A minha família tem uma história longa com guerras. Meu bisavô teve que fugir da Espanha durante a Guerra Civil porque foi denunciado ao governo facista, ele era um professor que conseguiu ajudar muitas famílias mantendo seus filhos seguros. Meu avô, que era criança durante a Guerra Civil Espanhola, entrou para a resistência francesa no final da adolescência e lutou durante a Segunda Guerra. É uma história de heroísmo, mas é também uma história de marcas, algumas tão fortes e profundas que quando ele já estava idoso, com Parkinson e Alzheimer, acordava de noite desorientado, dizendo que os alemães estavam invadindo. Desde criança eu carrego a história da minha família com muita força, com muito orgulho do meu avô e do meu bisavô por terem lutado contra aquele que é considerado um dos maiores maus do século 20, o Nazismo.

Magneto, ou Erik Magnus Lehnsherr, é um vilão da Marvel. Único sobrevivente de sua família ao terror dos campos de concentração da Segunda Guerra, a experiência pela qual passou formou o personagem como o conhecemos. Apesar de ter se tornado um vilão, Magneto sempre será de alguma maneira a personificação do horror e do repúdio aos nazistas e ao que eles fizeram. Sabendo da origem do personagem, e pensando na história da minha própria família, eu me vejo olhando para a capa alternativa de uma revista em quadrinhos e me perguntando como diabos é possível que ninguém – NINGUEM – na linha de produção tenha olhado pra isso e pensado que talvez não fosse uma boa idéia.

Há mais aqui do que o que alguns podem ver como uma brincadeira, ironia ou mesmo sarcasmo do editor/autor/ilustrador – seja lá quem for o responsável pela atrocidade que é a escolha de Magneto para um dos “Vilões da Hydra”, evento de capas alternativas que acompanha o lançamento das revistas do evento Secret Empire. O que ela mostra é que mais uma vez estamos esquecendo e diminuindo o horror e transformando ele em motivo de risada. É cedo demais para rirmos da Segunda Guerra? Alguns perguntarão, mas a pergunta a se fazer agora é: É tarde demais para nos darmos conta que conservadorismo e nazismo caminham de mãos dadas? É tarde demais para sabermos que ironia, sarcasmo e humor ajudam a manter sistemas opressivos?

Naja Later, uma das autora do Women Write About Comics, ao escrever sobre a capa da Marvel, resumiu muito bem:

Pense nas vezes em que um cara diz algo completamente inapropriado. Se as pessoas não gostam, ele te responde e diz, “Era brincadeira. Se acalme, era uma piada.” E então você é o babaca por não entender a piada. Você ainda está sendo alvo, mas agora você também é alguém que não entende o senso de humor afiado dele. Isso te marca como o estranho por não acompanhar os sutis sinais do seu sarcasmo (quase como o gato de Schröendiger).

Essa tentativa de desvalidar críticas é algo comum para quem escreve e questiona cultura pop, é o nosso dia-a-dia. Não existe uma texto aqui no blog, que tenha discutido representação e/ou o modo como a indústria usa personagens para fortalecer ideologias e/ou preconceitos que não tenha recebido um comentário como “você não entendeu”, “é só um quadrinho” ou mesmo “é uma piada”.

No mundo das capas alternativas, sejam elas hiperssexualizando ou desempoderando a personagem título, seja ela aliando um personagem Judeu à uma organização fictícia que representa o nazismo no universo Marvel, ao invés de “é uma piada” recebemos o “é alternativa, não precisa comprar se não quiser.”

Nick Spencer, roteirista de Capitão América e o de Secret Empire, é a síntese desse pensamento. Um profissional que alcançou uma posição de respeito dentro da indústria e que se sente tão certo de suas certezas que acha ridículo a ligação entre Hydra e Nazistas. Não interessa se a organização fictícia tem como membros fundadores Barão Zemo, Caveira Vermelha e Barão Von Struckes, todos nazistas – porque Spencer precisa justificar as suas escolhas, Hydra deixa de ser a analogia da Marvel para os Nazistas. Mesmo que ela venha sendo isso desde a sua criação.

E me acusam de não ler quadrinhos.

Também foi Spencer quem apresentou Capitão América como um infiltrado da Hydra, assunto que por si só causou um rebuliço entre os fãs do personagem. Como é possível que um personagem criado para ser símbolo do exato oposto nazista, criado para ser um símbolo de força e esperança em tempos tão sombrios, fosse um espião da Hydra? Porque Spencer quis. Mas essa narrativa de normalizar algo medonho aparece em seu trabalho desde Capitão América: Sam Wilson #1, como Naja sintetiza muito bem:

Primeiro Spencer nos pede para concordarmos com a falha premissa que Sam Wilson é mais político que Steve Rogers. Para fazer isso nós precisamos ignorar a tendência evidente de Steve à esquerda desde a Era de Prata, e assumir que neutralidade é ao mesmo tempo possível e dentro do personagem.

Assumir que alguém é neutro politicamente é ignorar os sistemas de poder em ação na nossa sociedade – todo mundo é político, mas essa narrativa de neutralidade é algo do qual Spencer e seus semelhantes se aproveitam e validam. Eles são tão privilegiados que são incapazes de reconhecer esses privilégios, acreditando que são a norma, aquilo que é o padrão. O inquestionável. Qualquer um que esteja fora dessa norma, facilmente qualquer grupo de minoria, se torna político e por isso tendencioso. Essa visão, além de ignorar que a própria escolha de se ocupar uma suposta neutralidade política é um ato político (já que você decide se esquivar de responsabilidades, por exemplo), também lança uma sombra negativa sobre as minorias, já que à elas não é dada a opção de ocupar o tal lugar neutro.

Wilson não é branco, por isso não é neutro. Para ser um bom Capitão América ele precisa ser neutro, precisa embranquecer ideologicamente, tornar-se o Steve Rodgers que só existe dentro da lógica excludente e privilegiada de Spencer.

Naja continua,

Se nós concordamos em Capitão América: Sam Wilson que Steve é “neutro” então toda a identidade política de Steve é esvaziada para dar lugar à história de origem nazista em Capitão América: Steve Rogers #1. Nazismo se torna parte do espetro aceitável, e isso acontece porque Spencer construiu essa lógica narrativa desde o começo.

Essa narrativa de normalização de atrocidades como fascismo e nazismo é algo que acompanha a cultura pop em cada passo, principalmente com a atual onda de conservadorismo que atinge o mundo de maneira geral. Alguns meses atrás veio a tona o conteúdo no mínimo duvidoso de alguns vídeos do youtuber Pew Die-Pie. O maior youtuber do mundo perdeu contrato com empresas e foi acusado de dar voz à discurso de ódio – e foi exatamente isso que ele fez.

Piew DiePie, em sua defesa, agiu da maneira que apenas os caras como ele e Nick Spencer podem agir: considerou-se injustiçado, disse nunca ter tido posicionamento político em seus vídeos – era tudo uma brincadeira. Sua horda de fãs, e os que apenas se juntam ao bando quando um homem branco grita o grito de injustiçado, clamaram por liberdade de expressão. Disseram que era perseguição. Novamente é preciso explicar que liberdade de expressão não quer dizer que você não será considerado responsável pelos seus atos. Liberdade de expressão não é passe livre para fazer merda, não te exime de responsabilidade. Mas Piew DiePie, como Spencer, faz parte do grupo que podem se considerar neutros.

Mas mesmo que esse grupo existisse, mesmo que eles fossem neutros, o mundo ao seu redor não seria. O mundo ao redor de ninguém é neutro, principalmente quando você tem uma fã base de mais de 54 milhões de pessoas. Nesse caso você é muito responsável pelo que coloca no mundo, você pode ter a intenção (ou a falta de) que tiver, mas isso não quer dizer que o que você produz não significa nada, que o que você mostra ao mundo não vai ser ressignificado, que não vai sustentar o sistema político do qual você tanto tenta se afastar. Ninguém é neutro, e todos somos responsáveis, em diferentes medidas, pela manutenção de um sistema excludente e violento.

Piadas e narrativas tornam aceitáveis comportamentos violentos, naturalizam o atroz e ajudam a apagar de sentido e importância aquilo que algo crucial para nós como sociedade: história. Isso vale para as pessoas que insistem que a terra é chata, isso vale para pessoas como Nick Spencer e Piew DiePie. Não é a uma piada/narrativa que vai destruir tudo, mas a sustentação delas e de similares à elas. Como é possível achar que seu trabalho é neutro, como é possível construir o próprio mundo irreal onde suas ações e decisões não afetam ninguém, quando o seu pensamento é retwittado por um dos maiores lideres nazistas/Supremacista Branco da atualidade?

Eu sei que Capitão América não é um agente da Hydra de verdade, a Marvel é campeã em ter versões alternativas de seus próprios personagens, sejam realmente de universos paralelos, sejam clones ou alienígenas. Mas isso não impediu que tanto a narrativa ficcional, quanto a narrativa de neutralidade, causasse uma divisão dentro dos fãs de quadrinhos: de um lado os fãs dos velhos tempos, que conseguiam ver a os nazistas como a piada que eles são, e os novatos que, através de suas políticas, fizeram da vida de Spencer um inferno. A falácia da neutralidade que Spencer escreve em suas histórias é a mesma que o permite se colocar no lugar de vítima desses sujeitos politizados (no caso, fãs que questionaram as escolhas do quadrinista como criador).

Como Naja pontua, Spencer conseguiu colocar-se acima dos questionamentos ao dividir sua narrativa em três momentos:

Primeiro: É possível ser neutro. Segundo: Faz sentido ser neutro. Terceiro: qualquer coisa mais à esquerda da neutralidade é insensato. Todo o seu trabalho com os títulos do Capitão América tem sido para recriar a ilusão popular dos fanboys de que super-heróis podem e devem ser apolíticos. Ele criou uma cena onde ativismo e criticismo não estão apenas errados, eles não fazem sentido para os personagens, são anti-heróis e vergonhosos.

Essa argumentação de neutralidade sustenta o pensamento conservador e excludente do “nerd de verdade”, do “fã de verdade”, aquele que consome e aceita tudo que lhe for entregue – contanto que não tentem evoluir a caracterização dos personagens para tempos atuais, tempos mais inclusivos. Contanto que não transforme em tridimensionais aqueles personagens que esses fanboys da velha guarda consideram intocáveis. E quando eu digo fanboys da velha guarda eu não quero dizer que apenas os fãs acima de 40 tem esse comportamento, não. O que não falta são homens jovens engolindo e regurgitando discurso de ódio contra minorias, como se elas fossem responsáveis pela destruição dos seus personagens favoritos. Um saudosismo fajuto e irreal, já que eles nunca viveram a Era de Prata, mas que é alimentado por narrativas como a de Spencer em Capitão América: Sam Wilson.

De novo eu volto para a história da minha família, que foi dividida durante a guerra, que perdeu filhas, que ficou marcada mesmo anos depois já morando no Brasil. E de novo eu volto para Erick Lehnsherr, a história de Magneto é ficcional, mas isso não quer dizer que ela não converse com a história real. Capitão América, criado como um símbolo contra o nazismo, é político desde a sua criação, talvez não seria se ele tivesse sido criado para lutar contra formigas gigantes, mas esse não é o caso.

Quero deixar uma coisa muito clara, não estou dizendo que Nick Spencer é fascista, mas que a narrativa que ele vem construindo dá força para esse tipo de pensamento. Há mais a ser discutido do que só a escolha de Magneto para os Vilões da Hydra, porque o que aparece na escolha da capa é só a superfície de um problema muito maior que vem atingindo principalmente a narrativa masculina e branca: fascismo disfarçado de conservadorismo, e conservadorismo disfarçado de saudosismo.

Até mais.

Referências:

Political Comics: Why We Should Take Hydra-Magneto Serious 

Political Comics: Captain America Was Never Neutral

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