Eu vi o primeiro episódio de Jessica Jones acompanhada de um amigo em quem confio. O segundo eu vi sozinha. Não devia ter feito isso.

Entendam que a série é ótima, se apresentou como uma boa história de detetive, quase noir em alguns momentos e totalmente nova em outros. A atuação da Krysten Ritter me surpreendeu, pois a tinha visto em papéis com uma veia de comédia apenas.

O Homem Púrpura então! Nossa, no primeiro episódio nem se vê o cara e já conseguimos sentir um ódio. Conversando com alguns amigos pude sentir que entre os vilões da Marvel, apresentados no universo da tv e cinema até agora, esse é o antagonista mais vil.

Pensando no hall que já se apresentou, desde homens com poder, querendo reconstruir uma cidade perdida para o caos, até deuses invejosos, que querem subir ao trono de seu pai, o Homem Púrpura quer o quê? Ele quer o que quiser e na hora que quiser, só isso. Tudo pode ser dele e algo que ele quer não é dele, isso o incomoda. Um egoísta em essência, mas todos nós já conhecemos alguém assim.

Nem todos já viram deuses nórdicos invadindo a Terra com um exército de aliens, mas todos já viram aquela pessoa que faz tudo para conseguir o que quer e geralmente consegue. Todos sabemos odiar essas pessoas e já fomos vítimas delas.

Nos dois episódios que vi, rapidamente vários tabus no universo cinematográfico da Marvel foram quebrados. Sexo, lesbianismo, heroísmo relutante, trauma. Apenas por isso, Jessica Jones já mudou todo o jogo. O céu é o limite.

Agora, vamos para o elefante no meio da sala. Ver Jessica Jones sozinha me fez muito mal.

Cada vez que ela fechava o olho, tudo ficava roxo e ela sentia a presença indelével de seu agressor, eu sentia também. Toda vez que isso a fazia relembrar os nomes das ruas de sua casa, me fazia relembrar os meus próprios gatilhos para superar a dor. A presença invisível, mesmo quando achamos que ele está morto. A presença que nunca vai embora e que queremos esquecer para continuar a viver. O estuprador. O meu, não o dela.

O universo de quadrinhos exagera nas coisas, é a linguagem do extrapolar para criar essa coisa dos super humanos, para as metáforas das grandes escolhas. Mas o sentimento ali, é muito real.

Beber ou se drogar, sejam drogas legais pelo farmácia ou não, apenas para dormir. Conseguir descansar sem se preocupar, sem sonhar. Se inebriar ou anestesiar apenas para sobreviver e continuar fazendo o que devemos fazer: trabalhar, estudar, amar. E ter medo, sempre, todo o tempo.

Podem achar que o poder de controlar as pessoas apenas com palavras é mais uma alegoria de histórias em quadrinhos, mas quando já se passou por gaslighting tempo o suficiente, quando se esteve em uma relação abusiva onde tudo era culpa sua, onde todos os seus amigos o afastavam e você deveria se livrar deles, onde abandonar os amigos se torna a única forma de demonstrar amor, onde passar o dia na cama, apenas para que você não saísse ou o abandonasse, a metáfora se torna real demais.

Eu me vi deitada naquela cama de hotel, enquanto alguém tentava me tirar e eu não conseguia. Eu me vi quando a vítima se culpa pelo que fez, mesmo que nada daquilo tenha sido culpa sua. Eu me vi juntando tudo o que era meu e indo para o mais longe possível, só não era Hong Kong, foi o Rio de Janeiro.

Eu não tenho super força, não tenho amigos indestrutíveis e tenho medo. Muito medo de várias coisas na vida, mas também de continuar a ver Jessica Jones. Não sei se ela vai conseguir se livrar do seu Kilgrave, não sei se ela vai conseguir sobreviver. E se não conseguir, como eu vou me sentir então? Observar a catarse dela ao derrotá-lo me ajudará a derrotar isso dentro de mim? Não faço ideia, por isso, tenho medo de continuar.

Mas, claro que vou. Assim como pretendo continuar a viver.

Para mim, pessoalmente, só de ter uma série mainstream onde várias pessoas podem ver em primeira mão o que causa na vida de alguém uma violência que é banalizada pela sociedade, já torna esse seriado mais relevante que tudo que a Marvel já produziu. Estou orgulhosa de poder ter isso para abrir certas discussões.

Mas ainda não farei uma maratona, me desculpem. Vou procurar muitos amigos em quem confio para ver comigo e vou tentar não chorar ao fechar os olhos e saber que assim como o Kilgrave de Jessica ainda a acompanha, o meu também nunca foi embora.

  • Lucas

    Ana, parabéns pela sua força ao compartilhar sua história de vida, sua experiência ao se ver em um seriado como jessica jones.
    por mais que nossa sociedade banalize esse tipo de violência, é exatamente a força de mulheres como você ao mostrar ao mundo que viram o pior do ser humano e estão de pé vivendo e enfrentando o medo, são vocês que mostram que o mundo pode mudar, que ainda existe esperança.
    novamente, parabéns pela sua força, e que cada amanhecer de sua vida seja cheio da luz que você e tantas outras trazem aqueles que buscam forças todos os dias para lutar contra as sombras do mundo.

  • Mari

    ana, obrigada por esse post. entendo o que você quer dizer. essa série conseguiu lidar com esse assunto de uma maneira muito digna, e se você achar que vale a pena, recomendo que assista mesmo. não vou dizer que vai ser fácil: não vai. mas a Marvel conseguiu trazer algo muito interessante aqui e eu terminei a série com a certeza de que é uma das melhores que eu já assisti e que tratou a situação abuso/estupro de uma maneira como eu nunca tinha visto antes.
    o problema agora é explicar para as meninas que, como eu, também são fãs do Tennant, que não, o Kilgrave não deve ser desculpado. mas eu faço disso uma missão pessoal. porque a gente precisa parar de romancear esse problema. porque a gente precisa tratar abuso como a coisa horrível que é. porque tá mais do que na hora de proteger a vítima e culpar o agressor.

    • Ana Recalde

      Eu também sou muito fã do Tennant e acho que ele faz um papel importante ao incorporar esse vilão. Mas temos mesmo que separar o ator do personagem. Fiquei triste ao saber que tem pessoas shippando ele e a Jessica. isso é horrível.

  • Ercy de MIRANDA

    Ana, antes de mais nada, obrigado pelo post. continue a ver sim. a série é um divisor de águas no “mcu” por abordar alguns temas que, até então, “não existiam” naquele universo (homossexualidade, ABUSOS PSICOLÓGICOS E estupro, aborto, ENTRE OUTROS). ESPERO QUE TENHA UMA SEGUNDA TEMPORADA.

  • Maycon Serra

    Por mais que eu tenha empatia para me solidarizar e me emocionar com seu texto, como homem eu jamais vou compreender de verdade suas palavras. Só que queria agradecer sua coragem de compartilhar - expor isto nos ajudará a melhorar - e desejar força. cada dia que você acorda e vai trabalhar, cada sorriso seu de alegria, cada conquista é uma vitória sobre os canalhas opressores. fique em paz!

  • Fernando

    Que texto lindo, ana! e que linda a sua força!

  • Alessandra

    ANA, NEM TE CONHEÇO E ME SENTI TÃO PRÓXIMA DE TI. quantas DE NÓS PASSaram POR ISSO EM SILÊNCIO E O TEU TEXTO É UM ACALENTO. Só um obrigada, um abraço forte, um “a gente vai sobreviver”.

  • m.v

    Que relato poderoso esse seu minha amiga. Eu arrepiei com o fim dele e até agora estou arrepiado, não sei o que dizer, não tenho palavras e jamais saberei o que é essa sensação que você sente e o peso que carrega, mas agradeço pelo relato porque primeiro verei a série com outros olhos, segundo porque é lendo relatos como esse que tento entender um pouco do que as mulheres passam, tento me colocar no lugar delas e nesses momentos percebo que jamais sentirei na pele a realidade vivida por mulheres e isso me dá humildade para ouvir mais e falar menos quando se tratam de causas feministas. obrigado por ter tido a força para falar disso aqui.

  • Madinha

    ANA SE TIVER forças ASSISTA SIM, UM episódio DE CADA VEZ SE A maratona FOR demais.

    SOBRE O Tennant, atuação ASSOMBROSA, ele interpretou como faria um ABUSADOR SEM PODErES. um homem carismático E MANIPULADOR, é MUITO ASSUSTADOR. Na minha opiniao ele e o melhor DA SERIE.

  • Thaissa

    TAMO JUNTO O/ Quantas de nós já não passou por isso?! e ainda somos taxadas de víboras q não se importam com o sentimento dos outros… Mas enfim, dEIXAR O MEDO NOS GUIAR É MAIS UMA FORMA DO AGRESSOR CONTROLAR NOSSA VIDA. TOME COMO EXPERIÊNCIA para não cair nunca mais nessa armadilha E SIGA A VIDA. Obrigada por compartilhar e nos mostrar q nunca estamos sozinhas! Bju 🙂

  • Thaïs

    Que texto emocionante, ana ;~ não tenho tem o que falar, parabéns pela coragem. e quando você resolver continuar a assistir jessica jones, lembra que a gente tá aqui do seu lado, mesmo que estejamos longe =*

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  • Bru

    Sem spoilers, a dor de cada uma de nós é única mas ao contrário das que falaram pra vc ver se aguentar eu te peço que veja até o fim.
    Vão ter horas que seu estomago vai se revirar e vc vai se sentir muito mal, mas o desfecho da história é uma lavação de alma que não dá pra explicar.
    Vale muito a pena, não só pela história, não só pelos nossos abusadores, não só por tratarem um tema desses da forma como trataram. Vale simplesmente pelo sentimento de vitória (e até vingança) em cima dos nossos kilgraves reais. Terminei o último episódio quase voando, de tão leve!!!!!

  • DANIEL

    ANA, PARABÉNS PELO TEXTO. GANHOU UM FÃ. SE TIVESSE NO RJ, TE CHAMARIA PARA GRAVAR . ABRAÇOS

    • Ana Recalde

      Oi, Daniel se eu estivesse no Rio ou você estivesse no Rio?
      Pq eu moro no Rio, hehehehe

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