Essa semana, foi ao ar uma entrevista da ABC News com Mary Kay Letourneau, uma ex-professora americana condenada a 7 anos de prisão por seu “relacionamento” com um garoto que havia, na época, 13 anos. Durante esses 7 anos, Letourneau deu à luz duas meninas (hoje adolescentes) e, ao sair da prisão, casou-se com sua vítima, Vili Fualaau. Esse ano, eles fazem 10 anos de casados e Letourneau pretende voltar a dar aulas, eventualmente.

É até difícil de enumerar todos os problemas nessa história – como o fato de que a justiça e os pais de Vili Fualaau falharam com ele, permitindo que um adolescente mantivesse contanto com a pessoa que o estuprou e abusou dele; o fato das duas filhas adolescentes terem de crescer no meio de uma relação abusiva; o fato de Letourneau (e possivelmente as entrevistadores e parte do público) verem esse “relacionamento” como algo normal e saudável para ambas as partes. Mas podemos facilmente identificar a raíz do problema: o machismo. Sim.

Uma sociedade machista é capaz de conceber que uma menina seja estuprada por um adulto, mas não o contrário. De acordo com essa lógica, que dita que todos os homens estão (e são obrigados a estar) sempre interessados em sexo, um garoto de 13 anos que é estuprado por uma professora – uma figura de autoridade que deveria educar e proteger seus alunos – é “sortudo” de ter uma mulher bonita e mais velha interessada nele. Porém, um menino de 13 anos (ou ainda mais jovem – não se sabe exatamente quando o abuso começou, mas Letourneau conheceu Fualaau quando ele tinha 7 anos) não é um adulto; ele não é capaz de dar seu consentimento porque ele é uma criança, facilmente influenciável e manipulável. Letourneau insiste em acreditar que o abuso não aconteceu e que basicamente ela e Fualaau se apaixonaram, como acontece com qualquer casal; agindo dessa forma, ela nega dois elementos fundamentais: o fato de que ela é, sim, pedófila; e o fato de que seu casamento tem como base uma relação desigual de poder entre os dois, visto que ela começou com o estupro e a manipulação emocional de uma criança que não tinha as bases necessárias para se defender.

O pior de tudo é que esse abuso é visto como amor. No início da entrevista, Barbara Walters e outra reporter da ABC News comentam o caso, dizendo que a pena inicial de Letourneau era de um ano, sob a condição de que ela jamais entrasse em contato com Fualaau de novo, mas que ela aceitou ter sua pena aumentada porque “não conseguia ficar longe dele”. Não porque ela é uma predadora, mas por que ela o “amava”. Letourneau chega a reclamar, num momento da entrevista, que Fualaau foi infiel a ela quando ela estava na prisão. “Infiel”, como se eles fossem um casal de namorados, e não uma estupradora e sua vítima. Num caso onde os gêneros fossem invertidos, raramente alguém acreditaria numa relação saudável nascida de um estupro; a manipulação do estuprador seria totalmente óbvia, por que quem, em sã consciência, consentiria em se casar com a pessoa que abusou dela?

A consciência coletiva tem uma imagem muito bem delimitada de um estuprador: um homem que cerca mulheres em ruas vazias, as ameaça com uma faca ou revolver, as estupra e depois desaparece. É muito difícil acreditar que um estuprador possa ser alguém da família, um amigo, um vizinho, um professor – e ainda menos uma professora, loira, bonita, carismática. Que o abuso tenha se iniciado na sala de aula, com palavras carinhosas, ou na casa da professora que insistia em dar aulas particulares a um garoto, para o bem dele. Que a manipulação e o abuso ultrapassem as barreiras físicas e se instalem na psique, arrancando de um jovem adulto um consentimento artificial.

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Em alguns relatos que li sobre estupro masculino (não necessariamente de crianças), um discurso que aparecia muito era o do homem incapaz de acreditar que havia sido estuprado por uma mulher (afinal, é um assunto muito pouco discutido) e que, para convencer-se de que o abuso não havia acontecido, iniciava com sua estupradora um relacionamento – pois, dessa forma, ele tinha a impressão de estar no controle. A lógica é simples: se eu estou num relacionamento com essa pessoa, é porque eu a amo; se eu a amo, eu quero fazer sexo com ela; se eu quero fazer sexo com ela, ela não me estuprou: eu quis que acontecesse. Eventualmente, o homem acabava por se dar conta do ocorrido, terminava o relacionamento e começava um processo de cura. Mas nesses casos, o homem era um adulto, e não uma criança que havia passado a vida inteira sofrendo a influência de sua estupradora.

Fualaau afirma ser feliz em seu casamento com Letourneau, mas o trauma sofrido transparece quando ele fala, na entrevista, de seus anos lutando contra o alcoolismo e a depressão, e também quando ele diz que jamais deixaria que suas filhas tivessem um relacionamento com alguém mais velho, que não gostaria que elas passassem pelo que ele passou. Apesar de não ser mais uma criança, pessoalmente acredito que ele ainda seja uma vítima. Ainda que os 10 anos de casamento pareçam ser a prova de que a relação abusiva deu certo no final, para mim, eles só provam que Letourneau é uma pessoa manipulativa e perigosa, que ela não deveria ter tido a permissão de manter contato com Fualaau e que a influência que ela exerce sobre ele ainda é muito grande.

Mais do que tudo, esses 10 anos de casamento – vistos como um sucesso por Letourneau – mostram como viver numa sociedade machista é extremamente prejudicial, tanto para mulheres quanto para homens, e que é preciso que continuemos tentando mudá-la. O machismo toma formas que muita vezes não percebemos, e esta é uma delas. Ainda que esse seja um caso extremo, é preciso pensar em quantos meninos e homens foram estuprados por mulheres sem que suas vozes fossem ouvidas, tudo em razão de um pensamento limitado que jura de pés juntos que mulheres são incapazes de machucar homens, que homens são sempre fortes, insensíveis, invulneráveis.

Quando li sobre o caso, a primeira coisa que me veio à cabeça foi um poema que eu li há um tempo atrás. Fiz uma traduçãozinha:

Conversas cruas com meninos que frequentemente forçam o riso
Warsan Shire

Ele diz “Eu não entendo, como você ainda é virgem aos 24 anos?”

Ele diz “Eu não acredito em você, eu vi o jeito que você anda, virgens não andam assim”

Ele diz “Isso não é natural, as pessoas têm que transar”

Ele pergunta “Mas por quê? Sem querer ofender”

Eu pergunto “Quando foi a sua primeira vez?”

Ele diz “Eu tinha 12 anos”

Ele diz “Eu sei o que você está pensando, eu era jovem demais”

Eu olho para seu punho, ele tem duas boas mãos.

Ele diz “Ela era mais velha que eu”

Eu pergunto “Quantos anos?”

E ele diz “É melhor quando a menina é mais velha, é assim que eu aprendi tudo”

Ele lambe seus lábios.

Eu pergunto de novo “Quantos anos?”

Ele diz “Eu poderia usar um dedo pra te fazer gritar”

Eu penso em meu irmão na cadeia e não consigo me lembrar do rosto dele.

Eu pergunto de novo “Quantos anos?”

Ele diz “Meninos se tornam homens no colo de mulheres, você entende?”

Eu penso no rosto d minha mãe, sulcado pelas suas más escolhas em homens.

Ele diz “Se você fosse minha você não ia se safar desse jeito, eu ia te comer por horas, eu te viraria do avesso feito uma fruta”

Eu penso na circuncisão do meu primo, como ele se sente como uma sereia, não mais humano da cintura pra baixo.

Ele diz “Eu cuidaria de você, entende?”

Eu rio, e pergunto pela última vez “Quantos anos?”

Ele diz “34”

Ele diz “Mas ela era linda e eu sei o que você está pensando, mas não é assim, eu sou um homem, eu sou um homem, eu sou um homem. Ninguém pode me machucar.”

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