E quem já não cansou do choro do Frank Cho? Se você acompanha o Collant então você sabe que Frank Cho já virou piada interna. E se você esteve pela “internet dos quadrinhos” de super-heróis ontem então você muito provavelmente, e infelizmente, deve ter se deparado com esta atrocidade:

manara-cho

Eu continuo achando que Cho é o maior palhaço vitimista carente do mercado de quadrinhos americano, mas tem algumas coisas que a existência dessa foto, e o contexto no qual ela foi anunciada, faz com que sejam muito importantes de discutir.

Sobre censura.

Caso você ainda não saiba: Crítica não é censura. E como eu já escrevi um texto inteiro dedicado a mostrar a diferença entre uma e outra, então vou deixar aqui um trecho:

Se uma pessoa retira o livro da prateleira, se ele toma a caneta da mão do autor, se ele impede de alguma maneira que o autor publico sua arte, e que a população tenha acesso à ela, isso é censura. Mas se a pessoa apenas tece críticas sobre o trabalho que o autor criou, então isso é uma crítica. Censura precisa vir de alguém com poder para censurar, e isso normalmente vem do Estado ou das Instituições. Pessoas e movimentos sociais raramente tem esse tipo de poder.

Ninguém tirou a caneta da mão de Frank Cho ou Milo Manara, e nem vão tirar. A decisão da Marvel e da DC de não comercializar as capas variantes, ou de editar o trabalho de Cho, são decisões editoriais, baseadas na resposta do público aos seus produtos. E não é isso que sempre dizem? Que é o público que decide se vende ou não, pois é.

É interessante notar que enquanto Cho chora pelas redes sociais pagando de vítima de censura ele foi convidado por uma Con internacional para falar sobre representação feminina. Ele ganhou uma painel só para ele poder discorrer lágrimas de injustiçado sobre como é um transgressor de tabus, um subversivo que nada contra o politicamente correto.

O cara que se diz censurado ganhou um painel só para ele. Para falar sobre mulheres. Numa Con. Em outro país. Como isso configura como censura, eu nunca saberei. Se isso representa alguma coisa é como ainda há muito espaço para um cara como Cho, que se recusa a crescer e deixar a sua adolescência punheteira para trás.

Cho desistiu de continuar a desenhar as capas alternativas de Mulher Maravilha porque sentiu que estava sendo censurado. Ele pode fazer o que quiser, isso já está bem claro, mas quando você desenha capas alternativas, e quando a editora já passou por problemas semelhantes, então mesmo você ó-senhor-bonzão precisa se submeter a editoração da equipe criativa da revista. Foi isso que aconteceu, o conteúdo de Cho não cabia dentro da proposta da revista. Todo artista passa por um processo de edição.

Sobre a tal quebra de tabu.

Milo Manara tem um trabalho muito importante para o cenário de quadrinhos eróticos, e eu realmente acredito que para alcançar mais público e evoluir como forma de arte os quadrinhos precisam ocupar todos os espaços de criação. O que eu não compro é esse papo de que Manara e Cho estão subvertendo tabus.

Talvez lá nas décadas de 70/80 o trabalho de Manara realmente tenha ajudado a quebrar tabus sobre o corpo e sobre a sexualidade feminina. Mas hoje? Não. Porque os tabus que precisam ser quebrados vão ser destruídos por mulheres, não por homens desenhando mulheres. 

Não tem nada de transgressor e subversivo no Manara desenhar até os detalhes da vagina da Mulher Aranha, isso é só machismo. Esse desenho é criatura como a de Frankstein, o resultado de homens com liberdade e sensação de poder. É a criatura que resulta do machismo e da misoginia que permite que desenhistas homens hipersexualizem personagens femininas ao extremo sem nenhum tipo de consequência ou consciência, mas que permite que mulheres criadoras sejam perseguidas por criar personagens femininas decentes. É fruto da indústria.

E sim, eu usei a palavra misoginia, porque só o ódio à figura feminina permite que esse tipo de imagem, nesse tipo de contexto, aconteça. Um ódio à mulher que insiste em tomar de volta para si a sua representação, a mulher que questiona a objetificação do seu corpo. A verdadeira liberdade de expressão sexual feminina vem das mãos das mulheres, e não tem nada que homens como esses caras odeiem mais do que um grupo de mulheres que quere assumir o controle sobre a sua sexualidade e sobre o modo como ela é representada. Não tem nada mais ameaçador e amedrontador para um homem do que uma mulher que sabe quem é e o que quer – principalmente se for sobre a sua sexualidade.

Se você quer ver, descobrir e quem sabe aprender um pouco sobre a sexualidade feminina então você pode acompanhar o trabalho de inúmeras quadrinistas mulheres que falam e desenham sobre isso. Aqui no Brasil tem a LoveLove6 com a Garota Siririca, a Sirlanney do Magra de Ruim, tem a Beliza Buzolo no Na Ponta da Língua.  Lá fora tem Filthy Figments, Alison Betchel e Oh Joy Sex Toy, da Erica Tomen. Tem muito mais também, a quadrinista Aline Cruz fez até uma listinha sobre isso na TRIP.

Não é que homens não possam desenhar ou discutir sobre a sexualidade feminina, é que não vão ser eles que vão quebrar tabus ou subverter o tema. Principalmente enquanto eles continuarem a ver a sexualidade e o corpo feminino com um olhar objetificante e desumanizador, como essa ilustração.

Não é subversão, é status quo. 

A representação feminina nos quadrinhos de super-heróis já melhorou bastante, mas isso não quer dizer que já estamos no ideal – bem longe disso. E é exatamente por ainda termos um longo caminho pela frente que esse papo de subversão cai por terra. Personagens femininas são hipersexualizadas constantemente. Esse é o status quo dos quadrinhos. Quadrinistas e jornalistas são perseguidas e ameaçadas por simplesmente produzir ou por criticar a indústria. Esse é o status quo dos quadrinhos.

Hoje, se você quer subverter a representação feminina, se você quer ser o transgressor de padrões, então você desenha e escreve mulheres como elas são: humanas complexas. Você não as expreme dentro de mini-uniformes, não as coloca em posições ginecológicas e não desenha mamilos, bundas e até os lábios da vagina como se o uniforme fosse pintura corporal – você faz o seu trabalho direito.

O cenário de quadrinhos independente americano vem trazendo aos holofotes nomes de quadrinistas, mulheres e homens, que criam personagens femininas interessantes e humanizadas. Os maiores nomes, aqueles sobre os quais mais se fala, hoje são nomes femininos ou atrelados à personagens femininas e de outras minorias. Ghosts e Drama, livros da quadrinista Raina Telgemaire, estão respectivamente à 6 e 167 semanas seguidas na lista de graphic novels best sellers do The New York Times. Ela possui outros dois livros na lista.

Muitos desses nomes indies estão migrando para o mercado tradicional, como Noelle Stevenson, de Nimona e Lumberjanes, que assumiu a responsabilidade de trazer de volta o título The Runaways da Marvel. São quadrinistas que criam personagens incríveis como a adolescente Miss Marvel/Kamala Khan, que fazem re-designs épicos de uniformes o da Batgirl, que aprende com seus erros, que desenvolvem personagens fortes, complexas e seguras da sua sexualidade como a Harpia (Mockingbird) e a Capitã Marvel. São essas pessoas que vão conseguir conversar com a sexualidade feminina.

No meu mundo ideal a Marvel vai entender o desenho com quem Manara presenteou Frank Cho, e o ato de fazer um grande caso sobre isso como o que ele realmente representa: uma afronta a sua política de inclusão, a transformação pela qual a editora vem passando. Uma violência contra os seus criadores e contra o seu público que há anos vem construindo e lutando por uma representação feminina decente. Uma violência contra a personagem, porque esse não é um desenho fanmade perdido nos submundos da internet, é uma ilustração feita para chocar e ofender o público que a editora tanto quer alcançar.

Não tem nada de transgressor em desenhar os lábios da vagina e o ânus de uma super-heroína. Isso é só mais um exemplo desesperado de como esses caras, que um dia foram considerados peixes grandes da indústria, agora começam a se debater na areia a procura de atenção.

Para alguns é mais fácil morrer na praia do que continuar a nadar.

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