meio, de quando começou a trabalhar até hoje. E também, se você teria algum recado para as jovens mulheres que queiram se aventurar na direção.

Anna: Eu acho que toda nossa sociedade é estruturada numa lógica na qual o passe do homem branco hétero é o mais valioso. O da mulher não. Se era diferente antes? era. Mas eu também era. Eu fui criada dentro dessa lógica machista. Então, na minha educação, o melhor que uma mulher poderia ser era a grande mulher por trás de um grande homem.

Na hora que se escolhe direção, você vai pra um outro lugar. Agora, mesmo dentro disso, existem os filmes de sucesso, os filmes de alto orçamento, os de baixo orçamento, documentários, curtas-metragens…Se você ver, nos curtas tem muito mais mulheres do que em filmes de alto orçamento.

Estudei muito, trabalhei muito, e meu trabalho, sempre quis que fosse forte por mim mesma e não por políticas. Eu trilhei uma carreira bonita, de sucesso, mas nem sempre tive o crédito correto, ou ganhava o mesmo que meus pares. Ao longo do tempo, foi melhorando. Mas acho eu também que aceitava coisas que hoje não aceitaria.

Então, tive um crescimento. Até 20 anos atrás, achava que eu tinha uma timidez, um problema com a alto estima, mas que hoje, entendo que todas as mulheres tem. Colocam a gente sempre em segundo lugar. A gente nunca é protagonista. É sempre coadjuvante.

Quando fui pra um protagonismo de um filme de sucesso, como o “Que Horas Ela Volta”, isso significou poder. Aí, isso incomodou. Senti um machismo como talvez nunca tivesse sentido. Porque cheguei numa festinha em que mulher não entra, não tem cadeira pra mulher, então os homens não sabiam como lidar com isso e eu também não. Aí, comecei a falar, a problematizar.

Então, o que acho que tenho a dizer pra uma mulher jovem que quer fazer cinema, é: o preconceito não se dá de forma obvia, violenta. Ele se dá nas maneiras delicadas e mínimas, que vão te colocando no seu “devido lugar”, num lugar de segunda classe. Eu hoje diria: trabalhe só com mulher. Equipe de mulher, com produtora mulher. E trabalhe pra caralho. Seja bom. Agora, pra achar as chances, a gente tem que se fortalecer, porque o mercado todo abre porta pra homem e não abre pra mulher.”

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“Mãe Só Há Uma” está em cartaz nos cinemas. 

  • Fabio Farro de Castro

    Fiquei animado para ver o filme. Só uma correção: Você repetiu o nome do ator Naomi Nero no lugar onde devia estar o nome da atriz que faz a mãe dele.